terça-feira, 21 de abril de 2009

TÁGIDES

Sua existência foi fugaz, mas, enquanto existiu ela foi a filial feminina da Pulgatório. Na sobre-loja de uma casa quase em frente à nossa, viveram umas meninas que deixaram sua marca em nossa história. Como eram uma república particular, elas viviam todo o tempo sob o temor da retomada da casa pelo dono. E um dia, lá por volta de 1988, a Tágide acabou, deixando para a história uma relação entre as duas casas que foi bacana de se ver. Mais do que os amores ocasionais, havia afinidade e muita amizade. Elas circulavam pela Pulga a qualquer hora, com liberdade para se intrometer em qualquer assunto ou até para trocar o canal da televisão. O que acabava trazendo também os problemas próprios da intimidade. Nos tempos de maior proximidade, o camarada tinha que vasculhar o ambiente à procura de alguma tágide antes de relatar sua última peripécia sexual, contar uma daquelas piadas de baixíssimo nível ou simplesmente, peidar.

No geral, porém, todo mundo curtia aquela história. As meninas por terem ao seu alcance os caras mais legais da cidade, sempre dispostos a consertar um chuveiro queimado, carregar um móvel novo ou umas caixa de cerveja, ajudar na pintura das paredes ou até mesmo chamá-las em casa para atender uma ligação telefônica, fosse da família ou até de algum namoradinho esquecido na cidade de origem. Nós, por termos mulheres flanando pela casa de segunda a segunda. Beijinhos, abraços e fungadas no cangote a todo momento. Para quem ouve isto hoje, pode não parecer grande coisa, mas naquela época a população feminina da universidade era francamente minoritária. Com exceção dos feriados, mulher era produto escasso na cidade. E a Pulgatório respirava o ar leve da passagem delas.

De vez em quando alguém se enrolava num namoro mais sério com alguma delas, mas isto era exceção. O forte mesmo era a amizade. E o mais engraçado era a cara feia delas nos dias de festa. Com a Pulga jorrando mulher pelo ladrão, elas passavam na porta de nariz empinado, com ar de reprovação. Um ciúme inocente que só confirmava como gostavam da gente. De vez em quando entravam, analisavam cuidadosamente os atributos do mulherio visitante e invariavelmente reprovavam todas: Um bando de turistas sirigaitas metidas a gostosas! E a galera caía na gargalhada...

Nos fins de semana convencionais, eram nossas companheiras inseparáveis nas cachaçadas de boteco ou no balcão e na boate do CAEM. Quase irmãs. Mas como quase-incesto não existe, se rolasse uns amassos, tudo bem! De uma madrugada de cerveja e cantoria, surgiu um poema que sintetiza esta história:
As loucas de Ouro Preto
gritam pelas ruas
espantando fantasmas
e quebrando o encanto
da noite fria envolta em brumas.
Ondas de amor, alegria e liberdade
estremecem os sobrados,
acordam as velhas,
reanimam os bêbados
e fazem sorrir a lua,
que se esgueirando entre nuvens
contempla a passagem
das Tágides.
(12/01/1984)

A Tágide acabou. Destino muito provável de repúblicas particulares. Mas para quem foi pulgatoriano naqueles anos, a lembrança de Eleuza, Zeni, Regina, Rose, Marta, Soninha, Lúcia, Denise, Regina II, Kombinha, Narli e Consolação estará sempre viva. Meninas que temperaram de alegria e doçura a rua Paraná.

Caruncho

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