terça-feira, 21 de abril de 2009

É GREVE!

1983 começou pesado. Depois de menos de um mês de aula, os estudantes da universidade entraram em greve com uma imensa lista de reivindicações perante a reitoria. O Diretório Acadêmico da Escola de Minas liderava as mobilizações da moçada, já que naquela época ainda não havia o DCE. Junto com as lideranças das outras escolas, nossos combativos representantes tinham passado boa parte das férias em negociação com o reitor, mas o impasse estava formado. Os pontos principais, onde estávamos irredutíveis, eram o cancelamento do aumento no preço do bandejão, no REMOP e no recém-inaugurado restaurante universitário do Morro do Cruzeiro, e a manutenção da gratuidade dos ônibus que nos levavam até o Morro.

Passadas algumas semanas de paralisação, a diretoria do D.A. chegou a um acordo com a reitoria que diminuía o reajuste do bandejão e estabelecia uma tarifa bastante baixa para o ônibus. Hora de convocar assembléia, discutir o assunto e votar o indicativo de fim da greve. Entretanto, vivíamos os primeiros anos de uma grande novidade política no Brasil, o Partido dos Trabalhadores. Com cerca de três anos de vida, o PT já seduzia corações e mentes da juventude e começava a ameaçar o domínio absoluto do PCB dentro do movimento estudantil. A diretoria do nosso D.A. era toda do Partidão e o indicativo dela para que terminássemos a greve foi o mote perfeito para que a oposição petista, uma mistura de noviços da política com uma galera da velha Libelu, rebatizada de Convergência Socialista, botasse pra quebrar. Aquela era a hora de derrubar os pelegos, os Judas, os burocratas a serviço de Moscou que mais uma vez mostravam que estavam conchavados com a burguesia e queriam nos obrigar a pagar para comer e andar de ônibus! Um absurdo! Um recuo inaceitável na construção do socialismo!

A assembléia foi marcada para um final de tarde e o salão do CAEM ficou completamente lotado. A moçada não negava fogo e sempre comparecia em massa. Época em que assembléia de estudantes implicava em polícia de plantão e arapongas do SNI circulando pela praça de terno e óculos escuros. Discretíssimos!

Cumprindo sua obrigação de estudante, Arado, Caruncho e Trubufu subiram a Rua Direita com uma vaga idéia do que seria discutido. O fato é tinham lido o panfleto de convocação e na falta de algo melhor para fazer resolveram exercitar suas liliputianas consciências políticas. Enquanto o presidente do diretório abria a assembléia, os três sentaram no fundo do salão, longe das caixas de som, porque aqueles caras gritavam muito! Além de sentirem seus ouvidos agredidos pelos bravos militantes da situação e da oposição que se esgoelavam no microfone, o trio começou a ficar entediado com o assunto e desencavou uma caixa de fósforo. Distribuíram os palitos, viraram as costas para a mesa e deram início a um jogo de porrinha, o que os animou instantaneamente.

A galera do PT descia a lenha na direção comunista do D.A., que revidava denunciando a irresponsabilidade dos trotskistas e seus agregados. Depois de muito discurso e, obviamente, nenhum consenso, era chegada a hora da votação do indicativo. Para facilitar a contagem dos votos, a mesa coordenadora pediu que os que fossem a favor do fim da greve se posicionassem de um lado do salão e quem fosse contra, do outro. Os três pulgatorianos se viram, de repente, no meio de um clarão. Demoraram alguns segundos para entender o que estava acontecendo, congelados nas cadeiras. A mesa interveio:
- Por favor, companheiros, tomem logo seus lugares para que a contagem dos votos seja feita.

E no meio daquela assembléia lotada os três tiveram que fazer, aos cochichos, sua mini-assembléia para decidir que rumo tomar. A decisão não foi difícil. Aquelas férias imprevistas estavam boa demais e parecia interessante continuar assim por mais algum tempo. O trio se levantou e caminhou até o lado do salão onde estavam os que discordavam do indicativo do D.A. E a contagem começou. Com os estudantes passando um a um pelas duas portas de acesso à boate do CAEM, como numa roleta, a totalização demorou uns poucos minutos.

E não deu outra. O indicativo foi rejeitado. Como grande parte do pessoal, o que não incluía nosso trio, entendia a gravidade da decisão, o placar tinha mesmo que ser apertado. A continuidade da greve foi aprovada por uma diferença de três votos. Os três caras-de-pau caíram na risada e, assembléia terminada, voltaram correndo para a república ansiosos por relatar a quem não tinha ido o inacreditável resultado e providenciar uma vaquinha: aquilo merecia pelo menos uma caixa de cervejas. A vagabundagem estava garantida por mais algum tempo!

O resto é história. A greve foi ficando cada vez mais radical, os estudantes intransigentes nas suas exigências e a reitoria decidida a implantar a cobrança do ônibus. Uma turma mais empolgada decidiu pela greve de fome. Entre eles o Mil Boi, ex-pulgatoriano e expoente-mor da Convergência Socialista em Ouro Preto. A coisa cresceu tanto que Tancredo Neves, à época governador de Minas Gerais, foi visitar Mil Boi e os demais no Centro Acadêmico da Escola de Farmácia, onde permaneciam deitados o dia todo tomando apenas água. Das noites, não há registro. Mas mesmo com o apelo do governador eles continuaram em greve de fome por mais alguns dias, até que a fome bateu forte e decidiu-se que a coisa já estava de bom tamanho.

A greve da galera, sem nenhuma fome, rendeu o semestre inteiro. Por conta dela todos os estudantes da universidade aumentaram seu período de permanência em Ouro Preto em seis meses. Para muita gente, seis meses perdidos. Para Arado, Caruncho, Trubufu e mais uma multidão de militantes da gandaia, a oportunidade ímpar de beber, comer, festejar, namorar e dormir até tarde ao longo daquele feriado um tanto quanto prolongado, de cento e oitenta dias.

Caruncho

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