Provavelmente aquele tenha sido o pior candidato a bicho da Pulga de todos os tempos. Apareceu na casa não se sabe de onde e nem tampouco se sabe por quem foi recomendado. O que sabemos é que o acolhemos assim como acolhemos todas essas tranqueiras que fazem a alegria da república até os dias atuais. Ficou vagando pela Pulgatório durante o carnaval, enquanto prestava os exames vestibulares. O termo exato era vagando, uma vez que o protótipo de cascudo era realmente vagal. Parecia que tinha imensos labirintos entre seus neurônios, impedindo que o raciocínio fosse completado em um tempo que fosse no mínimo razoável. Era lerdo, quando conseguia ser muito rápido. No mais do tempo era um morto. Era o cascudo Gardenal.
Um dia, com a ajuda do Claudim, preparamos até uma homenagem à sua desenvoltura e semancol. Ao regressarmos do almoço, logo após a porta de entrada havia uma placa: “CUIDADO COM O MATA-BOBO”. Riu muito, não entendeu nada, mas continuou dando mostras cabais de suas espertezas inatas. A maior delas virou lenda nas terras ouropretanas.
Em meu quarto havia um pequeno armário de parede no qual ficavam meus materiais de higiene pessoal: pente, escova de dente, sabonete, creme dental, etc. Numa daquelas manhãs em que os olhos recusavam-se a aceitar a luz do dia e a cama ainda era convidativa, percebi a porta do quarto sendo aberta devagar, muito devagar. A preguiça, a princípio, impediu-me de reagir. Depois que percebi a presença do Gardenal, foi a prudência que me fez manter a forma de quem ainda dormia. Fingia dormir para evitar a chatice de ter que aturar o cascudo que se limitava a perguntar o óbvio ululante. E sequer entendia as respostas, por mais diretas que fossem. Mas a presença daquela coisa em meu quarto era preocupante. Fingia dormir, mas pelas frestas mínimas das pálpebras, vigiava seus movimentos. Com os olhos fixos no meu sono, aproximou-se do armário da parede e abriu-o com cuidado. Vendo que não havia reação de minha parte, retirou o tubo de pasta dental e a escova de dente. Saiu do quarto e voltou pouco depois, com todo o cuidado, para colocá-los de volta aos seus lugares. A vontade era de trucidar o imprudente, mas o sono e o chamado da cama macia e aconchegante aconselhavam que a vingança fosse deixada para depois.
Continuava a madorna, quando fui acordado pelo Gardenal chamando para o almoço. E eram apenas onze horas da manhã. Com não poderia deixar de ser, além da impertinência do acordar, ainda tomava a liberdade de sentar-se na beirada da cama para mais uma rodada de perguntas que derramavam de seu QI. Sem ânimo para continuar o sono e menos ainda para ouvir suas perguntas, optei por levantar, evitando as obviedades que fluíam livremente de alguma parte perdida do lugar onde deveria existir um cérebro. E o cascudo continuava ali, com seu olhar curioso a seguir os meus movimentos.
Fui até o guarda-roupa e retirei um pote de Talco Antisséptico Granado. Fui até o armário de parede e tomei da escova de dente. Sentado na cadeira, coloquei um pouco do talco na escova e comecei a esfregá-la entre os dedos do pé. Lentamente, um a um, abria os espaços entre os dedos e aplicava o talco entre eles. Evitava olhar para a cara do Gardenal, mas imaginava o que se passava em sua cabeça, ainda que com algum atraso no relacionamento dos fatos. Disse que me aguardaria na sala e saiu do quarto apressado.
Uma hora depois, de banho tomado, encontrei-o na sala, já com a coloração meio esverdeada, e foi fácil convencê-lo a trocar o almoço por um breakfast. Fomos ao Roberto Peret. Pedidos os sucos e os sandubas, comecei a contar-lhe de como havia tratado a micose que por pouco não me levara embora os dedos dos pés. Descrevi com detalhes a coceira e o mau cheiro com o qual tive de conviver. As meias e os tênis que tive que jogar fora pelo insuportável odor que desprendiam. Subitamente, apeou-se da banqueta e saiu rápido da lanchonete.
Terminado o lanche, paguei e voltei para a Pulga. No caminho encontrei o Gardenal, totalmente verde, debruçado na Ponte dos Contos, olhar perdido em direção ao Bêra. Apoiado no beiral da ponte, contei-lhe de como havia adquirido a micose nas águas poluídas pelos esgotos domésticos que chegavam ao Bêra. lívido, Gardenal devolvia do alto da ponte tudo o mais que ainda restava em seu pobre organismo. “Surpreso” com o que lhe acontecia, aconselhei o cascudo a “moderar na cachaça, era preciso primeiro acostumar o organismo gradativamente, antes de impactá-lo com doses com as quais não estava acostumado. E, o melhor, nestas ocasiões de ressaca era absorver ar puro, bastante oxigênio, para facilitar a queima do álcool restante”.
Sem condições de opor resistência deixou-se levar pelo braço através das ruas São José e Direita, respirando fundo, enquanto ouvia sob as muitas horas que tive que passar com os pés imersos em água com bicarbonato. Foi uma aula completa de medicina no relacionar a micose à doença que levou o Aleijadinho à sua degradação e deformação anatômica. Não resistiu à tortura, foi embora no mesmo dia, abandonando o próprio vestibular. Não sem antes passar à história ouropretana com um novo apelido: Cospe-cospe.
Caiafa
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