terça-feira, 21 de abril de 2009

CHAME ROTO-ROOTER

Freud explica. Nossos instintos podem ser reprimidos, podemos conter nossos desejos por conta das regras da sociedade em que vivemos, mas eles estarão sempre lá. Soterrados pela autorepressão, jogados para o sub-consciente, porém prontos a emergir em qualquer momento de liberação. Uns se liberam meditando, outros soltando a franga e a maioria, pelas drogas. Aldous Huxley, metido a besta como todo inglês, tomava mescalina para abrir a portas da percepção. Em Ouro Preto, com menos requinte e frescura, o pessoal enfia o pé na jaca e enche a cara de cachaça mesmo.

A Pulgatório não poderia deixar de ter seu exemplar da complexidade da psique humana. Zé Cachaça, nos seus escassos momentos de sobriedade, era ranzinza e pela-saco como o doutor Jekyll. Entretanto, mister Hyde aflorava às primeiras gotas de álcool e um ser impetuoso e temperamental surgia repentinamente à nossa frente. Em dias de bebedeira moderada, ele se contentava em chutar a bunda dos bichos, cantar desafinado e reclamar da vida. Como observava o Fininho, não havia sobrenome mais adequado para um reclamão profissional: o Zé da Cruz nascera para sofrer e fazia questão de encher o saco de todos mostrando quanto pesava a cruz que carregava vida afora. Quando passava do estágio de biriteiro para o de bebum, a choradeira era inevitável. E o Kadin era quem tinha que aguentar. O pé-de-cana projetava no amigo a figura paterna e saía atrás dele à procura de consolo para seus sofrimentos existenciais. Num dia de bebedeira homérica, depois de ter torcido o tornozelo defendo o time de futebol do Rosário, passou uma noite inteira estirado no sofá da sala, chorando e xingando todos que dele se aproximavam:
- Saiam daqui. Tá doendo muito! Eu quero o Kadin!

Só sossegou quando o fiel amigo chegou em casa, lhe deu um tapa na cabeça e pronunciou suas delicadas palavras de conforto:
- Deixa de viadagem, Zé! Para de encher o saco do povo, passe um Gelol nesta merda e vá dormir!

E lá foi ele, obediente e mudo, em direção a seu quarto. Milagrosamente curado da torção no tornozelo e livre de suas angústias...

Num sábado qualquer de marasmo na cidade, o Zé acordou especialmente animado. De banho tomado e barbeado, tomou um café rápido às dez da manhã, trocou dois dedos de prosa com os presentes na sala e saiu para beber com alguns amigos da Baviera. Não se soube mais do homem pelo resto do dia. Caída a noite, boa parte da república se reuniu para o exercício dos tradicionais rituais dos sábados sem excursão em casa: subir a ladeira e encher a cara no CAEM. Já passada a meia-noite, os pulgas conversavam distraidamente debruçados no balcão do bar quando alguém saído do banheiro viu o Geromin e gritou:
- Rápido! Vamos lá no banheiro que o Zé Cachaça pirou de vez! Acho que só alguém da Pulgatório vai conseguir acalmar o homem!

Geromin correu até o cômodo mais repugnante de nosso clube acompanhado de mais uns três pulgas que ouviram o alerta. Como acontecia todo fim de semana, o mictório metálico que se estendia por mais de cinco metros, ao longo da maior parede do banheiro, estava entupido. Completamente cheio, exalava aquele insuportável cheiro oxidado de mijo velho e já transbordava em alguns pontos, espalhando urina pelo chão. Os cachaceiros que precisavam se aliviar, normalmente já cheios de dificuldade em se equilibrar naquele chão fétido e escorregadio e ainda acertar o alvo, agora tinham que correr do Zé, que enfiava a mão no cocho e jogava urina em qualquer um que se aproximasse. Bêbado como uma vaca, ele mergulhava o braço até a altura do cotovelo naquela sopa escatológica, mistura de água, urina, cuspe e vômito, e bombava o ralo do mictório tentando desentupi-lo. Concentrado em sua empreitada altruísta em prol da higiene coletiva, ele não admitia que as pessoas urinassem antes que o serviço estivesse terminado:
- Gente mal educada! Saiam daqui! Não estão vendo que o negócio está entupido? Xô! Quando desentupir, eu aviso!

Os apelos do Geromin não adiantaram de nada e ele só tirou a mão do ralo depois de conseguir desentupi-lo totalmente. De cabeça empinada, orgulhoso de seu sucesso, foi cambaleando até a pia, lavou as mãos demoradamente e saiu do banheiro em direção ao bar, sem dar bola para os olhares incrédulos de por quem passava. Pediu um cerveja no balcão, tomou um gole, anunciou aos gritos que o banheiro estava liberado e desmontou no ombro do Geromin. Apagou instantaneamente e o amigo teve que rebocá-lo ladeira abaixo até em casa.

Zé só retomou a consciência quando chegou à sala da república. Ainda completamente bêbado, reuniu algumas energias para praticar mais um pouco daquilo que sabia fazer melhor, praguejar e reclamar:
- Puta merda! Um frio deste e ninguém acende a lareira? Será que ninguém aqui sabe que lareira serve para esquentar? Bando de bostas! Se não sou eu para tomar a frente das coisas, nada funciona nesta casa!

Juntou uns restos de madeira, acendeu a lareira, puxou o sofá de três lugares para perto dela, deitou e apagou de novo. Geromin, cansado das presepadas do Zé, foi dormir e o deixou sozinho por lá. Com a proximidade das chamas, o sofá de pano pegou fogo. Zé Cachaça foi salvo por um bicho que dormia no quartão. Despertado pelo cheiro de queimado, ele tratou de apagar o princípio de incêndio e empurrar o sofá para longe da lareira. Sem se dar conta do risco que correra, Zé passou a noite no sofá. Acordou numa ressaca monumental e sua primeira visão foi o rombo numa extremidade do assento, Indignado pelo dano ao principal móvel da sala, levantou-se segurando a cabeça com as mãos e foi para a cozinha tirar satisfação com a turma que batia um bonde enquanto tomava café:
- Quem foi o idiota que queimou o sofá? Puta que pariu! Será que esta bicharada não vai aprender nunca a zelar pelo patrimônio da república?

A turma se deliciou lhe relatando todos os detalhes de sua noite de glória. O Zé xingava todo mundo, se recusando a acreditar em suas estripulias. Era um absurdo que inventassem uma história tão infame a respeito dele! Enfiar a mão no mijo? Queimar o sofá na lareira? Ele, não! Para multiplicar a sua ira, alguém se lembrou do jingle da propaganda de uma tradicional desentupidora daquela época e todos cantaram em uníssono:
“Não se preocupe,
não demora,
chame Roto-rooter!
Roto-rooter tem o plano,
e a sujeira descerá pelo cano!”

Zé Cachaça ficou possesso e ameaçou dar porrada em todo mundo. O pessoal da Pulga, que não é de confusão, o deixou falando sozinho. Deste dia em diante, sempre que alguém queria tirar o homem do sério, bastava assobiar a melodia da musiquinha. Ou apenas chamá-lo de Roto-rooter. A receita para tirá-lo do sério funciona até hoje, passados vinte e cinco anos.

Caruncho, Mala e Mala Tyson

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