terça-feira, 21 de abril de 2009

OS RESTOS MORTAIS DE GORCEIX

Salutem pluribus!
Et columbatum est!
Donae donaevatum!
Lex persegue me!
Rumble, tumble, frejurebus!
Factus est!

11 de outubro de 1970, o Teatro Municipal lotado esperava ansioso pelo início do Teatro do Doze, que naquele ano levava a peça “São seis horas, paro e penso”, escrita por Kelé e dirigida por mim, tendo o Arthur Blanck por contra-regra. A peça era ambientada em uma Ouro Preto revista pelos olhos de suas figuras centenárias: as estátuas de Tiradentes, as que ficam nos quatro cantos do museu e o busto de Gorceix do hall de entrada da Escola de Minas. Além destes, logicamente, alguns bêbados anônimos que sempre vagaram pela noite. A parte musical ficou por conta do Edmundo e foi a primeira apresentação pública da música do padre João.

Em pleno ano de 1970, ao contrário do que ocorrera em anos anteriores, por exigência da Censura Federal a peça deveria ser submetida à apreciação prévia da diretoria da Escola de Minas. Encaminhamos o texto para o Dr. Pinheiro, diretor da Escola, que o remeteu ao Dr. Moacyr Lisboa, que era o diretor de ensino, para a sua análise. O texto era quase lírico e o Dr. Moacyr não teve dúvida em encaminhá-lo ao Dr. Pinheiro informando não ter encontrado nada que pudesse ser prejudicial à imagem da Escola, ao governo constituído (ditadura Médici) ou ofensivo à moral e aos bons costumes. Não se deu sequer ao trabalho de assistir a um ensaio. A peça foi liberada para apresentação e incluída na programação oficial do Doze.

Naquele Doze ocorreu um episódio muito relevante que foi a chegada das cinzas do Henry Gorceix, trazidas de Paris por um sobrinho-bisneto e sua irmã. Houve todo um cerimonial para a celebração do evento, tendo os parentes do Gorceix participado de todos eles, inclusive assistido à peça em companhia de diretores da Escola.

Como todo Teatro do Doze, era imprescindível mesclar o sério e o escrachado para podermos agradar a gregos e troianos, sóbrios e bêbados, que não tendo o que fazer, iam ao teatro. Era necessária também uma grande capacidade de improvisação, ou porque os atores esqueciam-se de suas falas, ou porque suas falas eram interrompidas pela manifestação de alguém da platéia que achava que estava tudo errado (já existiam Jorges naquele tempo) e queria dar palpite em como deveria ser.

O momento culminante da peça “São seis horas, paro e penso” era o encontro das estátuas. Iniciava-se com Tiradentes que descia do alto de seu pedestal e reclamava do fato de ficar exposto ao sol, chuva, frio, etc. Depois eram as estátuas do museu que lhe faziam eco e lembravam com saudades de uma Ouro Preto menos turbulenta em que podiam conversar sossegados. Neste momento entra em cena Henry Gorceix. Não o Gorceix dos sonhos do Dr. Moacyr, cheio de garbo e virilidade, mas um Gorceix todo de rosa choque, rebolando, saltitante, desmunhecando, revirando os olhos e falando com voz em falsete. Sentava-se no colo das demais estátuas e passava as mãos suavemente pela barba de Tiradentes. A platéia, atônita, diante do inimaginável e grotesco da situação, veio abaixo.

No dia seguinte, Dr. Moacyr veio à Pulgatório. Encontrou-me na sala tomando a derradeira antes do jantar:
- O que o senhor fez com Gorceix foi muito feio! Ficou muito mal para a imagem da Escola. Todo aquele pessoal lá no teatro ficou com uma imagem muito ruim da Escola. O que será que os sobrinhos dele não vão dizer?
- Na certa, Dr. Moacyr, o sobrinho dirá para a sobrinha: “Não disse que era de família, não disse?”

Moacyr desistiu de continuar a conversa. Pesava sobre ele a responsabilidade pela liberação da apresentação. Levantou-se e foi embora.

Caiafa

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