terça-feira, 21 de abril de 2009

JUAREZ, HEBER E O JOGO DE TRUCO

Heber e Juarez foram companheiros desde os tempos de Colégio Militar de BH, escola que deu ao mundo alguns outros pulgatorianos. Foram colegas de sala do José Carlos Pace, que naqueles tempos de garoto já dizia que o negócio dele era ser piloto de corrida. Todos achavam graça no que dizia, uma vez que “corrida de carro” era coisa de norte-americano excêntrico. Era determinado. Conseguiu seu objetivo, mas desfrutou pouco. Juarez tinha mais dois irmãos que estudaram na Escola de Minas: Emerson, que se formou alguns anos antes dele e gostava de literatura de bang-bang; e Wagner, um ano mais moço, que chegou a morar na Pulgatório, mas infelizmente não se adaptou ao ambiente e acabou por abandonar a república e a escola nos seus primeiros dias de Pulga.

Heber e Juarez, durante todo o tempo em que moraram na Pulga, sempre habitaram o mesmo quarto ao lado da boate. Quarto este que era bem diferente do que hoje lá se encontra. Era quase um quarto de despejo, sem iluminação, piso ruim, paredes mofadas, sem ventilação, indigno mesmo de ser chamado de quarto. As camas resumiam-se a dois colchões atirados no chão; mesas e cadeiras eram móveis absolutamente dispensáveis. Mas para eles, cujas famílias moravam em BH, passar algumas noites por semana naquele lugar não era um sacrifício tão grande.

Eram muito amigos e andavam sempre juntos. Optaram pelo mesmo curso de metalurgia e seguiam a mesma rotina semanal. Passaram pela Pulgatório e pouco com ela se envolveram, embora gostassem de um carteado, normalmente truco ou king, que eram os jogos daqueles tempos. Nestas raras ocasiões, tornavam-se legítimos pulgatorianos, jogando baralho e tomando cachaça. Metalurgia era um curso elitista, em contraposição aos de minas e geologia, que eram vistos como sendo para pessoas com menos vocação social. Eram freqüentes as brincadeiras onde essas caricaturas eram colocadas em pólos opostos. E Heber e Juarez correspondiam bem ao perfil de um típico engenheiro metalúrgico, contrapondo-se ao Faustim, que era a caricatura do engenheiro de minas.

Para facilitar a obtenção de estágios, o pessoal do quinto ano de metalurgia conseguiu junto à diretoria de ensino da escola, concentrar todas as aulas na quartas e nas quintas-feiras. Quem conseguia fazer estágio dispunha do restante da semana para este fim; quem não conseguia, tinha um final de semana bastante prolongado – era um ano social. Como moravam em BH, Juarez e Heber vinham para Ouro Preto no primeiro ônibus da quarta-feira, cujo ponto final era na praça Tiradentes. Chegavam por volta das sete horas da manhã, atravessavam a praça e entravam direto na escola, que funcionava no Palácio dos Governadores, onde ficavam em aulas durante toda a manhã. Saíam das aulas por volta do meio dia, almoçavam no Remop e voltavam para as aulas da tarde.

Terminavam as aulas lá pelas cinco e meia da tarde e entravam direto no Remop para o jantar. Somente após o jantar vinham para a república. Dormiam e, no dia seguinte, trajando a única muda de roupa que traziam em uma pequena sacola, iam para as aulas matinais de quinta-feira. Terminadas as aulas da manhã, almoçavam e iam para as aulas da tarde. Findas as aulas vespertinas pegavam o ônibus de volta para BH. Nem jantar em Ouro Preto nas quintas-feiras se davam ao trabalho. Poucas vezes ficaram em Ouro Preto além do tempo mínimo para as aulas de seu curso. Final de semana ou feriados, nem pensar – o chamado de BH era muito mais forte. O guarda-roupa de ambos era a maletinha em que traziam a muda de roupa para o dia seguinte; de espelho, cabide e outros luxos, nunca fizeram uso. Tirando o carteado das noites de quarta-feira, pouco aproveitaram da casa.

Numa daquelas quartas-feiras, estávamos curtindo o nosso carteado na sala, quando ambos chegaram. Seguindo um critério democrático, ora um, ora outro, aqueles que jogavam cederam-lhes seus lugares à mesa. Ficaram ambos imersos no carteado, enquanto os outros pares eram trocados de tempos em tempos. Até que, de repente, Dona Luzia, a nossa primeira comadre, irrompeu na sala e começou a faxina, após já ter deixado pronto o café da manhã. Neste momento se deram conta do horário, levantaram da mesa, tomaram café e foram direto para as aulas de quinta-feira. Naquela semana não chegaram a ir ao próprio quarto, que ficava diretamente abaixo do local onde se encontravam.

Caiafa

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