Para tocar o dia-a-dia, a república instituiu dois cargos administrativos: o de presidente e o de administrador da caixinha. O presidente, com mandato de um mês, é o responsável pelos gastos correntes e pelas compras da casa. Nome imponente para uma função nada glamourosa. O trabalho é, basicamente, pagar o salário e os encargos sociais da comadre e manter a casa abastecida de papel higiênico, produtos de limpeza, pão, leite, chá, café e jornal. O administrador da caixinha cuida dos fundos de longo prazo, dinheiro para emergências e compras de bens duráveis. Parece inacreditável, mas nos primórdios do Doze os moradores da república arcavam com parte do orçamento da festa. Naquele tempo, esta parcela também vinha da caixinha.
Estes cargos são importantes para a casa funcionar, mas todos os que passaram pela Pulga sempre tiveram a vontade de ser mais do que um bando de estudantes que dividem o mesmo teto. Morar na Pulgatório significava entrar para uma irmandade e este tipo de grupo precisa de algo mais para se perpetuar. O tempo foi sedimentando as regras não escritas que moldaram o perfil desta entidade nada secreta, mas mesmo assim meio maçônica. Exemplo clássico era a escolha dos novos moradores. Ainda que não existissem critérios objetivos para isto, sempre foi fácil saber quando um bicho seria aceito na república. De alguma maneira o cara tinha predicados que combinavam com o jeito da casa. E a casa já estava lá antes dele. Portanto, ou ele tinha a felicidade de ter nascido com um jeito pulgatoriano de ser, ou ali não moraria.
E este jeito, esta personalidade da república, não é fruto do acaso. Foi sendo moldado por quem por ela ia passando, com grande parte vindo das personalidades fortes daqueles que, naturalmente, sem eleição nem imposição, assumiam a liderança da turma. E para isto não precisavam de qualquer mandato. Eles falavam e todos ouviam. Suas opiniões eram sempre decisivas nos momentos de crise ou impasse. E, como não poderia deixar de ser, este respeito era fruto da dedicação que tinham pela república. Cada um a seu tempo, eles foram a identidade da Pulgatório, reconhecida tanto pelos demais pulgatorianos quanto por todo mundo que se relacionava conosco.
Enquanto o Kadinho morou lá, ele foi o cara. Comandando o time de futebol de salão, organizando as festas, coordenando as reuniões, cobrando o empenho de todos na manutenção da casa, aquele italiano de pavio curto dava o tom. Não se tratava de mandar nos colegas, até porque a independência e a liberdade eram os bens mais preciosos de quem saía da casa dos pais para viver em Ouro Preto. Era uma questão de liderança. Sem ele, a Pulgatório não seria o que é. Sua longa passagem por lá deixou marcas que sobrexistem até hoje.
Desde a chegada do Costinha, a identificação entre os dois foi total. Paulistas, caipiras de sotaque forte, palmeirenses e com a mesma vocação para a coordenação das atividades da casa. Estava pronta a sucessão. Quando Kadinho se formou, todos já sabiam e aceitaram o fato com naturalidade: Costinha passaria a ser o novo manda-chuva da república. O herdeiro da honraria não deixou a bola cair e a Pulgatório seguiu seu caminho de glórias. A decepção só veio mais tarde. Costinha se formou e sumiu. O fervoroso defensor das tradições pulgatorianas, arauto da necessidade de mantermos sempre fortes nossos laços de amizade, se mudou de volta para São Paulo e há muitos anos já não dá o ar de sua graça em Ouro Preto. Kadinho, sempre presente, fica bravo só de ouvir o nome de seu pupilo...
Caruncho
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