terça-feira, 21 de abril de 2009

NO MUNDO DE ZOZO

Dizer que o mundo mudou muito nestes anos todos é uma retumbante obviedade, principalmente quando dita por um geólogo. O mundo vem mudando desde sempre e constatar estas transformações é sintoma de um fenômeno tão trivial quanto inevitável: a velhice. Viver como estudante em Ouro Preto, hoje em dia, não é muito diferente daquilo que vive um universitário em São Paulo, Paris ou Tóquio. Desde que a teia global nos enredou a todos, localização geográfica passou a ser apenas um detalhe. Muito do que você quer está ali no computador, ao alcance de um clique do mouse a qualquer hora. Mesmo sabendo que, para o que você mais quer, a coisa não seja tão simples... Mas tudo muda, e talvez no livro dos oitenta anos da Pulgatório possamos relatar a enésima reprovação em Geometria Analítica do neto do Pedrock, que passava os dias trancado em seu quarto com o holograma da neta da Juliana Paes, com direito a todas as sensações tácteis imagináveis...

Nos anos 1980, entretanto, as opções de lazer de um estudante da Escolinha eram muito mais limitadas: O cinema, onde o problema era o dono se lembrar de trocar o filme em cartaz, o CAEM, as nativas (poucas), o bonde na cozinha e as festas nos feriados. Na expectativa pela próxima turma de turistas sedentas de samba, cerveja e sexo, a modorra que tomava conta da cidade entre o carnaval e a semana santa parecia uma eternidade! No dia-a-dia, não havendo mais o que fazer, o negócio era ver televisão. E, na TV, os campeões de preferência da turma eram os filmes da madrugada. Depois de uma noitada cansativa, seja enchendo a cara no CAEM ou ferrando para a próxima prova do Dornellas, o negócio era relaxar assistindo à famosa “Sessão Coruja”. Fininho e Mário Barão eram os mais assíduos espectadores dos corujões, uma miscelânea de filmes que, independente daqualidade, preenchiam as horas de insônia.

Estávamos nos últimos anos da ditadura militar e a censura ainda era onipresente. Todo filme começava com a exibição de um formulário em letras miúdas, que ficava na tela por cerca de um minuto. Com uma tarja preta no canto superior, ele descrevia a classificação da película pelo Departamento de Censura Federal e na parte inferior vinha a assinatura da chefe dos implacáveis censores: uma tal de Dona Solange. Para grande parte dos artistas da época, a chefe dos imbecis.

Nossos assíduos cinéfilos faziam mais do que assistir aos filmes: tiravam dali inspiração para sacanear a bicharada, tanto bolando novos figurinos para o Miss Bicho como sofisticando os trotes. Uma das mais divertidas maneiras de interagir com os bichos, incompreensível para quem não era pulgatoriano, era o “dondestá”. Sempre que um bicho fazia uma besteira, acontecimento obviamente cotidiano, a turma o repreendia por meio do método desenvolvido por Barão e Fininho, chamando o cara à responsabilidade:
- Venha aqui, bicho! Você está precisando de um dondestá!

Segurando o infrator pelos cabelos, o veterano levantava o discípulo o mais que pudesse e fazia a pergunta que valia por um esporro:
- Donde está Vitório?
A frase havia sido tirada de um faroeste vagabundo que passava repetidamente na Sessão Coruja. Depois de tomar porrada por mais de meia-hora, o mocinho caía ao chão e era levantado pelos cabelos por um mexicano gordo, sujo e barbudo, que queria saber onde estava seu companheiro, o Vitório. Com a cara dos dois ocupando a tela inteira, o bandidão gritava com toda a carga dramática que o diretor desta obra-prima exigira: “Donde está Vitório?”. Colocando a criatividade a serviço da sacanagem, Barão e Fininho transformaram esta cena besta num item fundamental da gíria pulgatoriana.

Mas o título desta história surgiu em outra noite. Fininho havia subido com boa parte da turma para o CAEM, num sábado modorrento, com o objetivo óbvio e fácil de afogar o ócio em álcool. Lá pelas tantas, sentindo que já estava “pra lá de Bagdá”, resolveu abandonar os companheiros de cana e voltar para casa. Desceu a ladeira com alguma dificuldade, ligou a TV e se instalou no sofá enquanto na tela rolavam os créditos do filme que terminava. Ficou por ali esperando pelo próximo, tentando focar seus olhos que insistiam em lhe dizer que a televisão da Pulgatório tinha duas telas!

Barão, que não era de beber, chegou à república neste momento depois de mais uma noite de ensaios musicais na casa da Mary Help, em Passagem de Mariana. Do corredor de entrada, viu Fininho sentado no sofá e a tela da TV exibindo o manjado formulário da Censura Federal, sinal de que um filme estava por começar. Estrelado por Charlton Heston, era uma ficção científica em que a população de Nova Iorque é alimentada por biscoitos feitos com carne humana reciclada, a partir dos indigentes e criminosos recolhidos pelo governo. Seu nome: “No mundo de 2020”.

Animado com a expectativa de mais um corujão, Barão esfregou as mãos e perguntou:
- Tô nessa, Von Finus! Qual é o nome do filme que vamos ferrar esta noite?
Fininho, afundado no sofá, anunciou o título da próxima atração:
- No Mundo de ZOZÓ.

Caruncho

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