terça-feira, 21 de abril de 2009

BETO E A POTRANCA MISTERIOSA

Beto Boquinha honrava seu apelido. Poeta nas horas vagas, e as horas vagas eram muitas, ele tinha confiança em seu poder de sedução pela palavra. Com um sorriso largo e voz de barítono, acreditava piamente que não havia mulher capaz de resistir a um poema declamado da forma certa na hora certa. Em algumas ocasiões, ao brados, e em outras sussurrado ao pé do ouvido. No escurinho da boate, no meio de uma batucada na sala, numa esquina enevoada de uma noite ouropretana ou em qualquer outro lugar em que se deparasse com uma musa inspiradora, lá ia aquele homenzarrão roliço e careca fazendo da última flor do Lácio um instrumento de conquista. A tática era de eficácia duvidosa, mas o rapaz era determinado.

E naquele dia choveu na horta do Betão. Voltando das férias, subiu de cabeça baixa as escadas do ônibus para Ouro Preto, conferindo o número da poltrona e alheio ao que se passava à sua volta, imerso na construção de mais alguns versos. Parou no meio do corredor ao ver, pelo canto do bilhete, um par de pernas morenas cruzadas sob uma mini-saia. Desde os pés calçados em sapatilhas de pano, Beto veio comendo com os olhos aquelas pernas, cada vez mais maravilhado. Passou por coxas roliças, mãos postas sobre o colo, uma cintura fina, seios túmidos num decote farto, cabelos longos e um sorriso encantador. Uma morena fenomenal! E mais embasbacado ele ficou ainda ao olhar para a numeração na prateleira e constatar que sua poltrona era ali naquela janela, ao lado da potranca. Ele abriu seu melhor sorriso e ofereceu o assento da janela para ela, um ato de generosidade cheio de segundas intenções, já que assim poderia manter a presa sob controle.

A viagem de duas horas pareceu passar em cinco minutos, com Beto desejando que durasse o dia inteiro. Os dois se entenderam desde o primeiro minuto e o papo já estava animadíssimo antes que o ônibus arrancasse. A morena, além de linda, não apresentou a menor resistência e não foram precisos muitos poemas para que Beto lhe roubasse o primeiro beijo. Desceram em Ouro Preto como namorados apaixonados. A moça rindo e se aconchegando em seus braços a cada declaração. O Boquinha entrou Pulgatório adentro radiante, descendo com ela direto em direção a seu quarto para deixarem suas malas, cercado pelos olhares invejosos dos pulgas que vadiavam pela sala.

Só saíram de lá na manhã seguinte, quanto Beto surgiu na cozinha cheio de si e tratou logo de relatar os detalhes de sua conquista e da inacabável noite de amor. “Ela é uma deusa linda e fogosa!” Minutos depois, de banho tomado, a moça apareceu vestida no roupão do Boquinha. Se instalou no meio da galera, longe do Beto, no banco comprido colocado ao lado da geladeira. Pediu uma cerveja e entrou no papo sem qualquer inibição, como se conhecesse de longa data todos que ali estavam. Na falta de cerveja, pegou uma xícara de café e cruzou suas maravilhosas pernas. O roupão largo se abriu e suas coxas apetitosas ficaram à vista. A rapaziada não disfarçou o interesse e ela fazia questão de mostrar que não se incomodava. Beto, sem entender muito bem a situação, ainda pensou em cavar um lugar a seu lado, mas ela o interrompeu:
- Fique aí mesmo, bonitão. Deixa eu tirar uma casquinha dos seus amiguinhos!

A galera se assanhou e só com muito trabalho e marcação sob pressão é que ele conseguiu mantê-la para si naquele dia. A moça o desnorteava. Não refutava nem seus beijos nem seus carinhos, mas parecia estar todo o tempo de olho em todos os homens à sua volta. E homem era o que não faltava onde ela estava. O pessoal queria respeitar o território do Beto, mas ela não ajudava, dando bola para todo mundo.

No terceiro dia de romance Beto a deixou sozinha na república, pois tinha um compromisso inadiável em Mariana e achou melhor não levá-la, já que o assunto era sério e aquela potranca meio doidinha poderia lhe causar problemas. Sabia do risco que corria, mas achou melhor assim. No final da tarde, de volta à república, antes que perguntasse pela moça foi avisado de que ela desaparecera logo depois da saída dele. Havia mais de um pulga interessado em furar seu olho, mas ela dissera que ia dar uma volta e evaporara. Não havia o que fazer e Beto ficou na sala vendo televisão, esperando pela volta dela e imaginando sua próxima noite de sexo selvagem.

Eram menos de oito horas quando alguém irrompeu gritando pelo corredor:
- Pessoal! Está tendo um strip-tease na Aquarius!

Saiu todo mundo correndo para lá. Na boate da Aquarius, cercada pelos seus quarenta moradores e mais umas dúzias de vizinhos, lá estava a namoradinha do Beto. Sob urros e aplausos da galera, ela já estava quase nua. Os pulgatorianos se juntaram à turba, cheios de animação, e Beto voltou sozinho para casa, decidido a não aceitar a moça de volta. Decisão que ela nunca soube, já que nunca voltou nem para pegar suas coisas. Passou uns dias na Aquarius enrolada com alguém de lá e depois sumiu.

Na semana seguinte, com a turma reunida para assistir o telejornal depois do almoço, eis que a fotografia da misteriosa moça surge na tela. Sob o olhar incrédulo do Beto e a atenção de todos, o locutor anunciou:
- Fulana de Tal, 20 anos, natural de Barbacena, está desaparecida há dois meses. Como ela é portadora de distúrbios mentais, a família solicita que quem a veja faça contato pelo telefone número ....

A turma caiu na risada enquanto Beto caía no sofá, sem acreditar no que ouvira. Mas minutos depois ele também riu aliviado. Pior seria se ela ainda estivesse pela Pulgatório e ele fosse acusado de se aproveitar de uma jovem doente. As duas noites de amor tinham sido intensas e a única tristeza foi se recordar de quanta saliva ele havia gasto para conquistar uma cabeça voada, que não se lembraria de nenhum dos seus românticos poemas sussurrados sob os cobertores.

Caruncho, com Sancho

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