terça-feira, 21 de abril de 2009

DEVE SER O CARVÃOZINHO

O Gengis Khan certa vez trincou um osso do joelho. Após suportar por mais de um mês o incômodo de ter que andar por Ouro Preto com uma perna engessada, finalmente chegou o dia da retirada do gesso. Era um sábado. Já tinha passado da hora do almoço e nada do Gengis ir ao hospital, pois estava morrendo de medo da serra circular elétrica que seria utilizada para cortar o gesso. Fininho, vendo a angústia do amigo, resolveu dar um apoio moral: “vamos tomar umas lá no Bar das Coxinhas que você cria coragem”. Ele não tinha idéia do pavor que o Gengis estava sentindo. Não foram umas e sim várias pingas.

Já era noite quando o Fininho deu o ultimato: “Vamos agora, senão daqui a pouco você não vai conseguir mais andar com esta perna engessada e cheio de cachaça”. O Gengis, relutante, cedeu e finalmente topou ir até a Santa Casa. Depois de um bom tempo de espera e várias tentativas de desistência, finalmente o nome do Gengis foi chamado. Ele, tentando aparentar que estava sóbrio, falou:
- Vou, mas o meu amigo tem que me acompanhar!
Chegando na sala, apareceu um enfermeiro que com uma voz e trejeitos afeminados falou:
- Tira a calça e deita ali.
Gengis, apavorado, virou para o Fininho e começou a falar:
- Eu não vou tirar a calça, ela já está descosturada na perna com o gesso. Não precisa tirar. Eu não quero que esse cara fique pegando na minha perna. Ele pode se distrair e me machucar com a serra.

Depois de um tempo, finalmente ele cedeu. O enfermeiro pegou a serra elétrica e ligou;
- Ziiiiiiiimmmmmmm. Crrrrrrrriiiiihhhhh. Créééékkkk...
- Quebrou. Disse o enfermeiro.
O Gengis interpretou aquilo como um sinal dos céus e disse:
- Vamos embora. Amanhã voltamos!
Foi neste momento que o Fininho disse uma frase que ficou marcada para o Gengis. Sempre que ele conta este caso, quando chega neste momento ele diz a frase com destaque e uma entonação exclusiva para ela, complementada por gestos simulando os de uma pessoa que acaba de ter uma grande idéia:
- Deve ser o carvãzinho.....

A frase realmente, deve ter sido dita como o Gengis costuma contar, pois logo em seguida o Fininho pediu uma chave de fenda e o enfermeiro nem hesitou, saiu para pegar a caixa de ferramentas. Enquanto o enfermeiro foi buscar as ferramentas, o Fininho observou em um armário com porta envidraçada, vários rolos de gaze com gesso. Numa fração de segundos pegou alguns rolos e colocou dentro de um embornal que ele normalmente usava para carregar os cadernos e material de estudos. Logo em seguida o enfermeiro chegou com as ferramentas e o Fininho desmontou a serra em cima de uma mesa sob os olhares curiosos do enfermeiro e do Gengis, que estava só de cuecas e camisa. Achou os dois carvõezinhos e, para encurtar a história, o problema realmente era com eles. Montou a serra de novo e ela funcionou!
- Ziiiiiiiimmmmmmm...

Funcionou perfeitamente. O enfermeiro, com extrema habilidade e cuidado, retirou o gesso e com uma esponja limpou a perna do Gengis, que de tão aliviado por ter dado tudo certo, nem se lembrou das preocupações iniciais. Eufórico, se levantou e começou a abraçar o enfermeiro agradecendo, elogiando o bom trabalho. Fininho preocupado, puxou o Gengis e o alertou:
- Vamos embora que ele está gostando destes abraços.

Saindo da Santa Casa, os dois foram para o CAEM. Já naquela noite o Gengis contou para várias pessoas a história do carvãozinho. Tudo levava a crer que a história tinha terminado e o “causo” poderia acabar aqui. Não foi isso que aconteceu... Chegando na república de madrugada, os dois viram na sala, apagado em um colchão, um cara que estava hospedado lá. Tinha bebido tanto que nem se mexeu quando os dois o cutucaram. Neste momento o Fininho retirou os rolos de gaze com gesso do embornal, leu as instruções e pediu água para um “bicho” que estava na sala. Os outros presentes na sala, já percebendo que era algum trote, se aproximaram para ajudar a engessar o braço do bebum. Engessado o braço do rapaz, só restava aguardar ele acordar. Conforme a turma combinou, quem estivesse na sala na hora em que ele acordasse, deveria dizer:
- Que tombo, hein!

Fininho

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