terça-feira, 21 de abril de 2009

O HINO

Como faziam todos os dias, Lula Lelé e Mário Barão vinham descendo a rua Direita pelas segunda vez no dia, depois de subirem para encarar a janta no REMOP. Os dois eram companheiros inseparáveis desde que Lula chegara a Ouro Preto pouco antes, no meio de 1978. A identificação entre eles era total: flamenguistas, negros, apaixonados por música e cariocas. Um de Brasília e o outro de Barbacena. Lula rapidamente se integrara à turma de músicos com quem Barão andava e neste dia haviam passado a tarde ensaiando para um novo show no teatrinho, o primeiro que teria a participação do bicho de Brasília.

Bicho o Lula era mesmo, mas ele quase se esquecia disto quando estava com a galera do “Beco do Carmo”. Todos com a sensibilidade e as atitudes próprias de artistas. Gente para quem trote era coisa de trogloditas. Não era porque estudavam na recém-centenária Escola de Minas que tinham que se envolver com os rituais tradicionalistas de iniciação dos calouros! O Lula era apenas o mais novo da turma, mas tão merecedor de consideração quanto qualquer outro. O típico papo de “barão” (não só do Barão). A tigrada da escola, amplamente majoritária, não tinha a menor simpatia por estas frescuras.

Independente de toda sua sensibilidade artística, Lula estava muito bem adaptado à vida na Pulgatório, hospedado no quartão com mais outros bichos. Torcia para estar entre os escolhidos e se tornar para sempre um pulgatoriano. Decorridos mais de três meses, a situação continuava indefinida e ele não escondia sua ansiedade perante a falta de pressa dos pulgas na escolha, já que a concorrência era grande. A bicharada se encantara desde o início com as instalações, o prestígio e a simpatia da Pulgatório e batalhava arduamente pelas vagas.

Lula era um cara legal e tinha consciência de seus méritos. Mas também logo percebeu que com exceção do Barão, que era barão, os pulgatorianos tinham um perfil mais voltado para o tigrismo. O morador típico daquela época falava alto, era chegado numa cachaçada, jogava “king”, caixeta e buraco, roubava galinha, adorava falar das tradições da Escolinha e conhecia a vida de Henri Gorceix de cor e salteado. Com seu violão e sua fala mansa, o bicho vislumbrou a possibilidade de não se encaixar exatamente no figurino desejado pelos veteranos. Era preciso conquistar o pessoal de alguma forma.

E a idéia surgiu ali no pé da ladeira, enquanto ele e Barão terminaram a descida da rua Direita e entraram na Paraná. Olhando para a pulga simpática que faz do número 54 o endereço mais bacana da cidade, Lula convidou Barão a comporem juntos um hino para a república. Na verdade, o hino já existia e parecia de bom tamanho para os pulgas. Uma adaptação da conhecida marchinha de carnaval do “Bafo da Onça”. Durante as concorridas batucadas que marcavam todas as festas, a bandinha da Pulga sempre puxava os versos que já eram a marca registrada da casa. Com Boi e Bacurau nos surdinhos, Zé Cachaça no surdão, Barão no agogô e Risadinha no vocal, mandavam ver:
“Olha o samba ioiô,/olha o samba iaiá!
Pois é a Pulgatório,/que acabou de chegar!
Olha a rapaziada./E como tem mulher!
Olha a pinga rolando./Sinta a empolgação!
Pois é a Pulgatório,/é a Pulgatório,/do meu coração!”

Era inegável que a música agradava e tinha um bom refrão, mas Lula convenceu Barão que podiam trabalhar para apurar a melodia e acrescentar versos que desenhassem a geografia e o perfil sedutor da Pulgatório. Uma coisa que conquistasse qualquer um de primeira e que fosse ao mesmo tempo motivo de orgulho para os pulgas e gostosa de cantar. A primeira idéia foi fazer uma letra citando os moradores e brincando com as características de cada um, mas foram mudando o plano ao longo de debates e argumentos intermináveis, como era do feitio do estudante dos anos 1970. Ao final a dupla achou melhor fazer uma letra atemporal, que só falasse da república e da alegria em ali chegar, ficar e gostar, compondo um hino para ser cantado para sempre, por todas as gerações de pulgatorianos. Assim, nenhum nome foi citado. Depois de algumas semanas de noites mal dormidas, chegaram à versão final da obra-prima do cancioneiro ouropretano.

A apresentação do hino se deu com uma “audição” coletiva pelos moradores da república. Quase todos os pulgas estavam no seu costumeiro “fazer nada”, na cozinha, jogando conversa fora em um dos tradicionais “bondes”. Lula e Barão entraram na conversa mole e, papo vai, papo vem, o Barão perguntou a todos o que achavam da República ter um novo hino. Espanto geral. Que conversa era aquela? Mas a república já não tinha um hino? Barão insistiu em sua tese e deu o sinal para Lula sacar seu violão. Os dois cantaram a música com a empolgação de quem estivesse num festival. A galera toda atenta. Muda e desconfiada. Com a reação enigmática da platéia, cantaram novamente. Na terceira vez, o hino foi cantado, aprovado e sacramentado por todos os súditos de nossa querida casa.

A música caiu no gosto do povo logo na primeira festa e acabou enriquecendo ainda mais o arsenal de sedução da casa. As meninas que já adoravam a hospitalidade dos rapazes mais charmosos de Ouro Preto, agora se encantavam ao ouvir um hino que não deixava nada a dever aos sambões clássicos de qualquer batucada. Com as três novas estrofes, ele ficou irresistível:
Descendo a rua Direita,
entrando na Paraná,
é cinquenta e quatro na cabeça,
minha nega, não tem erro, vai pra lá!
Muita cachaça!
E batucada!
A bateria está sempre animada!
Não marque touca!
Não deixe furo!
Garanta hoje o engenheiro do futuro!
Olha o samba ioiô,
olha o samba iaiá!
Pois é a Pulgatório,
que acabou de chegar!
(bis)
Olha a rapaziada.
E como tem mulher!
Olha a pinga rolando.
Sinta a empolgação!
Pois é a Pulgatório,
é a Pulgatório,
do meu coração!

Aprovada a novidade, Lula foi incorporado ao time. Apesar do jeito meio barão, ele tinha mostrado seu valor ao conseguir estampar em música a cara da Pulgatório. A repercussão na cidade foi tão grande que várias repúblicas passaram a copiá-lo descaradamente, cantando o hino como se fosse delas e trocando apenas o endereço e o nome, obviamente. Mas estes plágios tiveram vida curta e só quem sobreviveu ao tempo foi o nosso, o original.

E entre tigres, barões e indecisos, a Pulgatório foi em frente, fazendo sua história.

Caruncho e Lula

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