O Quinto Festival de Inverno de Ouro Preto ia ter a abertura sonhada pelos seus organizadores. No dia 1º de Julho de 1971 seria apresentada no Teatro Municipal a peça Ômega, de autoria de Kelé, dirigida por mim, tendo como contra-regra Magnago, musicada por Dundum e Dandão e trazendo em seu elenco Zé Otaviano, Claudim, Mário e diversos amigos da república, entre eles Mônica e Victor Godoy. Contava também com a participação musical do Moacir Tigrim, que é filho do grande maestro Moacir Maia Portes dos Santos. Era uma mistura de Pulgatório com o que havia de melhor em Ouro Preto.
Desde o seu início o Festival de Inverno sofria um processo de rejeição por parte da sociedade local e a oportunidade de fazer a abertura do evento naquele ano, com um espetáculo essencialmente ouropretano, não passou despercebida ao Júlio Varella. Amigo de primeira hora da Pulgatório e sabedor de que estaríamos montando este espetáculo, fez questão de assistir aos nossos ensaios. Gostou e trouxe alguns críticos para que também pudessem avaliar aquele grupo quase anônimo. O espetáculo era louco demais – não só aplaudiram de pé como ficaram maravilhados com a agradável surpresa de apresentação, plasticidade, musicalidade e criatividade.
Tudo era genuinamente ouropretano e inédito. Com o aval da Sylvia Ortoff, toda-poderosa diretora do curso de teatro do Festival, bateram o martelo: seria o espetáculo de abertura do Festival. No dia marcado, uma quinta-feira, às 21 horas, abriram-se as portas do Teatro Municipal para ser dado início a mais um Festival de Inverno de Ouro Preto. Kelé, que escrevera e reescrevera aquela peça, estava exultante. Era como se fosse a sua consagração como autor. Zé Otaviano consagrava-se como um dos principais atores dramáticos da cidade. Dandão apresentava-se em definitivo ao mundo artístico que estaria atento na platéia. Era o último passo para ser reconhecido como regente do Coral de Ouro Preto. Tudo era motivo de ansiedade para simples amadores.
Mas estávamos em 1971, um dos anos mais obscuros da história recente daquele país chamado Brasil. Tudo era proibido até que fosse permitido. Minutos antes do início da apresentação, com o teatro já lotado, Sylvia Ortoff lembrou-se de um pequeno detalhe: “E a liberação pela censura federal?” Houve uma demorada e inquiridora troca de olhares como se a perguntar e responder: “Mas precisava?”
Nossos olhares oscilavam do desânimo à rebeldia. Nossos corações mandavam que fôssemos em frente, mas nossas mentes pediam prudência. Como encarar aquela imensa platéia que enquanto aguardava ansiosa pelo início do espetáculo já se espremia, de pé, nos cantos do teatro, com todas as cadeiras totalmente tomadas por um público parte interessado em ver seus amigos e parte em assistir uma peça da qual se falara tão bem? Como dizer-lhes que, infelizmente, por causa de um detalhe burocrático, o show não iria acontecer? Naquele instante, Sylvia Ortoff, aquela mulher maravilhosa e forte, tirando a temperatura de nossas ansiedades e lendo os nossos corações, respirou fundo e sentenciou:
- “Começa!!! O resto é comigo.”
Não esperamos pela segunda ordem e demos início ao mais emocionante dos espetáculos já vistos em Ouro Preto. Mais do que interpretação, havia alma no que fazíamos. Era como se aquela fosse a chance definitiva de nossas vidas. O público, por diversas vezes, interrompeu a apresentação para aplaudir de pé o que se passava ao seu redor e acima de suas cabeças. E era um público muito exigente. Tirando os amigos, estávamos cercados pela crítica que enxergava o festival como uma usina de talentos. Aquele público, a contragosto, só percebeu que a peça havia acabado quando o último ator, Dandão, empunhando o seu violão abandonava o palco saindo pela porta do teatro, levando consigo os acordes maravilhosos que encheram os olhos e as almas das pessoas.
Depois que o público se foi, fui chamado pela Sylvia que me deu de presente uma fita cassete em que gravara a apresentação e pediu-me que a guardasse com muito carinho. Era uma herança única de uma apresentação única de uma geração única. Anos depois, para curtir a saudade daqueles momentos resolvi ouvir como fora o espetáculo que ainda trazia gravado na minha mente. Coloquei a fita em um gravador e ouvi a inconfundível voz de Sylvia Ortoff, que pedira licença para ir ao banheiro um pouco antes do início do espetáculo:
“- Senhoras e senhores, boa noite. Meu nome é Sylvia Ortoff e eu sou a diretora do curso de teatro do Festival de Inverno de Ouro Preto. Hoje estamos dando início a mais um dos nossos festivais e, para fazer a sua abertura convidamos o Grupo Experimental de Teatro de Ouro Preto para um ensaio geral de uma peça que estão montando. Repito: não se trata de uma apresentação pública, mas sim apenas do ensaio geral de um trabalho que desejam um dia transformar em espetáculo público. Obrigado e divirtam-se!”
Até agora a pouco, somente eu e a Sylvia sabíamos desta parte da história. Agora você também já faz parte dos conhecedores deste segredo. A Sylvia, infelizmente, faleceu antes que eu pudesse lhe agradecer por mais esta lição de vida.
Caiafa
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