terça-feira, 21 de abril de 2009

DIRETAS JÁ!

Em 1984 este bordão era sinônimo de patriotismo. Com a ditadura militar completando vinte anos, as duas palavrinhas viraram a marca do desejo quase unânime dos brasileiros de acabar com ela. Desde 1960 que o país não via uma eleição direta para presidente da república e a luta pela democracia teve seu ponto de inflexão na emenda constitucional que pretendia restabelecer o direito de todos escolherem seu presidente. Enquanto o congresso, sob enorme pressão contrária do governo do general Figueiredo, discutia a emenda, a oposição organizava comícios Brasil afora para defender sua aprovação. A cada comício a adesão aumentava e aquilo acabou virando o maior movimento popular desde o golpe de 1964.

E chegou a vez do comício de Ouro Preto. Mesmo não tendo o peso e o público dos comícios-monstro de São Paulo, Rio e BH, onde milhões de pessoas tinham ido às ruas, o simbolismo que a cidade carrega desde 1792 trouxe até ela a tropa de elite da oposição: Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Lula, Leonel Brizola, Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e mais uma penca de políticos dos mais diversos partidos.

Marino Bó estava excitado. Militante do antigo MDB e depois do PMDB desde a juventude em Santa Rita do Sapucaí, o “figura” ficou empolgado com a vinda de tantos figurões para Vila Rica. Nem tanto por fervor político, mas mais por vislumbrar a possibilidade de uma tigrada federal. E assim foi. Enquanto os cardeais de Brasília iam chegando na cidade, Marino tratou de se preparar para o comício sentado na cozinha da Pulgatório com um garrafão de cachaça, uma caixa de cervejas e a companhia de vários outros históricos militantes. Militantes do tigrismo, que fique bem claro. A cada gole, incitava seus companheiros a subirem com ele até a praça para fazer história, marcando presença no evento que iria abalar os já corroídos pilares da ditadura.

Depois de algumas horas de consumo voraz de álcool, todo mundo já estava calibrado. Marino já fazia sua típica cara de iluminado, que já havia servido de inspiração para Jack Nickolson atuar em “O Iluminado”, esbugalhando os olhos, trincando os dentes e rosnando. Chegada a hora do comício, ele deu uma tapa na mesa e convocou a turba aos gritos: “Tô subindo. Vamos lá que o negócio vai ser bonito! E quero todo mundo na primeira fila para que o Ulisses conheça vocês!”.

Com todo mundo tonto e várias cervejas ainda na geladeira, o apelo foi em vão. Entre um velhinho careca e uma loira gelada, o pessoal ficou com a segunda opção. Marino, indignado, num último recurso apelou para o espírito cívico do Fininho: “Finório, deixe estes bebuns e venha comigo. Vamos lá levantar o nível deste comício! Onde já se viu acontecimento em Ouro Preto sem a presença da Pulgatório?” Fininho exibia uma expressão compenetrada e mantinha os olhos mirando o infinito, sinal de que já estava em outro planeta. Ao ouvir seu nome, levantou-se por instinto sem saber bem o que estava acontecendo, o que o Marino considerou um sinal de concordância. Enganchou o parceiro e, de braços dados, os dois bravos defensores da liberdade saíram cambaleando pelo corredor e tomaram o rumo da Praça Tiradentes.

Alcançada a escadaria lateral do palanque armado aos pés do Museu da Inconfidência, Marino fez cara de bravo, pediu para o Fininho ficar calado e encarou os seguranças: “Dá licença! Estou com o doutor Ulisses. Dá licença!”. Os seguranças vacilaram, já que os dois, mesmo não tendo credenciais, chegavam cheios de ímpeto. Um deles ousou contestar o Marino:
- Sem credencial, não sobe. E quem é este outro aí?
Marino não se apertou:
- Este é o novo Tiradentes, seu ignorante! O homem que motivou a vinda de todo este pessoal aí em cima. E você me aparece agora querendo estragar a festa do povo?

O papo furado colou e um corredor se abriu por entre a multidão de papagaios de pirata estacionada na escada. Marino subiu resoluto, arrastando o amigo pelo braço. Chegados ao alto do palanque, Fininho começava a retomar suas idéias. Tentando espantar o fogo, esfregou as mãos pelo rosto, balançou a cabeça e fechou os olhos buscando alguma lucidez. Ao reabrí-los, deu de cara com Tancredo Neves à sua direita e Brizola à esquerda, o que o fez pensar que a cachaça era “da brava” mesmo: Isto só pode ser um delírio! Só depois de alguns beliscões em si mesmo e uma água servida pelo garçom que atendia as autoridades, ele se deu conta que estava realmente no comício, sem fazer idéia de como ali chegara.

Marino, enquanto isto, trocava idéias com Franco Montoro. Os dois concordavam que o comício estava morno e o culpado era o locutor, que com sua fala mansa não conseguia animar a multidão que ocupava toda a praça. Vendo sua opinião respaldada e embalado pela cachaça, Marino resolveu tomar uma providência. Aproveitando um instante de ausência do locutor, que saíra para tomar água, arrastou Fininho mais uma vez, correu para a frente do palanque e assumiu o microfone:
- Povo de Ouro Preto! A liberdade vai chegar! Diretas Já!

A praça veio abaixo, com todo mundo gritando “Diretas Já” e um mar de bandeiras sendo agitadas. Marino olhou para trás e viu a expressão risonha e satisfeita de todos os grandes políticos do país, reunidos ali em cima. Daí para frente, o sucesso foi total. O locutor oficial sumiu e Marino passou a anunciar um a um os que vinham fazer discurso. Entre um figurão e outro, o “novo Tiradentes” vinha até o microfone. Com sua vasta barba e a cabeleira negra, dirigia com gravidade suas breves, sábias e incompreensíveis palavras à multidão, que o ouvia com respeito e espanto: Quem é esse cara? Dúvida que também estava na cabeça das dezenas de políticos ao seu lado, mas ninguém ousou interrompê-lo.

Terminado o comício, os dois bebuns voltaram para casa coberto de glórias. Naquela mesma noite apareceram em todos os telejornais e, no dia seguinte, em fotos de vários jornais impressos. A decisiva contribuição da Pulgatório para a democracia brasileira estava feita. Feita e documentada.

Caruncho

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