terça-feira, 21 de abril de 2009

NEI DE SOUZA

Festival de Inverno de 1971. A república Pulgatório já tinha um extenso currículo de serviços prestados ao Festival, desde quando passou com ele a colaborar, em 1969. Seu vínculo maior era com a área de teatro que naquele ano era comandada pela Sylvia Ortoff, professora de teatro que viera de Brasília para ministrar o curso. Por gentileza, convidou-me para ser seu assistente. Em contrapartida, toda a sua equipe ficou hospedada na república. Professores de dicção, impostação, dança, visagismo, interpretação, etc. Todos, à exceção da própria Sylvia, ficaram na Pulgatório.

Era um grupo de pessoas muito diferentes daquelas com as quais estávamos acostumados. Arthur Blanck, que só tomava vodka, certa vez fez uma observação muito oportuna. Observou ele que, sendo as noites muito frias, durante o mês de julho, era normal às pessoas normais, ao chegarem, irem direto para defronte a lareira, que naquele tempo sempre acendíamos à noite. Iam, apreciavam o crepitar das labaredas, esfregavam suas mãos e deixavam que o calor proveniente das chamas as aquecesse. Isto era válido para as pessoas com as quais convivíamos no cotidiano. Para os nossos hóspedes da equipe de teatro, a prioridade de aquecimento não eram as mãos, mas sim a bunda, que empinavam em direção às chamas. Era o ritual dos bundas quentes.

Dentre os professores hospedados na Pulgatório havia um mais singular do que os demais: Nei de Souza. Era o professor de teatro infantil, mas sua principal tarefa era assistir à Sylvia Ortoff. Sua singularidade não estava tanto no fato de ser professor de teatro infantil, mas sim nas suas atividades complementares. Arthur não se continha quando todas as manhãs a república, um reduto até então considerado essencialmente heterossexual, amanhecia com garrafas portando flores por todos os cantos. Parecia uma república feminina, instituição rara naquela época. Tudo obra e arte de Nei de Souza.

E o teatro infantil não acontecia. Sylvia já estava ficando desesperada, uma vez que o Nei havia sido uma escolha pessoal sua, embora o promotor do Festival fosse a UFMG. Quem conheceu a Sylvia sabe que sua escolha tinha a sutileza de um ultimato. Até que um belo dia, sem qualquer aviso, o Nei sumiu. Sumiu e não se soube mais do seu paradeiro, até o final do Festival. Desesperada, tendo que cumprir a programação, Sylvia pediu-me que assumisse as aulas de teatro infantil.

Com muita dificuldade e dentro das minhas limitações pessoais, montamos uma peça baseada na história do flautista de Hamelin. Eram aproximadamente umas vinte crianças da região de Ouro Preto, cujas famílias a comissão organizadora do festival tinha interesse em agradar. Grande parte dos ensaios foi na quadra da república, uma vez que não tínhamos outros locais disponíveis. Mas cumprimos com a programação do festival. Na data agendada apresentamos nosso trabalho no Teatro Municipal. Muitos dos participantes da peça ainda se encontram em Ouro Preto, como o Silvinho, dono do restaurante Adega, na subida da ladeira que leva à república Quitandinha, igreja de São José, etc. Ele desempenhou o papel do flautista, principal personagem da estória.

Terminado o festival, cada qual voltou para a sua vida normal. Sylvia Ortoff voltou para Brasília e adquiriu o terreno ao lado de sua pequena residência, para evitar que a embaixada da Alemanha o comprasse e construísse um prédio que pudesse tirar o sol da piscina de seus filhos. Na Pulgatório ninguém mais aqueceu a bunda na lareira e não mais tivemos flores espalhadas pela casa. Arthur continuou bebendo vodka e tentando escapar do Valter Dornellas. O grupo de crianças que participou da peça durante o festival montou um grupo de teatro, tendo se apresentado inclusive em festa do Doze de Outubro. Algum tempo depois, o Nei reapareceu. Não era mais o Nei de Souza, era o Nei Matogrosso.

Caiafa

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