terça-feira, 21 de abril de 2009

O INTRÉPIDO DESBRAVADOR DOS SETE MARES

Mequinho, o Véio, era um sujeito super boa praça; sempre de bom humor, prestativo e educado, era um companheirão. Tinha um papo ótimo e com ele era certo ter-se boas horas de prosa descompromissada e saborosa. A única coisa que não podia acontecer era deixar o Véio à vontade com alguma visita; aí Mário Roberto Mechi extrapolava. A coisa sempre era precedida por um silêncio quase sepulcral, seguido de um pigarro longo e significativo; esse era o primeiro sinal de que a sua fabulosa máquina de mirabolantes fantasias estava apta para entrar em funcionamento pleno. Quando tal fato ocorria, necessário era entrar-se imediatamente em ação, para evitar que o processo criativo do nosso bravo Mequinho entrasse em fase irreversível, fato esse extremamente perigoso, tanto para o narrador, quanto para os ouvintes, que perdiam totalmente a noção da realidade.

Certa feita, estando em visita à república um grupo de estudantes paulistas, Mequinho ficou encarregado de ciceronear os convidados pelas dependências da casa, procedimento que invariavelmente começava pela sala, passava por quartos e saletas internas e terminava na boate, atração principal da república.

Com muita aplicação e simpatia, o Véio desempenhou exemplarmente a sua função; correu toda a casa descrevendo cada detalhe de sua arquitetura, falou sobre os hábitos dos moradores, citou uma a uma as principais comemorações pulgatorianas, enfim, deu um verdadeiro show de hospitalidade. Para fechar com chave de ouro tamanho “tour”, nada com escutar um sonzinho na famosa boate da Pulgatório. Assim foi feito e, se já estavam deslumbrados com a estrutura singular daquela casa de estudantes, o grupo de visitantes encantou-se ainda mais com aquele recanto aconchegante de lazer. Muito à vontade, se espalharam pelas almofadas da boate, cada um descrevendo outras viagens efetuadas e comparando-as com as agradáveis surpresas daquela atual excursão.

Foi nesse ponto que a situação começou a ficar fora de controle. À medida que os convidados discorriam sobre suas experiências pessoais, Mequinho foi retirando-se em um silêncio preocupante e cada vez mais profundo e quando o Né, encarregado também de acompanhar o grupo, percebeu já era tarde demais; após um longo e expressivo pigarro, o Véio soltou em cima dos visitantes toda a cachorrada da sua fértil imaginação, que entrou no recinto uivando desesperadamente e com uma vontade incontrolável de abocanhar todos os presentes.

Como o tema era viagens, Mário Mechi começou a falar da vez em que ele e um primo, em passeio curto à cidade de Santos, após visitarem os principais pontos daquela bela cidade do litoral paulista, resolveram conhecer o cais do porto e suas imensas embarcações. Rodaram pelas docas, conversaram com estivadores, admiraram o trabalho ciclópico dos guindastes, deixando para o final a pequena excursão ao interior de um dos navios ancorados, que naquele dia estava aberto ao público para visitação. Tomaram tal decisão porque não poderiam deixar de primeiro conhecer um afamado botequim portuário, recomendado por amigos chegados de Ribeirão Preto, onde o freguês poderia saborear uma deliciosa sopa de siri, acompanhada da cerveja mais gelada de toda Santos.

Mequinho e primuzão partiram céleres em busca do tal botequim e não precisaram gastar muita sola de sapato, em poucos minutos estavam diante do dito cujo. Ocuparam uma mesa próxima a porta, uma vez que também queriam apreciar o vai-e-vem do cais e caíram matando em sopas de siri, moquecas de peixe e caldos de caranguejo, sem falar nas cervejotas estupidamente geladas, que mal tinham tempo de baixarem na mesa para imediatamente serem sorvidas com sofreguidão e deleite.

Lá pelas sete da noite, completamente mamados, resolveram pagar a conta e darem um pulo no tal navio aberto a visitação. Apesar do avançado da hora, da escuridão e da iluminação um pouco deficiente, os dois turistas encontraram a tal embarcação. Sem dificuldades chegaram até o convés e mal tiveram tempo de percorrer alguns metros, uma vez que uma incontrolável lombeira tomou conta dos dois, obrigando-os a se abrigarem sob um dos botes salva-vidas, a fim de se entregarem aos braços de Morfeu.

Após um agitado sono pesado, talvez causado pela diversificada dieta marinha, Mequinho acordou meio ressaqueado, com aquele conhecido gosto de guarda-chuva na boca. Para livrar-se de tal desconforto, cutucou o primo, que roncava ao seu lado e ambos desceram da embarcação, imediatamente saindo à procura de um botequim no qual pudessem curar-se daquela ressaca com outro monumental porre. Dessa vez foram menos exigentes, não escolhendo o local onde consumariam a sua bebedeira; no primeiro bar do cais-do-porto em que deram as caras, a dupla entrou, sentou e pediu duas bem geladas, acompanhadas de uma porção de lulas.

E assim foi o dia inteiro, o filme da véspera repetido em seus mínimos detalhes. Altas horas, novamente prá lá de Bagdá, bateu nos dois turistas a vontade de voltarem para a sua querida Ribeirão. Encontrando-se um pouco mais sóbrio, Mário Roberto Mechi pediu a conta ao garçom, que instantes depois gentilmente apresentou-a aos fregueses. Foi aí que o bicho pegou. O Véio virou uma fera quando tomou conhecimento dos valores das despesas; vermelho e com a voz embargada, deu um soco na mesa e disse em alto e bom som que não iria pagar, pois aquilo era uma roubalheira, um verdadeiro absurdo.

O dono do estabelecimento, um sujeito branco e de modos abrutalhados, vendo seu funcionário em apuros, ligou para a polícia e correu em socorro do pobre, uma vez que Mequinho estava possesso, a ponto de cometer uma besteira. Dali a alguns minutos uma viatura policial estacionou na frente do boteco e de dentro dela saltaram dois PM, que pela aparência não estavam dispostos a muita conversa. Sem mais delongas, tomaram os depoimentos das partes envolvidas, verificaram tabelas de preços, licenças e alvarás de funcionamento e toda sorte de documentos dos cidadãos presentes. Como tinha por hábito andar munido de toda a sua documentação, desde RG, título de eleitor, atestado de reservista, até carteirinha do CAEM, Mequinho estava tranqüilo.

Qual foi a sua surpresa quando o policial, depois de examinar toda a “papelada” dos dois, virou para ele e afirmou com todas as letras que aquilo tudo não valia nada e que no caso deles o único documento hábil a credenciá-los seria um PASSAPORTE, devidamente carimbado pelas autoridades competentes e com o visto e taxas em dia.

Mequinho surtou, sem acreditar no que ouvia. Boquiaberto, perguntou ao agente da ordem pública:
- Mas sargento, por favor, por acaso Santos agora faz parte de um outro país?
O militar, evidenciando já se encontrar no limite de sua pouca paciência, respondeu de forma brusca e definitiva:
- Cidadão, o senhor encontra-se em Johannesburgo, África do Sul!

Nota:
Johannesburgo, como se sabe, fica no interior da África do Sul, a mais de quinhentos quilômetros do litoral...

Mario Barão

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