terça-feira, 21 de abril de 2009

AVALIAÇÃO DE FERIADO

Feriados são sempre dias especiais em Ouro Preto. Durante o ano, os dias passam naquela sucessão monótona de aulas, bandejão, carteado, cachaçadas e CAEM. O CAEM é um clube social, onde em teoria as pessoas vão à procura de outras pessoas, mas até o final dos anos 80 ele tinha um grave problema: era muito homem por metro quadrado! Ia-se lá basicamente para beber, já que só com muita sorte o bebum tinha a felicidade de se deparar com alguma menina disponível. O plantel reduzido de nativas e estudantes da Escola de Farmácia, com uma ínfima contribuição da Escola de Minas, não dava conta da multidão masculina que frequentava o lugar. Ir ao CAEM com intenção de agarrar uma mulher era uma demonstração de ignorância ou otimismo exacerbado. O que dava na mesma, já que todo otimista é um mal informado. O negócio era beber em bando, com as repúblicas se confraternizando mas mantendo cada uma seu espaço, numa forma de exibicionismo grupal. Porre tomado, era hora de ser arrastado bêbado para casa.

Mas a cidade era outra quando um feriado começava. Desde a madrugada do primeiro dia, uma frota de ônibus começava a estacionar nas imediações da igreja de “São Chico de Cima” trazendo turistas ávidas pela experiência de passarem uns dias nas casas mais libertinas do país. Se as repúblicas de Ouro Preto eram diversão garantida para quem vinha, a Pulgatório já era o objeto de desejo de quem conhecia sua fama. Indo para lá, as sortudas sabiam que teriam festa da boa, batucada, bebidas, os rapazes mais simpáticos de Ouro Preto e amor; muito amor.

Bacurau era o especialista da casa na arte de selecionar excursão. Convocava um ou dois bichos e ia para o estacionamento fazer uma inspeção de qualidade nos ônibus. Se via mais de duas janelas com um macho olhando para fora, já descartava. Se a placa era de Campinas, Goiânia ou qualquer cidade do Rio Grande do Sul, subia as escadas antes que o motorista pudesse reagir, fazia um discurso rápido e certeiro e já saía se oferecendo para carregar as malas das gatinhas. Em pouco tempo estava de volta à república no meio de uma multidão de meninas saltitantes.

Daí pra frente, o feriado estava garantido. Depois de uma rápida explanação sobre o que ia rolar e uma vaquinha para as despesas, despachava os bichos para comprar cerveja, assumia o surdinho e dava início às festividades. Carnaval, Semana Santa, Corpus Christi, 21 de abril, 7 de setembro, 15 de novembro ou Finados, o santo homenageado era sempre o mesmo: Dionísio. E os dias se sucediam num festival de alegria e prazer, com a casa encantada pelos rostos, corpos e os cheiros daquela mulherada em êxtase.

A segunda-feira seguinte era quase inacreditável. Com as excursões tendo ido embora, era hora de encarar banheiros em petição de miséria, o chão da sala e da cozinha encardido e pegajoso, fedendo a cerveja estragada, e uma dor de cabeça descomunal. No silêncio que tomava conta da casa, pulgas de ressaca circulavam sem rumo pelos andares, atrapalhando o serviço da comadre que se desdobrava para colocar ordem no caos. Hora do Mário Barão iniciar seu ritual. Ele ia até a banca e comprava um exemplar do Jornal dos Sports, o periódico mais flamenguista de todos os tempos, exemplo flagrante de parcialidade e anti-jornalismo. Indo direto à página que resenhava o último jogo do Flamengo, ele começava o trabalho de recorte dos textos. Naqueles tempos não-informatizados, cortar e colar significava exatamente isto: Recortar os textos com tesoura e colá-los numa folha em branco. O Flamengo daquela época era uma máquina de jogar futebol, mas nem precisava. Se o Obina já jogasse, seria avaliado como o maior craque de todos os tempos. Com toda esta parcialidade, os jogadores do time adversário eram invariavelmente uns pernas-de-pau, enquanto o escrete rubro-negro tinha mais uma vez desfilado sua virtuose. Textos ideais para a colagem do Barão.

Ele até que se engraçava com as meninas, mas seu esporte predileto era mesmo acompanhar a performance da galera durante as festas. Com atenção implacável, ele conseguia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, acompanhando os lances de sedução que rolavam simultaneamente na cozinha, na sala, na boate, na Pulga´s Beach e até, sabe-se lá como, nos quartos. Nada passava despercebido ao seu olhar. E da mesma forma que um time de futebol, a Pulga tinha seus craques e seus pernas-de-pau. Infalivelmente ao meio-dia de segunda-feira, estava lá no quadro de avisos a avaliação do feriado:

Gengis Khan, Bacurau, Turco, Trubufu e Delano, se transfiguravam em Zico, Adílio, Andrade, Nunes e Leandro. Ao lado do nome de cada um, escrito a caneta no lugar onde ficavam os nomes dos jogadores, o texto do jornal com a atuação dos craques rubro-negros: “Exibição exemplar, de encher os olhos da galera. Passes precisos, visão de jogo, eficiência nas tabelinhas e ótimo poder de finalização. Nota 10”.

A maior parte da turma ganhava um texto burocrático retirado de algum zagueiro flamenguista ou de um destaque do time adversário: “Cumpriu seu papel. Ajudou a equipe, marcou com eficiência e respondeu a contento quando acionado. Resumindo, não comprometeu. Nota 6”.

Para Caruncho, Sancho Pança e Taioba eram reservadas sadicamente as avaliações dos zagueiros adversários, ou do goleiro: “Atuação lamentável! Não marcou, não chutou, não deu passes e falhou nas poucas oportunidades em que foi requisitado. Nota ZERO”.

O pessoal dava tanta risada que acabava se curando da ressaca. Gengis Khan desfilava orgulhosamente seu título de Zico enquanto o Sancho saía atrás do Barão para reclamar daquela sacanagem, o que só servia para ser mais sacaneado ainda. O rapaz ficou tão traumatizado pelas repetidas notas zero que, depois de formado, se transformou num dos maiores garanhões da Pulga. Não se sabe se por afinidade real com o esporte ou se apenas para ganhar um 10 do Barão que, infelizmente, já não morava mais na Pulgatório nesta época.

E na modorra dos dias seguintes, o assunto favorito dos bondes era a expectativa para a avaliação do Barão no próximo feriado. Mas com exceção daqueles acontecimentos inusitados que só confirmam a regra, craque sempre atuava como craque e os pernas-de-pau não deixavam de decepcionar. Futebol não é para todos.

Caruncho

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