O cidadão era um dos moradores mais compenetrados da república, quase sisudo. A barba comprida e a vasta cabeleira faziam com que aparentasse mais idade do que tinha, o que, associado ao tom grave de sua voz e ao ar professoral, lhe garantiam um respeito incomum para um estudante. As beatas da cidade o cumprimentavam na rua, os pais dos bichos se encantavam ao ver seus filhos convivendo com tão nobre figura, os moradores das outras repúblicas diziam que ele exalava erudição. Mas por trás daquela aparência nobre e conservadora havia uma alma sacana.
Uma de suas grandes diversões era tomar o ponto aos bichos. Nas noites de ócio na sala da república, exigia dos pulgatorianos mais novos a memorização do nome completo, apelido, curso em que se graduara e cidade de residência de cada um dos ex-alunos pendurados nos quadros da parede principal, que naquela época já chegavam a algumas dezenas. Quanto mais a festa do Doze se aproximava, maior a frequência das sabatinas. Para desespero das indefesas criaturas que não entendiam aquele fervor tradicionalista. Demorava algum tempo, e pelo menos um Doze, para o noviço perceber que saber o nome de um ex-aluno era fundamental para que ele se sentisse bem recebido e, mais importante, para garantir o financiamento da maior e melhor festa da cidade. Festa iniciada, vinha a comprovação: de repente um ex-aluno aparecia na porta da república depois de alguns anos longe de Ouro Preto e timidamente tomava a decisão de entrar, em meio a uma multidão de rostos desconhecidos. Tomava um susto ao ter seu nome pronunciado por alguém que nuca vira, receber um abraço efusivo e ganhar um copo de cerveja. Missão cumprida. O cara constatava, na maior alegria, que não havia sido esquecido e que aquela ainda era a sua casa. Abria um sorriso largo e ao final da festa abriria também, com satisfação, a carteira.
Mas nem só de tradição vivia o nosso pulgatoriano mais fervoroso. Era também insaciável consumidor de tudo que levasse álcool na composição. Tomava porres homéricos e muitas vezes, nas festas, trocava uma paquera de desfecho incerto por mais uma dose da “marvada”. Diziam que por fidelidade à sua namorada, que morava em outra cidade e nem sempre podia visitá-lo nos feriados.
Mas naquele dia foi diferente. Se engraçou para uma menina bonitinha, apesar de muito nova. E mais nova ainda ela parecia ao lado daquele marmanjo barbudo. A moça também se encantou por ele, mas, até pela pouca idade, deixou claro que a intimidade entre eles se resumiria a apertos de mãos e alguns tímidos beijinhos. No rosto! Foram muitas horas de conversa até que liberasse uma bitoquinha na boca. Mas o intrépido conquistador era perseverante e acabou conseguindo arrastá-la até o tablado da boate. À meia luz, deitados entre um monte de almofadas, os dois trocavam confissões e alguns beijos mais calorosos. Já era alta madrugada e as músicas românticas garantiam o clima. O casal de pombinhos se imaginou em privacidade e a conversa foi ficando mais desinibida. Eles nem suspeitavam da presença de um gaiato que namorava na outra extremidade do tablado, encoberto pelas sombras das colunas e pelas almofadas. Sentindo que o clima esquentava, o curioso pediu silêncio total à sua parceira e os dois passaram a acompanhar a conversa dos recém-chegados:
- Pega, vai!
- Não, não. Eu tenho vergonha.
- O que é isto? Não tem nada de mais. Você vai gostar. Pega, vai!
- Não. Eu não tenho coragem. Eu nunca fiz isto antes e tenho medo...
- Ora, sua boba. Não precisa ter medo. É uma coisa muito natural. Eu vou te mostrar como é gostoso: Pegue no dedão da minha mão.
- Peguei. E daí?
- Então, é ruim? Ficou com medo?
- Ah, claro que não! É só um dedo!
- Viu? Pinto é a mesma coisa. Só não tem unha...
O casal do outro lado não se conteve e caiu numa enorme gargalhada, para desespero da menina que estava prestes a se iniciar na anatomia masculina. Morrendo de vergonha, ela sumiu dali deixando o criativo conquistador literalmente na mão!
Caruncho
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