terça-feira, 21 de abril de 2009

SERESTEIROS ACIDENTAIS

Era segunda-feira, uma segunda-feira qualquer, mas mesmo assim resolvemos encarar a serenata não programada. Estranho dia para uma serenata se você considerar que a terça-feira seria um dia normal, com aulas, provas e horários, não seria um daqueles feriados que encurtam a semana. Mais estranho ainda é que nem o tempo era convidativo para uma seresta, nada de lua cheia, nada de noite acalorada e envolta em perfume, apenas mais uma noite morrinhenta, chuvosa e fria. Daquelas em que a umidade penetra nos ossos e cobra muita cachaça para ser expulsa de lá. Noite boa para acender a lareira, tomar a saideira e depois dormir. Em tudo esta seresta seria incomum, até mesmo nos novos companheiros que se agregaram ao bando.

O nosso grupo de serestas era muito seletivo. À exceção do Dandão, somente admitíamos outros tão desafinados como nós. O nosso negócio era evitar a concorrência. Nossas musas tinham que ouvir os nossos desafinos e serem testemunhas dos nossos desatinos para elogiarem o restante de nossos atributos. Mas naquela segundafeira resolvemos abrir uma exceção, ou melhor, quatro exceções. Agregamos ao nosso conjunto RDM (Ruins De Mais) quatro rapazes que estavam passeando em Ouro Preto e que há pouco estiveram na Pulga.

Desfrutávamos de um relacionamento privilegiado com Júlio Varella que, dentre outras atividades, desempenhava também a de diretor do Teatro Marília em Belo Horizonte. Esse teatro, assim como a maioria das casas de espetáculos, folgava às segundas-feiras e, dependendo do tipo de show que estava em cartaz, aproveitávamos para trazê-lo a Ouro Preto. Foi assim que Ouro Preto assistiu Arena Conta Zumbi, Juca Chaves – que acabou sendo usado para fazer propaganda da candidatura do Geléia para o CAEM e tantos outros.

E, naquela segunda-feira, após o show no Teatro Municipal, a pedido deles, fomos acompanhá-los em uma seresta pela cidade. Pelo dia da semana, pela chuva miúda e ininterrupta que caiu durante toda a noite, foi uma das serenatas com menor IBOPE em nosso currículo. Também não passou pela cabeça de nenhuma de nossas musas, vítimas de nossas serenatas, que aquela noite era especial. Exceto pela casa da Sandra, no final da rua Direita, quase chegando à praça Tiradentes. Ao ouvirem a cantoria, chegaram à sacada e puseram-se a apreciar. Afinal a nossa empreitada estava salva. Mas aos poucos os olhares das meninas foram se desviando da turma que cantava e concentrando-se na turma dos desafinados que, sentindo-se deslocados e pela primeira vez em inferioridade numérica, disputava um animado joguinho de dados. Da serenata provavelmente não se lembram, mas da torcida pelas jogadas que se sucediam, participaram efusivamente.

Finda as casas que deveríamos premiar com a nossa cantoria, fomos tomar café da manhã na casa da Domitila Amaral, próximo à República Serigy. De lá, por volta de umas dez horas da manhã, saímos direto para uma mesa de sinuca na rua São José, dando por encerrada a parceria de uma única noite. E nem cobramos qualquer cachê por isto. Naquele dia não dava mais para ir para a aula, mas nossos parceiros ainda tinham compromissos em BH.

Meses depois o Festival de Inverno seguia a pleno vapor e, na Pulgatório, além de alguns professores do festival, recebíamos também alguns turistas. Turistas de ocasião, destes que moram em cidades próximas e vêem a Ouro Preto apenas para fazerem aquilo que não têm coragem de fazer em suas cidades. De repente alguém anunciou:
- Gente tem um pessoal dando uma canja lá no Calabouço! Vamos lá para curtir um sonzinho.

A república ficou vazia em um instante, ficamos apenas nós, a lareira acesa e uma garrafa de pinga. Passada uma meia hora, batem à porta insistentemente. Quem seria àquela hora, naquele dia em que todos estavam indo ao Calabouço para assistir uma canja? Na falta de um bicho, fui atender. Eram os nossos quatro companheiros de seresta, também conhecidos no mundo artístico com MPB4:
- Dá para a gente ficar um pouquinho aqui na república? Lá no Calabouço tá um saco! A gente quer bater papo, tomar umas cachaças e tem um bando de chatos querendo que a gente cante...

Tivemos que colocar mais lenha na lareira e buscar outra garrafa de cachaça.

Caiafa

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