Freud explica. Nossos instintos podem ser reprimidos, podemos conter nossos desejos por conta das regras da sociedade em que vivemos, mas eles estarão sempre lá. Soterrados pela autorepressão, jogados para o sub-consciente, porém prontos a emergir em qualquer momento de liberação. Uns se liberam meditando, outros soltando a franga e a maioria, pelas drogas. Aldous Huxley, metido a besta como todo inglês, tomava mescalina para abrir a portas da percepção. Em Ouro Preto, com menos requinte e frescura, o pessoal enfia o pé na jaca e enche a cara de cachaça mesmo.
A Pulgatório não poderia deixar de ter seu exemplar da complexidade da psique humana. Zé Cachaça, nos seus escassos momentos de sobriedade, era ranzinza e pela-saco como o doutor Jekyll. Entretanto, mister Hyde aflorava às primeiras gotas de álcool e um ser impetuoso e temperamental surgia repentinamente à nossa frente. Em dias de bebedeira moderada, ele se contentava em chutar a bunda dos bichos, cantar desafinado e reclamar da vida. Como observava o Fininho, não havia sobrenome mais adequado para um reclamão profissional: o Zé da Cruz nascera para sofrer e fazia questão de encher o saco de todos mostrando quanto pesava a cruz que carregava vida afora. Quando passava do estágio de biriteiro para o de bebum, a choradeira era inevitável. E o Kadin era quem tinha que aguentar. O pé-de-cana projetava no amigo a figura paterna e saía atrás dele à procura de consolo para seus sofrimentos existenciais. Num dia de bebedeira homérica, depois de ter torcido o tornozelo defendo o time de futebol do Rosário, passou uma noite inteira estirado no sofá da sala, chorando e xingando todos que dele se aproximavam:
- Saiam daqui. Tá doendo muito! Eu quero o Kadin!
Só sossegou quando o fiel amigo chegou em casa, lhe deu um tapa na cabeça e pronunciou suas delicadas palavras de conforto:
- Deixa de viadagem, Zé! Para de encher o saco do povo, passe um Gelol nesta merda e vá dormir!
E lá foi ele, obediente e mudo, em direção a seu quarto. Milagrosamente curado da torção no tornozelo e livre de suas angústias...
Num sábado qualquer de marasmo na cidade, o Zé acordou especialmente animado. De banho tomado e barbeado, tomou um café rápido às dez da manhã, trocou dois dedos de prosa com os presentes na sala e saiu para beber com alguns amigos da Baviera. Não se soube mais do homem pelo resto do dia. Caída a noite, boa parte da república se reuniu para o exercício dos tradicionais rituais dos sábados sem excursão em casa: subir a ladeira e encher a cara no CAEM. Já passada a meia-noite, os pulgas conversavam distraidamente debruçados no balcão do bar quando alguém saído do banheiro viu o Geromin e gritou:
- Rápido! Vamos lá no banheiro que o Zé Cachaça pirou de vez! Acho que só alguém da Pulgatório vai conseguir acalmar o homem!
Geromin correu até o cômodo mais repugnante de nosso clube acompanhado de mais uns três pulgas que ouviram o alerta. Como acontecia todo fim de semana, o mictório metálico que se estendia por mais de cinco metros, ao longo da maior parede do banheiro, estava entupido. Completamente cheio, exalava aquele insuportável cheiro oxidado de mijo velho e já transbordava em alguns pontos, espalhando urina pelo chão. Os cachaceiros que precisavam se aliviar, normalmente já cheios de dificuldade em se equilibrar naquele chão fétido e escorregadio e ainda acertar o alvo, agora tinham que correr do Zé, que enfiava a mão no cocho e jogava urina em qualquer um que se aproximasse. Bêbado como uma vaca, ele mergulhava o braço até a altura do cotovelo naquela sopa escatológica, mistura de água, urina, cuspe e vômito, e bombava o ralo do mictório tentando desentupi-lo. Concentrado em sua empreitada altruísta em prol da higiene coletiva, ele não admitia que as pessoas urinassem antes que o serviço estivesse terminado:
- Gente mal educada! Saiam daqui! Não estão vendo que o negócio está entupido? Xô! Quando desentupir, eu aviso!
Os apelos do Geromin não adiantaram de nada e ele só tirou a mão do ralo depois de conseguir desentupi-lo totalmente. De cabeça empinada, orgulhoso de seu sucesso, foi cambaleando até a pia, lavou as mãos demoradamente e saiu do banheiro em direção ao bar, sem dar bola para os olhares incrédulos de por quem passava. Pediu um cerveja no balcão, tomou um gole, anunciou aos gritos que o banheiro estava liberado e desmontou no ombro do Geromin. Apagou instantaneamente e o amigo teve que rebocá-lo ladeira abaixo até em casa.
Zé só retomou a consciência quando chegou à sala da república. Ainda completamente bêbado, reuniu algumas energias para praticar mais um pouco daquilo que sabia fazer melhor, praguejar e reclamar:
- Puta merda! Um frio deste e ninguém acende a lareira? Será que ninguém aqui sabe que lareira serve para esquentar? Bando de bostas! Se não sou eu para tomar a frente das coisas, nada funciona nesta casa!
Juntou uns restos de madeira, acendeu a lareira, puxou o sofá de três lugares para perto dela, deitou e apagou de novo. Geromin, cansado das presepadas do Zé, foi dormir e o deixou sozinho por lá. Com a proximidade das chamas, o sofá de pano pegou fogo. Zé Cachaça foi salvo por um bicho que dormia no quartão. Despertado pelo cheiro de queimado, ele tratou de apagar o princípio de incêndio e empurrar o sofá para longe da lareira. Sem se dar conta do risco que correra, Zé passou a noite no sofá. Acordou numa ressaca monumental e sua primeira visão foi o rombo numa extremidade do assento, Indignado pelo dano ao principal móvel da sala, levantou-se segurando a cabeça com as mãos e foi para a cozinha tirar satisfação com a turma que batia um bonde enquanto tomava café:
- Quem foi o idiota que queimou o sofá? Puta que pariu! Será que esta bicharada não vai aprender nunca a zelar pelo patrimônio da república?
A turma se deliciou lhe relatando todos os detalhes de sua noite de glória. O Zé xingava todo mundo, se recusando a acreditar em suas estripulias. Era um absurdo que inventassem uma história tão infame a respeito dele! Enfiar a mão no mijo? Queimar o sofá na lareira? Ele, não! Para multiplicar a sua ira, alguém se lembrou do jingle da propaganda de uma tradicional desentupidora daquela época e todos cantaram em uníssono:
“Não se preocupe,
não demora,
chame Roto-rooter!
Roto-rooter tem o plano,
e a sujeira descerá pelo cano!”
Zé Cachaça ficou possesso e ameaçou dar porrada em todo mundo. O pessoal da Pulga, que não é de confusão, o deixou falando sozinho. Deste dia em diante, sempre que alguém queria tirar o homem do sério, bastava assobiar a melodia da musiquinha. Ou apenas chamá-lo de Roto-rooter. A receita para tirá-lo do sério funciona até hoje, passados vinte e cinco anos.
Caruncho, Mala e Mala Tyson
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