terça-feira, 21 de abril de 2009

ZÉ OTAVIANO E O CACHORRO

Zé Otaviano tinha muito medo de cachorros. Talvez por algum trauma de infância exagerasse no medo, frequentemente trocando de calçada e até mesmo voltando atrás em seus passos, para evitar o que imaginava ser um embate quase que mortal. Na esmagadora maioria das vezes, o cachorro sequer o percebia, mas ele, fazendo uso de um instinto fantástico de sobrevivência, pressentia que deveria evitar, a qualquer custo, o confronto com a fera. Mesmo o mais inofensivo dos cães metia-lhe medo, argumentava que o animal era irracional e que não havia qualquer garantia de qual seria sua atitude.

Zé gostava muito de uma cachaça que, religiosamente, apreciava todas as noites. Às vezes em minha companhia, ou na companhia do Claudim, na companhia de ambos ou mesmo sozinho, somente ia embora para a república após apreciar algumas doses da “marvada”. Gostava de ficar em botecos até altas horas, batendo papo, ouvindo e contando histórias sobre as pessoas. Ficava até o dono do boteco baixar as portas. Bebia muito. Na Seita Capacitiva chegou ao grau de Cardeal, sendo suplantado apenas pelo Papa Claudim Putero. Bêbado era outra pessoa, às vezes mais agressivo, às vezes mais melancólico. Quando era tomado pela melancolia, tornava-se até choroso. Reclamava de si mesmo e do sofrimento infligido aos outros. Quando ficava agressivo, impingia medo a quem não o conhecia. Tornava-se maior, seus olhos faiscavam, suas palavras cortavam como lâminas, sua vasta cabeleira balançava ao vento ou ao acompanhar o movimento de sua cabeça. Nestes momentos o Zé tornava-se tão somente cabelo, barba, olhos e palavras. Quem não o conhecia sentia-se incomodado com a sua presença. Quando agressivo era muito incisivo, parecia não ter medo de nada, era como se desafiasse o mundo. A sua aparente segurança era traída pela sua tremedeira. O cigarro entre seus dedos era difícil de ser encontrado pela chama que queria acendê-lo. Segurava o copo com firmeza, mas em seu interior a superfície do líquido ondulava pelo chacoalhar de sua mão.

O retorno à república acontecia em um horário em que já não havia viva alma pelas ruas. Tudo já estava fechado e todos já estavam dormindo. Numa dessas madrugadas, voltávamos para casa pela rua São José. Chovera e os paralelepípedos ainda estavam úmidos. De forma incomum, naquela noite Zé não bebera tanto quanto o fazia normalmente, ou pelo menos não o demonstrara até então. Não ficara agressivo e nem tão pouco melancólico – estava normal, o que não era, seguramente, um bom sinal, e seguíamos pela rua com ele a terminar mais uma de suas estórias.

Quando estávamos próximos ao bar do Roberto Peret, aparece um imenso cão á nossa frente. Naquele instante o mundo parou, parou para nós e também para o cachorro. Se tivéssemos que descrever a cena diríamos que um olhou para o outro disse: - Este mundo é muito pequeno para nós dois!!! Não havia para onde correr, não havia como evitar o confronto. Estabeleceu-se aquele silêncio de faroeste quando os pistoleiros se encontram na rua principal em frente ao saloon. Nenhum dos dois demonstrou o medo que sentia. Zé e o cachorro caminharam a passos mais curtos um em direção ao outro, tateando cada paralelepípedo em que pisavam. Olhos fixos nos olhos do outro. O focinho do cão, um pouco mais erguido, procurava captar algum odor decorrente da descarga de adrenalina que acompanha o medo; Zé, com as mãos trêmulas, parecia preparar-se para sacar de uma arma que imaginava levar à cinta. À medida em que a distância entre ambos encurtava, Zé ia dobrando seus joelhos e esticando o pescoço, de modo a ficar menos distante do cão. Quando ficaram a uma distância entre eles inferior a um metro, ele avançou. Avançou latindo agressivamente, para atemorizar seu adversário. Não satisfeito tentou mordê-lo e só não conseguiu fazê-lo porque, terrificado com tanta agressividade, o cão fugiu ganindo pelas ruas vazias da cidade.

Caiafa

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