República de estudante, antigamente, era um local tão mal falado que nem prostituta freqüentava. E quando frequentava, cobrava mais caro porque sabia dos riscos que corria. A Pulgatório foi a pioneira na quebra desse paradigma, quando em 1969 realizou uma monumental suruba no quartão. Fora os quatro casais que começaram a festa, depois outros moradores também acabaram participando da imensa orgia que durou toda uma noite e terminou com pulgatoriano escondendo-se dentro de armário, sobre guardaroupas e outros locais menos votados. O saldo final foram duas gonorréias e um dia seguinte de aulas em que as vozes dos professores ficavam longe, muito longe.
Depois dessa festinha, tudo ficou mais fácil. Até programa fiado em prostíbulo a república tinha. Pulgatoriano tinha crédito. Havia até pulgatoriano que tinha prima trabalhando no local, mas negócio é negócio, família à parte. Tinha morador que, de tão fiel, pagava por mês pelos serviços semanais recebidos. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Entrar na república, sem combinação prévia, nem pensar. Tanto pelo constrangimento que poderiam causar a outras pessoas ali presentes eventualmente, como pelo risco de serem submetidas a um programa mais estafante, sem remuneração compensatória.
Mas naquela noite chovia muito. Os demais pulgas haviam saído para assistirem a uma sessão de cinema e ele ficara sozinho, porque precisava estudar para uma prova no dia seguinte. Antigamente, estudar era uma atividade normal do aluno da Escola de Minas que desempenhava esta tarefa até mesmo em finais de semana. Bateram insistentemente à porta. Com algum desagrado, pela interrupção de seus estudos, foi abrir. Era uma tal de Manteiga, conhecidíssima biscate ouropretana. A mocinha, molhada da cabeça aos pés tremia de frio:
- Posso entrar um pouquinho? Estou morrendo de frio!
Fazer o que? Já interrompeu os estudos:
- Entra.
- Pode me emprestar uma toalha para eu me enxugar? Estou toda molhada e com muito frio!
À medida que a moça foi se despindo, os livros foram se fechando e o estudo deixado para depois. Excetuado pelos dentes da frente que perdera em uma briga, tinha um corpo muito bem feito, formas arredondadas e uma pele muito macia. Seios firmes, pernas torneadas, cabelos negros e lisos e olhos tristes que denotavam o desgosto pela profissão que escolhera.
- Vai uma cachacinha? É para esquentar por dentro...
- Só um pouquinho.
Já totalmente nua, sentada na cama, enxugava seus pequenos pés e reclamava do cansaço e da vida. O republicano, que dias antes brigara com a namorada, ajudou-a a enxugar os pés e apressou-se em lhe fazer algum carinho para minorar seus sofrimentos. Aquele corpinho, antes frio e trêmulo começou a aquecer-se no contato com as suas mãos, cada vez mais abusadas. A tristeza foi abandonando sua face e um sorriso de agradecimento foi nascendo no canto lascivo de seus lábios que logo encontraram os dele. Sob as cobertas riram muito e aqueceram-se mutuamente.
Somente se deram conta de sua situação quando vozes e ruídos anunciavam a chegada dos demais moradores. Como o quarto em que estavam era compartilhado com outro morador, o fragrante foi inevitável. De repente, outros pulgatorianos passaram também a testemunhas da cena. Com as roupas ainda encharcadas pela chuva, Manteiga, enrolada em uma toalha, a princípio tentou resguardar-se de assédios mais ousados, mas por fim concordou em fazer uma dança sensual em frente à lareira. Mas só umazinha. Precisou de mais meio copo da branquinha para tomar coragem. Mas logo já estava enchendo os olhos do pessoal que acompanhava seus movimentos com alguma desenvoltura caipira – lembrava bem o desempenho de uma chacrete. Muitas palmas, assovios, piadinhas, urras, apalpadelas e carinhos mais ousados acompanhavam a exibição, até que alguém se tocou:
- O que você está fazendo aqui?
A princípio alegou que era por causa da chuva e que a sua condição de autônoma não lhe permitia ficar doente, sem prejuízo de seu faturamento. Mas aos poucos foi caindo em contradições, com seus argumentos sendo questionados por alguns mais observadores. E, sentindo a fragilidade de sua retórica, confessou que fora contratada pela ex-namorada do pulgatoriano a que seduzira para saber de suas virtudes sexuais. A partir deste relatório, a contratante avaliaria se deveria ou não voltar a namorá-lo.
Obviamente que o namoro jamais foi reatado, mas a ex-namorada passou à história ouropretana sob o apelido de Sônia Pintão e ainda teve, durante um bom tempo, que ouvir gracejos de estudantes que lhe perguntavam sobre o relatório da Manteiga referente ao seu desempenho sexual. Manteiga se casou com um engenheiro boliviano, formado em Ouro Preto, a quem prestava favores sexuais rotineiros e cuja primeira providência foi mandar-lhe dinheiro para arrumar os dentes, antes de apresentá-la à família. Dona Luzia, nossa comadre, quando soube do ocorrido, e ela sempre sabia de tudo que acontecia na Pulga, passou uma semana sem entrar no quarto do pulgatoriano avaliado.
Caiafa
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