terça-feira, 21 de abril de 2009

JOGA O ÁS!

O Turco era mesmo uma figurinha carimbada. Foi provavelmente o cara mais pão-duro que já passou pela Pulgatório, capaz de colher uma moita de agrião no Beira-Bosta para vender ao quitandeiro da rua São José e faturar uns centavos. Rapaz de muitos predicados, juntava à sua sovinice uma dificuldade crônica com a língua portuguesa e uma compulsão sexual insaciável. Tudo isto reunido num corpo esguio e branquelo encimado por uma cara engraçada que lembrava uma máscara de carnaval: óculos redondos, nariz comprido e bigode. Ao vê-lo, a vontade era de puxar seu nariz, mas as pessoas se continham por medo do óculos e do bigode saírem juntos.

Não houve um fato marcante a respeito de sua fixação pelo dinheiro. Ele era pão-duro em tempo integral. Um de seus inesquecíveis atentados contra a língua ocorreu numa reunião preparatória da festa do Doze. Como dono da caixinha, ele foi relacionando o que era preciso comprar enquanto a turma ia discutindo. Sancho Pança, pela-saco profissional, resolveu conferir a lista do Turco. Correu os olhos pelos itens e soltou a pergunta:
- Oscar, o que é este P.G. aí?
Turco, concentrado na função de relator, respondeu na maior seriedade:
- Papel “giênico”. Com o monte de gente que vem aí, vou comprar uns dez pacotões de papel “giênico”!
A galera veio abaixo e a reunião teve que ser interrompida para que a república inteira homenageasse a erudição léxica do rapaz.

O outro ponto forte do magrelo era a tara pelas mulheres. Atração por elas, todos têm, mas no caso dele se tratava de uma patologia. À visão de qualquer menina mais engraçadinha, encolhia o nariz, levantava o bigode e soltava um risinho nervoso. Agitando os dedos das mãos como se fosse agarrar dois peitinhos imaginários, esbugalhava os olhos e babava. Quando se deparava com uma gostosa de parar o trânsito, os tiques aumentavam tanto que tínhamos receio de que ele sofresse um ataque epiléptico. As moças que encaravam a fera e chegavam a passar por seu quarto, saíam de lá como quem volta do campo de batalha, literalmente consumidas em toda sua energia. Um tarado de livro, um personagem do Carlos Zéfiro!

Certa vez recebemos uma safra goiana de especial qualidade. Desde que fomos receber o ônibus da excursão, todos ficaram de queixo caído com as beldades do cerrado. Das quarenta moças, quarenta eram bonitas e umas quinze eram simplesmente lindas. E, suprema felicidade, nem um único macho! O feriado foi uma alegria só! Todo mundo conseguiu sua goianinha dengosa para um chamego, com as tradicionais exceções: Sancho e Caruncho, que não pegavam nem resfriado...

As meninas gostavam de tudo de que fazíamos e uma das coisas que mais fez sucesso foi a roda de carteado na boate. Na penumbra, elas se juntavam aos pulgas em volta da mesa de baralho iluminada por uma forte luz pendente que ficava à altura dos olhos. Numa partida de buraco, o Turco se sentou ao lado de uma morenaça que tinha pedido sua ajuda por não conhecer o jogo muito bem. Ele não tinha a menor intimidade com as cartas, mas a gata, além de linda, portava um decote estonteante. Ela começou a jogar sem muitas perguntas, apenas com pequenos pedidos de confirmação de suas jogadas. A tudo o Oscar respondia com um resmungo de aprovação, uma vez que não tinha sequer olhado para a mesa. Desde que se sentara, ele permaneceu vidrado nos seios da moça, parecendo a ponto de pular dentro de seu decote. Num momento decisivo da partida, tendo nas mãos apenas um coringa e um sete de ouros que daria uma canastra à dupla adversária, ela recorreu nervosa a seu orientador enquanto analisava as cartas sobre a mesa, sem levantar os olhos:
- Ai, Oscarzinho! O que é que eu faço?
Turco, salivando e tremendo, dando a impressão de que iria surtar e rasgar a camiseta da deusa goianense ali mesmo, balbuciou sem se dar ao trabalho de olhar para a mão dela:
- Joga o Ás! Joga o Ás!

Deste dia em diante a expressão entrou para o compêndio das gírias pulgatorianas. Sempre que se via alguém vidrado num decote, o pessoal falava: “Ele está jogando o Ás!”.

Caruncho

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você pode comentar à vontade, pode ser contra ou bater palmas - não vai fazer diferença alguma!