Roubar galinhas é provavelmente o esporte nacional de maior prestígio em Ouro Preto, praticado maciçamente desde a chegada dos primeiros estudantes ainda no século XIX. Entretanto, durante algum tempo esta pitoresca atividade foi elevada ao status de arte na Pulgatório. Roubávamos apenas esporadicamente até a chegada do Ricardo na república, em 1983. Já veterano, proveniente da Jardim de Alah, ele entrou para o time trazendo na bagagem um razoável currículo: tocava um violão que dava para o gasto e era tido como grande conquistador. Rapaz de boa figura e ainda por cima violeiro, tinha sempre uma fieira de meninas suspirando por um beijo seu. Mas o interesse número um do indivíduo era mesmo a manguaça. Bebia sempre que podia e como podia sempre, sempre bebia. Com poucas semanas de casa, ganhou seu apelido: ET, Eternamente Tonto.
Logo nos primeiros dias nos revelou um fascinante conhecimento. Ele tinha na memória um mapa dos melhores galinheiros da cidade. Da Água Limpa ao Antônio Dias, do Parque Metalúrgico às Lajes, ele sabia a endereço preciso das maiores reservas avícolas de Ouro Preto. E para causar boa impressão em seus novos colegas, tratou logo de colocar a teoria em prática. Pelo menos uma vez por semana, dedicava uma madrugada à nobre arte, que além de esportiva ainda enriquecia as gororobas de fim de noite.
A estratégia para um bom assalto às penosas recomenda a utilização de pelo menos dois meliantes. Caruncho, presença fácil nos mexidões improvisados e já especialista na técnica de matar, sangrar e depenar galinhas, resolveu expandir suas habilidades e se associar ao mais novo morador da república. Assim poderia dominar toda a cadeia produtiva da galinhada: captura, abate, preparação e cozimento. Em pouco tempo a dupla atingiu níveis excelentes de performance operacional. Se a fome batia fora de hora e na despensa tudo que havia era arroz, era só despachar os comparsas pelas brumas da noite ouropretana que, com 100% de certeza, em no máximo uma hora estariam de volta com a ave para o rega-bofe. Geralmente uma galinha, eventualmente duas, de vez em quando, um pato, e em dias de menos felicidade ou de excesso de cana, um galo velho, duro de cozinhar.
Os bebuns eram infalíveis e ainda se divertiam colecionando histórias das reclamações dos assaltados, tanto pela perda dos animais como por danos a benfeitorias, principalmente cercas derrubadas ou furadas. Numa noite de mais embriaguez e completo pânico pelo despertar do proprietário, fugiram desesperados subindo por uma escada esquecida no quintal, atravessando todo o telhado da casa, de uma extremidade a outra, e quebrando dezenas de telhas. Pularam na rua à frente da casa e sumiram na névoa providencial que recobria toda a cidade. Era inverno.
Um dia, a casa cai. Em mais uma madrugada de cachaça, ócio e fome, saíram à caça. A vítima da vez seria a casa de um funcionário da Escola, localizada no terreno defronte do Parque Metalúrgico. Mais bêbados do que o normal, tiveram dificuldade em se movimentar em silêncio. Situação agravada por um acesso de soluço do Caruncho. Amaro, o filho mais velho da família, já homem feito e frequentador assíduo da Pif-Paf, tinha perdido a conta de quantas vezes o galinheiro de sua casa havia sido assaltado. De vez em quando era até convidado para degustar uma de suas próprias aves. Naquela noite, depois de ouvir o barulho manjado dos ladrões, teve vontade de virar para o lado e dormir novamente, mas foi instado por seu pai a verificar o que estava acontecendo. Filho obediente, foi até a porta da sala e deu um grito preguiçoso, o suficiente apenas para alertar os finórios e fazê-los correr. ET, mais alerta, saiu em disparada e sumiu no mundo. Caruncho, sem condições físicas de correr, saiu atabalhoadamente pelo pior caminho, passando pela porta da frente da casa e chegando a esbarrar em Amaro. Vendo o estado lastimável do sujeito, Amaro caiu na risada e resolveu persegui-lo rua afora. Não foi difícil alcançar aquele trapo humano, mas o bebum teve um lampejo de lucidez e se refugiou atrás de um carro. Sem paciência para brincar de gato e rato em volta do carro, Amaro simpaticamente perguntou o nome do estudante e de que república ele vinha, já que não o conhecia. Recebeu de volta uma rajada de impropérios do abusado, que terminou dizendo que não lhe devia satisfação alguma.
Aí o cara se queimou. Retirado da cama por um ladrãozinho sem-vergonha e ainda por cima sendo ofendido, Amaro pegou um paralelepípedo no chão e ameaçou jogá-lo se o bebum não se rendesse. Num segundo relance de lucidez, o pé-de-cana se rendeu e a polícia foi chamada aos berros, já que a delegacia se localizava a poucos metros dali. Preso, Caruncho respondeu a um rápido interrogatório onde negou tudo. Foi fichado como “suspeito de roubo de galinha” e recolhido ao xilindró. Numa cela fria e suja, o fogo foi se esvaindo e o rapaz foi se inquietando com a situação. Como sair daquela enrascada? Como dormir no chão duro da cela sem camas e impregnada pelo cheiro insuportável da privada entupida? Mas o desespero durou pouco. Logo ouviu vozes conhecidas que protestavam à porta da delegacia. Em alguns minutos o carcereiro apareceu:
- E então meu senhor, estou livre?
- Livre o que, rapaz? Seus colegas criaram uma confusão aí na frente porque queriam entrar para fotografá-lo atrás das grades. Mas aqui é um lugar de respeito e eu não permiti. Tome aí o cobertor que eles lhe trouxeram!
- Mas quando eu vou poder sair?
- Bom, hoje é sexta-feira. Na segunda o delegado decide o que fazer com você...
Caruncho protestou em vão, mas teve que se conformar com seu destino e acabou se ajeitando sobre alguns jornais espalhados pelo chão de cerâmica. Somente na manhã seguinte uma advogada amiga, moradora da Tágide, deu um jeito de soltá-lo. Com o susto, ele deu fim à carreira de crimes e a Pulgatório voltou a comprar frangos, já que o ET não se animou para uma carreira solo.
Caruncho
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