terça-feira, 21 de abril de 2009

O CARECA CABELUDO

Em dezembro de 1970 aportou na Pulgatório uma figura um tanto quanto exótica para os padrões a que estávamos acostumados, era um careca cabeludo. Explico. Tinha cabelos apenas nas partes laterais da cabeça, sendo calvo na parte de cima. Os cabelos grisalhos das partes laterais caíam pelos ombros. Era o careca cabeludo, como ficou sendo conhecido no folclore ouropretano. Mais exótica ainda era a sua vestimenta, uma longa bata roxa com detalhes em dourado e prateado que se estendia até os pés. Já estávamos aguardando a sua chegada, adrede combinada, mas mesmo assim houve o impacto de sua figura. É muito difícil de detalhar, imagine o líder maluco de Poltergeist II. Era o próprio, em carne e osso, ali na nossa frente. Mas a surpresa não terminaria aí. Acompanhava a figura uma mulher baixa e de compleição franzina, de cabelos escuros pela pintura, lábios e sobrancelhas desenhadas a lápis. Também é muito difícil descrevê-la. Imagine a avó da Família Adams – era a própria. Também em carne e ossos. Mais ossos do que carne.

Julian Beck (veja este nome no Google) e Judith Malina (veja também no Google) comandavam um dos mais importantes grupos teatrais do mundo, The Living Theatre (veja também no Google) e vieram direto à Pulgatório por recomendação de alguns amigos nossos. Mais incomum do que suas figuras, somente o seu casamento. Julian Beck tinha um amante, o brasileiro Ilion Troya e dividia com Judith Malina o amor de Lester Schwartz, um bissexual.Completava a família a pequena Isha, de quatro anos, filha legítima do casal.

Além destes, outros participantes do grupo também ficaram hospedados na república até o final de fevereiro, quando a casa voltou à normalidade com a chegada dos estudantes. Tivemos um bom relacionamento durante todo este período e também posteriormente, quando se mudaram para uma casa alugada na Barra. Em momento algum causaram qualquer constrangimento ou mesmo qualquer embaraço à república. Eram mais um motivador de curiosidade do que de espanto. Mas era um pessoal diferente, que incomodava pela sua postura despojada e invulgar. Andavam sempre em grupo e relacionavam-se muito pouco com a sociedade elitizada local que os via com desconfiança.

Em momento algum causaram qualquer problema a quem quer que seja, mas era um pessoal estranho, impenetrável em sua maneira exótica de ser e isto incomodava muito. Incomodava não só em Ouro Preto, mas até mesmo em Brasília que, em plena ditadura militar (apogeu dos anos de chumbo), via como ameaça tudo aquilo que não podia controlar. Era razão suficiente para que se mandasse prendê-los. O crime, tentaria descobrir-se depois. Por fim acabaram sendo acusados de porte ilegal de droga, um pacotinho de maconha “encontrado” na casa por eles ocupada.

O julgamento, que teve lugar no fórum de Ouro Preto, foi uma peça de Kafka. À primeira testemunha de acusação o advogado de defesa perguntou se ele vira o pessoal consumindo droga. Disse que não, mas fez um discurso contra o uso da droga. O juiz balançou a cabeça. À segunda testemunha de acusação foi feita a mesma pergunta. Também afirmou que não e completou:
- Mas o povo está dizendo que usam (droga) e a voz do povo é a voz de Deus.

O juiz voltou a balançar a cabeça, dando a entender que estava perdendo o seu tempo. Eu era testemunha da defesa e respondi às questões sobre o seu comportamento enquanto hóspedes da Pulga. À outra testemunha de defesa, Orlandino de Seixas Fernandes, diretor do museu, perguntou-se se os visitara na casa que ocupavam. Respondeu que sim. Voltaram à carga, questionando-o sobre o que achara da visita. A resposta foi curta e invulgar:
- Detesto comida macrobiótica!

Com o universo intelectual e artístico brasileiro amordaçado, o governo federal começou a receber pressões de todas as partes do mundo intelectualizado, reclamando pela soltura do grupo. Cartas de políticos renomados e artistas famosos chegavam a todo instante. Editoriais de jornais civilizados falavam da inconsistência e da ilegalidade da prisão sem culpa. Até a Pulgatório foi parar no The New York Times pela sua contribuição à acolhida do grupo e à assistência em seu julgamento. Não tendo argumentos para sustentar a prisão, o governo federal optou pelo banimento do grupo em julho de 1971. Em 1988 saiu a sentença: absolvidos. Julian Beck falecera um ano antes.

Depois destes episódios, apareceram vários “Julian Beck’s” na Escola de Minas e, provavelmente, muitos nunca souberam o porquê do próprio apelido. Eram os carecas cabeludos.

Caiafa

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