A Escola de Minas foi próspera na produção de engenheiros e na de professores que formaram engenheiros. Depois do Dr. Moacyr Cocó, talvez o mais cômico tenha sido o Dr. Loyola. Suas aulas de Cálculo Numérico eram verdadeiros programas de humor, capazes de disputar audiência com qualquer Chico Anysio da vida. Não foram poucos os casos que levaram os alunos a duvidarem de sua sanidade mental. Cada uma de suas aulas era pontuada por causos que marcaram ora sua vida de estudante superdotado da Escola de Minas, ora sua vida de engenheiro desbravador dos longínquos sertões, ora sua triunfal passagem pelo magistério. Alguns desses casos merecem ser lembrados.
Era estudante da Escola de Minas durante o primeiro governo Vargas (1930-1945) e, no crepúsculo daquela ditadura, as forças democráticas já se aventuravam em praça pública pedindo por “Diretas Já”. Este procedimento foi posteriormente copiado por outros políticos por ocasião do governo Figueiredo, o último dos presidentes impostos pela ditadura militar. Mas naquele dia, ao sair da aula (as aulas eram todas no Palácio dos Governadores) o aluno Loyola encontrou a praça Tiradentes tomada por uma multidão. Pouco depois, um orador inflamado subiu as escadarias do Museu da Inconfidência e deu início a uma longa catilinária contra a ditadura varguista. Ouviu atentamente a tudo. Chegando à república em que morava, transcreveu de memória toda a peroração. No dia seguinte comparou-a às manchetes dos principais jornais que enviaram seus repórteres e taquígrafos (não existia gravador ainda) para a cobertura do evento. A única diferença entre suas anotações e a matéria de um jornal era uma conjunção que ele jurava ser um “e” e o taquígrafo anotara como “ou”. O discurso ocupava mais de meia página.
Formado em engenharia civil, minas e metalurgia (era o tal de engenheiro ecumênico, cuja última turma formou-se em 1968), foi para a região de Governador Valadares. Seu primeiro trabalho foi a elaboração do cálculo estrutural de uma laje de um salão de festas. Naquela época em que as obras eram tocadas pelo conhecimento prático do mestre de obra, cálculo estrutural era entendido como um misto de numerologia e feitiçaria. Recalculou ferragens, areia, brita e cimento, cortando o custo da obra em quase 50%. Rapidamente espalhou-se pela cidade, pela boca de proprietários de lojas de materiais de construção e mestres de obras, que a laje não resistiria ao impacto decorrente de seu uso. Obra pronta, o proprietário temeroso questionou sobre sua segurança. Dr. Loyola não teve dúvida, pagou pela festa de inauguração e passou toda ela sob a laje, efetuando novos cálculos para a obra seguinte.
Na obra seguinte, a construção de uma pequena hidrelétrica no meio do nada, enfrentou uma briga de peões, puro cangaço. Discutiam por assuntos os mais irrelevantes e ameaçavam-se de morte por muito pouco. Naquele mundo perdido, valia a lei do mais forte. Dr. Loyola, com seu quase um metro e sessenta e pouco e mais de 50 quilos, apartou a briga. E, apontando para uma árvore no horizonte distante mandou que um deles fosse para debaixo dela e mantivesse as mãos em concha. Quando viu o peão postado no lugar que indicara, sacou do 38 que trazia à cintura e disparou na direção da copa da árvore. Um pássaro que ali fizera ninho caiu morto nas mãos do peão. Com isto deixou claro para todos quem era a lei do lugar.
No final da carreira tornou-se professor da Escola de Minas. Pelas suas mirabolantes estórias passou a ser conhecido por Dr. Gaiola, uma vez que dava asas à imaginação (ainda não existia o Red Bull) e precisava ser mantido um pouco tolhido para não voar muito alto. Morava em Belo Horizonte e um dia chegou um pouco atrasado para a sua primeira aula. Para justificar o seu atraso contou o que lhe sucedera. Comprara uma pick-up nova, tipo F1000 e resolvera testar o seu desempenho na estrada naquele dia. Foi acelerando progressivamente o veículo até sentir um baque surdo. Preocupado, reduziu a aceleração. Sentindo que o comportamento da pick-up estava aparentemente normal, voltou a aumentar a aceleração, até ouvir novamente aquele baque. Desacelerou e voltou a acelerar, até ouvir novamente o baque. Observou a velocidade marcada no velocímetro, mas desprezou-a por considerá-la não-confiável. Anotou mentalmente os marcos quilométricos da estrada e o tempo entre eles. Parou o veículo e fez alguns cálculos em sua inseparável régua de cálculo (não existiam calculadoras). Repetiu a mesma operação umas três vezes. Concluiu que o baque acontecia todas as vezes em que rompia a barreira do som...
Foi com professores desse tipo que se forjaram algumas gerações pulgatorianas. Se hoje, ao examinarmos algum pulga, encontrarmos alguma anormalidade em seu caráter, basta sabermos os professores a que esteve sujeito para conhecermos as raízes de seus problemas.
Caiafa
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