Acordo ainda zonzo. O quarto, embora familiar, não é o meu. Abro a janela: não é o adro do Rosário. Ressabiado, volto para a cama e espero a razão voltar. De repente a porta é aberta e entra o Caiafa perguntando como sobrevivi. Cai a ficha: estava na “Pulgatório”. Mãos caridosas me levaram de terno branco engomado, depois de capotar na ala do GETOP da Escola de Samba Unidos do Padre Faria. Estava na minha segunda casa em Ouro Preto.
Para muitos de nós a “Pulgatório” foi o espaço de liberdade que ganhamos após o fechamento da sede do GLTA, na parte de baixo da Casa dos Contos. Lá, as conspirações ideológicas dos 60; aqui, viver o desbunde dos 70.
Não sei se sobrava espaço na “Pulgatório”. O fato é que nunca soube de uma república com tanta disponibilidade para adotar nativos. Talvez seus moradores tenham percebido a “deixa” do mestre Kelé que dizia: “nativo é um estado de espírito”. Dois deles, Caiafa e José Otaviano eram dos nossos, ou seja, da “turma do teatro”.
Buscando espaço no Festival de Inverno, nos encontramos em 1969 na seleção de atores ouropretanos para a montagem de ”Os Irmãos das Almas” de Martins Pena, dirigida por Bennet Oberstein. Depois soubemos que aquela figura ascética como um monge trapista (que depois mostraria suas garras), o Caiafa, era um estudante recrutado por Júlio Varela para ajudar na seleção do grupo (Júlio estava hospedado na “Pulgatório”). Depois dos ensaios no salão Paroquial do Antônio Dias, a coesão do grupo foi consolidada nas noites (e depois manhãs e tardes) de corriola na república da Rua Paraná. Escalo aquele time inicial: Marta, Maria José, Armando Wood, Toninho, Geraldo Maia, Geraldo Mengálvio, Orlandinho, José Flores e o locutor que vos fala.
Literalmente muitos se mudaram para lá naquele mês de julho. Só aparecíamos em casa de vez em quando para a constatação familiar de que continuávamos vivos.
Após o Festival, animados com o retorno de Tatu de suas andanças latino-americanas, alguns resolveram manter a chama e o GETOP foi consolidado: Caiafa, Orlandinho, Tatu, José Otaviano, Mônica, Kelé, Toninho, Tem-tem e Betinha, Cida e Maria do Carmo, Mengálvio, Vinício, José Emídio, Cristina, Luisa, Sílvia, Armando, Carlos Alberto “Dandão Sossego”, Edmundo, Dé, Joana, Mara, Virgínia, Jane e André. Esta turma foi se revezando numa leitura de Qorpo Santo no REMOP e nas montagens de “São seis horas: paro e penso” escrita por Kelé, ”Apologia” (em duas versões: uma curta para o encerramento do Festival e outra para o Teatro do Doze - ambas de Caiafa) e Ômega de Kelé. Em 1971 o grupo foi a base do “Auto da Barca da Esperança” escrita e dirigida pela saudosa Sylvia Orthof e fez oficinas semanais com o Living Theatre visando a apresentação da “Herança de Caim” na abertura do Festival, abortada pela prisão da trupe americana. Além desses tivemos o privilégio de contar com a orientação de sumidades como os “corvos” José Amorim e Sérgio Bini, a grande figurinista Celsa Rosa e os diretores Geraldo Maia, José Antonio de Souza e Amir Haddad.
O pano de fundo de tudo isto foi a “Pulgatório”, onde podiam ser vistas, sob o olhar complacente e cúmplice de moradores como Claudim Putero, Magnago, Zé Moacir Tigrin, Babalu, Trovão e Fininho, cenas do tipo:
- uma tenda armada no meio da sala de onde saiam, de repente, em meio a uma nuvem de incenso, um homem alto, careca e de cabelos longos e uma mulher miúda de olhos penetrantes. Eram Julian Beck e Judith Malina do Living Theatre que tiveram na “Pulgatório” o seu primeiro abrigo ouropretano.
- um jantar psicodélico elaborado pelo “chef” Caiafa onde os pratos doces eram salgados e os salgados doces, regados a vinho Maravilha São Roque. No dia seguinte, vários moradores do Fundo de Ouro Preto procuraram a Prefeitura, alarmados com estranhas colorações do córrego Virabostim (ou dos Contos); investigações detectaram a origem na Pulgatório, onde todos juraram não saber do que se tratava.
- em um 21 de abril foi aberta enorme faixa em frente à república anunciando às turistas a presença de um sábio indiano, ”primo do guru dos Beatles”, que daria consultas gratuitas sobre assuntos transcendentais. Quem adentrasse ao recinto veria junto a lareira, em um trono coberto de flores, a impávida figura de José Otaviano Junqueira, de mãos postas, cercado de cariocas ávidas em desvendar o futuro.
Sorte na vida ter vivido este tempo.
Victor Godoy
Esta é a única história deste livro escrita por alguém que não morou na Pulgatório. Victor Vieira de Godoy se formou em farmácia e desde então já exerceu vários cargos na escola de Farmácia, onde foi diretor, e na UFOP. Já foi secretário de Cultura de Ouro Preto. É um amigo querido da “velha guarda” e frequentador assíduo da república nos seus primeiros anos.
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