terça-feira, 21 de abril de 2009

PULGATORIANO HONORÁRIO

Nascido em Ouro Preto, criado em Ouro Preto, formado em Ouro Preto, passou na magnânima bons momentos de sua juventude. Dotado de boa formação política, desde cedo gostava de fazer nossas conversas enveredarem para este campo. Chegava à casa no final da tarde, começo da noite e passávamos horas a conversar junto à lareira entre generosas doses de pinga. É, nunca fomos chegados a uísque, vodka e outras beberagens, o nosso negócio era cachaça, que naquela época, quando de qualidade inferior, era conhecida como pinga. Cerveja só em eventos sociais. Nossos bolsos não comportavam esse luxo todos os dias.

Era tão freqüente na república que passamos a chamá-lo de pulgatoriano honorário. Conhecia das coisas da casa e principalmente do espírito das coisas. Sabia mais da vida da casa do que muito ex-morador com retratinho na parede. Foi companheiro em muitas jornadas, muitas serenatas, muitas peças de teatro e ainda hoje, um pouco mais conservadores em nossas empreitadas, ainda conseguimos manter acesa a nossa amizade.

Naquele dia chegou mais cedo, tinha algum segredo, alguma mágoa, alguma tristeza que não queria revelar. Falou pouco e bebeu muito. Com muita dificuldade, ajeitava com o dedo médio os óculos de aros finos que teimavam em escorregar pelo nariz. De tempo em tempo fazia menção de se retirar, sem saber para onde ir. Por fim pediu-me que o acompanhasse até a zona. Em princípio estranhei este comportamento que lhe era incomum, mas como ele estava todo estranho, achei melhor não deixar que fosse sozinho, bêbado, àquele lugar. Tropeçando nas próprias pernas e eventualmente amparando-se nas paredes, sob uma chuva fininha, fomos para a Xavier da Veiga.

Mal chegados na Santita, partiu cambaleante para cima da primeira mulher que passou à sua frente. Ela, avaliando o seu estado de embriaguez, esquivou-se. Ele, sem dominar a inércia do corpo, passou direto e acabou por enfiar os pés em uma imensa poça d’água formada pela chuva. Saiu da água que lhe cobria completamente os pés, encostou-se à parede, ajeitou os óculos, retirou os sapatos e descalçou as meias, guardando-as no bolso da jaqueta. Calçou novamente os sapatos e confessou o medo que sentia naquele momento:
- Acho que peguei uma gonorréia no pé!

Aborrecido com o fora recebido na Santita, arrastou-me para o bordel do final da rua. Entramos na sala e nos acomodamos nas cadeiras. O local estava com pouco movimento: era meio de semana e o tempo não era animador. Mesmo assim o jukebox no cantinho proporcionava algum motivo para se deixar estar. Neste momento, sentiu que uma das mulheres ali disponíveis poderia ser aquilo que lhe faltava naquela noite. Como estava sem dinheiro, pediu-me alguns trocados para mudar o disco, colocando algo mais apropriado para o que desejava fazer. Trocou a música e tirou a dama para dançar. Dançaram de rostinhos colados. A música ainda não havia terminado quando se dirigiram para o quarto. A minha preocupação cresceu, afinal a mocinha estava a serviço e certamente iria querer receber pelo seu trabalho. Casos dessa natureza não costumam ser pagos com amor e, quando não são devidamente pagos, podem transformar-se em confusão.

Passados uns quinze minutos, alegre e recomposto, ajeitando seus óculos sobre o nariz, com um sorriso maroto nos lábios, saiu do quarto, atravessou a sala com a mocinha a fitá-lo ao longe, pegou-me pelo braço e calmamente dirigiu-se à porta. Estranhei a naturalidade do seu comportamento, afinal como ficara a paga pelos carinhos da donzela?
- Estudante paga meia!
- Sim, mas você não tinha dinheiro nem para a música...
- Mas dei a ela aquelas meias contaminadas pela gonorréia da Santita.

Caiafa

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