“Entre uma e outra contradança, fazia-se
música; várias damas cantaram agradavelmente,
e um soldado pronunciou um discurso de sua
autoria... Sem dúvida para pagar um tributo aos
costumes do país, uma mulata dançou uma
espécie de fandango, e as mesmas senhoras às
quais nos era apenas permitido endereçar a
palavra, se portavam como espectadoras
pacíficas dessa dança extremamente livre sem
que pessoa alguma estranhasse isso... Não
conhecendo ainda os costumes do país, eu
imaginava que durante a nossa estada em Vila
Rica teríamos a oportunidade de rever aquelas
damas que havíamos encontrado em casa do
governador... Por várias vezes visitamos os seus
maridos, que eram pessoas de destaque na
cidade, mas nunca mais encontramos uma só
mulher.”
(Augustin François Cesar Provençal de Saint-
Hilaire, in Baile no Palácio – 1816)
Acredite, um dia o mundo já foi assim! Não havia celular e nem internet. As meninas eram chamadas de damas e as festas aconteciam no Palácio do Governador. Soldado fazia discurso e mulata dançando era um espetáculo exótico. E, encontrar meninas na rua, nem pensar...
A Festa do Doze já foi bem diferente. No final dos anos 60, ela ocupava toda uma semana – era a Semana do Doze. Cheguei a batalhar duas semanas dessas... Durante esse período não havia aulas e a semana era totalmente dedicada a festas comemorativas do aniversário da Escola de Minas. Dia 12 de outubro ainda não era considerado feriado religioso, então pouco importava em que dia da semana caísse, caía sempre na Semana do Doze. Além de jantares, almoços e outras comemorações, havia também bailes e peças de teatro.
Basicamente havia três bailes: o do dia 10, do dia 11 e do dia 12. O baile do dia 10 era meia-boca, permitindo a entrada de rapazes em trajes esporte fino – esporte fino é calça social, camisa social e sapato com meia - e moças trajando calças compridas. Nada de bermudas, calça jeans, camiseta ou tênis. O conjunto que o animava era de terceira categoria e muitas vezes acabava sendo substituído por um toca-discos. É isto mesmo que você está pensando: naquele tempo não havia ainda CD, DVD, MP3, etc. É muito difícil imaginar como é que aquele pessoal conseguia viver sem essas conveniências da vida moderna...
O baile do dia 11 era o mais elegante de todos. Geralmente era animado por um conjunto de primeira linha e, para entrar no salão, era exigido dos rapazes o traje social completo, normalmente terno escuro e gravata; e para as moças o uso do vestido era obrigatório. Como moças (assim, no plural) era um artigo meio incerto, a imagem que mais ficou desses bailes era daquele bando de pingüins bêbados encostados na parede do CAEM. O Dr. Moacyr Cocó, já na fase paleontológica da vida, um dos decanos da Escola, fazia parar o baile por volta da meia-noite para ir até a sua casa buscar sua flauta e puxar as musiquinhas da Escola. Porque ele já não trazia a flauta ao vir para o baile? A ida até a sua casa fazia parte do ritual que impunha a todos os demais.
O baile do dia 12 era meio-termo, nem muito chique e nem muito esculhambado. Aos rapazes exigia-se o traje passeio – traje passeio é paletó e gravata - e às moças permitia-se o uso de um traje mais informal, tipo saia e blusa ou mesmo um tailleurzinho. O conjunto era de segunda linha, mas segurava o rock, digo, o sarau, até o fim. Desses bailes a melhor imagem era a ressaca – ressaca de bebida, ressaca de comida, ressaca de festas e ressaca das ressacas. E o padre Simões vistoriando todos os recônditos de Ouro Preto para ter assunto para o seu sermão no domingo seguinte.
Mas tinha gente que não conseguia esperar pelo final do baile. Em meio à contradança, como diria Saint-Hilaire, pediu licença à sua dama (olha ele aí de novo), atravessou o salão a passos rápidos, debruçou-se na janela e colocou para fora tudo aquilo que havia comido e bebido naquele dia. Lá embaixo, junto à portaria, o PM que fazia a segurança recebeu no capacete toda a carga despejada por aquele pulgatoriano quase em estado terminal.
Caiafa
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