terça-feira, 21 de abril de 2009

BOM PRA CACHORRO

Apesar de nunca ter morado na Pulgatório, Ivon Pachá, efetivamente, era um Pulgatoriano de fato e direito. Natural de Ouro Preto, era presença obrigatória em qualquer evento festivo que ocorresse na república; percussionista de primeira, para ele não havia nenhum mistério quando o assunto era ritmo; do atabaque à caixinha-de-fósforos, do tantã ao tamborim, do surdão ao bongô, da caixa-de-guerra ao chocalho, Pachá batia um bolão nas onze!

Diz a lenda que num certo Festival de Inverno lá pelos meados dos anos 70, ele, Miltão, Jacó e os Irmãos Banana, durante dois dias e duas noites ininterrupta, brindaram pulgatorianos, gringos, visitantes e curiosos em geral , com sua música sem rótulo e nem fronteiras, que ousava misturar Benito de Paula com Elvis Presley, iê-iê-iê com samba-de-breque, tropicalismo com a mais pura seresta mineira. Tudo isso a poder de muita cachaça e ovo cru, e um sentido de equipe perfeitamente sincronizado, uma vez que, enquanto uma dupla alegrava a platéia com músicas, piadas de auditório e tiradas espirituosas, a outra dava um cochilo num cantinho reservado, para depois de um intervalo previamente combinado, substituir a primeira e assim por diante.

O talento de Ivon era tamanho que Ouro Preto tornou-se pequeno para abrigá-lo; sua fama atravessou os limites da região e volta e meia ele e sua turma (leia-se Jacó e os Irmãos Banana) eram requisitados para animar eventos em Belo Horizonte e redondezas. Foi numa dessas idas a BH que Ivon teve a oportunidade de protagonizar um de seus inúmeros fatos pitorescos, todos eles regados a batucada, muita cerveja, pinga e o tudo o que tivesse direito. Era uma despedida de solteiro do um irmão de um estudante da Escolinha, que numa de suas idas e vindas a Ouro Preto, teve a chance de ver o Pachá em ação. O carinha ficou maluco com o swing do Ivon e jurou que sua despedida de solteiro teria que ser animada pelo bamba. Na data marcada, o batuqueiro e seus fiéis escudeiros, munidos de suas ferramentas de trabalho, embarcaram no ônibus da ”Pássaro Verde” em direção a BH, onde foram recebidos com as honrarias merecidas e prontamente conduzidos ao local onde ocorreria a grande festa.

Não é preciso dizer que Ivon deu conta do recado e mais alguma coisa; entrada apoteótica, com direito a foguetório e revoada de balões de gás, meiuca do show digna dos mais conceituados pop stars da época, grand finale triunfal, a performance de Pachá e seus Golden Boys foi memorável.

A sonzeira rolou solta o final de semana inteiro; bebida e comida à vontade, músicos, convidados e o anfitrião se esbaldaram; festa como aquela certamente iria constar dos anais da Grande Ordem da Tradicional Corriola Mineira. Lá pelas tantas, já nos estertores do grande evento, numa ida ao banheiro para dar uma aliviada, ao passar de volta pela cozinha Ivon percebeu que a quantidade de bebida era assustadoramente desproporcional à de comida e tira-gostos; cervejas, pingas e uísques aplicavam uma sonora goleada nos salgadinhos, churrasquetos e moelas de frango.

Enquanto divagava sobre o assunto, ouviu um grito vindo do salão:
- Pachá, aproveita que você está na cozinha e traga um tira-gosto pra galera, que está varada de fome!
Ivon, para não empanar o brilho da festa, coçou a cabeleira desgrenhada e respondeu:
- Moçada, “guenta aí” que eu já tô levando um Especial!

Uma grande ovação ele teve como resposta e diante disso sentiu a imensa responsabilidade que estava assumindo. Como não era sujeito de afinar diante de um obstáculo, arregaçou as mangas e colocou mãos à obra. Começou por dar uma geral em armários, despensas, gavetas e geladeira, para ver com o que poderia contar. Para a sua decepção, era muito pouco o que tinha à disposição: meio saco de sal, 03 cebolas, um molhe de tempero verde, uma dúzia de dentes de alho, uma colher de sopa de pimenta do reino, 02 pimentões, 08 tomates semi-frescos, meia lata de óleo usada, uma caixinha de extrato de tomate e um saco de cinco quilos de Bonzo, comida daquela época muito apreciada entre a população canina.

Enquanto no salão de festa Jacó e os Irmãos Banana mandavam ver nos números musicais, Pachá colocava água pra ferver num imenso caldeirão encontrado debaixo da pia e preparava com esmero o tempero e o molho improvisados. Assim que a água começou a borbulhar, Ivon baixou o fogo e derramou no caldeirão todo o conteúdo do saco de Bonzo, deixando o exótico petisco ferventar por alguns minutos até que a consistência apropriada fosse alcançada. Bonzo no ponto, retirou o excesso de líquido, acrescentando logo em seguida o fumegante e suculento molho “a la pachá”; uma boa misturada e um pouquinho de tempero verde por cima para dar uma decorada e estava pronto o tira-gosto super especial!.

Ao sentir o aroma vindo da cozinha, a galera ficou em polvorosa e exigiu a plenos pulmões a presença do músico-cozinheiro no salão do evento. Pachá não se fez de rogado e de caldeirão em punho adentrou com estilo e elegância no recinto principal.

Olha, não sei se pelo tamanho da fome da moçada ou se pelas artes culinárias do Ivon, o certo é que não ficou um grãozinho do singular tira-gosto para contar a história; inúmeros foram as solicitações para que Pachá revelasse o segredo de tão saborosa iguaria, aos quais o mesmo repeliu com fervor evangélico, afirmando ser uma antiga receita de família, passada de pai para filho e vinda dos tempos de seus tataravós, antigos senhores de escravos da região de Diamantina, guardada a poder de juras e força de praga de mãe preta.

Antes que anfitrião e convidados percebessem a “perna de anão” que haviam levado, Ivon e seus Blues Caps agradeceram a calorosa acolhida e pegaram o primeiro “Pássaro Verde” com destino a Ouro Preto, e por um “long time” não quiseram sequer saber nem de um mero cachorro-quente de salsicha defumada.

Mário Barão

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