Definitivamente era preciso “afinar”, não havia alternativa senão aquela! Depois de quase um mês com as fuças enterradas nas “bentas”, as vistas em frangalhos de tanto varar madrugadas ferrando, os nervos em pandarecos, tudo estava como dantes no quartel do Abrantes, ou seja, só por um milagre, e dos grandes, conseguiria enfiar na cachola a quantidade de Física IV necessária para fazê-lo tirar a nota que precisava. A coisa estava feia, a bendita prova seria naquela noite e o mais sensato seria bater de frente com a dura realidade, “relaxar e gozar”.
Decisão tomada, fechou os livros com alívio e foi dar um rolé pela República, saborear sadicamente a aflição alheia, o desespero do colega, a falta de esperança do próximo. Ao passar pela boate, encontrou os amigos Boi Manso e Maluf conversando descontraidamente, enquanto bebericavam uma “purinha”, devidamente guardada para aquela ocasião especial, já que tanto um, quanto outro estavam formando-se naquele final de período letivo e, com justiça, comemoravam tal fato.
Deu meia volta, foi até seu quarto, retirou no fundo do guarda-roupa uma bisnaguinha de salaminho ainda lacrada, cuidadosamente malocada naquele local protegido a sete chaves, a salvo das vistas e do apetite sempre aberto de conhecidos filões de plantão (Beto Boquinha, Mário Barão, Goiano, Frei Damassa, entre outros). De posse daquele pequeno símbolo fálico, testemunha concreta de sua condição de “cabra macho e decidido”, retornou à boate para se juntar a dupla de formandos, a qual ofereceu o tiragosto a título de compensação pelas doses a serem sorvidas.
O dia rolou entre tragos, piadas, causos e recordações pitorescas, animados frevos do Quinteto Violado e rocks psicodélicos do Pink Floyd. O trio já ia para a terceira ou quarta garrafa de “purinha” e a enésima porção de moela e pés-de-galinha, quando Kadinho e Né “Bornita” entraram na boate e viram o estado do colega desertor, que mal acostumado às coisas de alto teor etílico, estava latindo de tão mamado e, como diria o Marino Bó, a “quaquihões” por hora. Como leais amigos e companheiros de desdita, Kadinho e Né trataram de chamar o colega à razão, contando com o auxílio extra e inesperado da dupla embriagada de formandos:
- Oscar do céu, deixa de engolir corda e vamos fazer a prova! A gente te dá uma força; a galera daqui de casa, mais o pessoal da Nau Sem Rumo e da Baviera está junto nessa parada. Tá tudo esquematizado, a gente coloca você no meio do povo e te passa cola.
Comovido com tamanha demonstração de amizade e coleguismo, Oscar tomou um rápido banho para espantar a inhaca da bebedeira, escovou mais ou menos os dentes, pegou seu material e subiu confiante com os companheiros.
Para abrigar os estudantes que compareceram com o intuito de fazer a prova, o local escolhido foi o “Maracanã”, sala de proporções gigantescas, apropriado a receber grandes massas de público. Tudo estava saindo como o planejado pela força-tarefa encarregada de monitorar os movimentos e ações durante aquele exame; o “Maracanã”, pelas suas macro dimensões, era o palco ideal para executar manobras tão arriscadas e de capital importância para os envolvidos.
Posições estrategicamente ocupadas, últimos preparativos e sinais cabalísticos acertados, provas distribuídas, foi dada a partida para a mãe de todos os exame. Apreensivo, o pessoal caiu matando nas questões propostas e à medida que as mesmas eram lidas, um abatimento ia tomando conta da força tarefa e de todos aqueles que, direta ou indiretamente, a ela encontravam-se irmanados. O velho Dornellas havia dado uma tremenda “calça arriada na galera”, a prova estava uma pedreira só!
Olha para um lado, olha para o outro e nenhuma luzinha, nenhum sinal de alívio, nenhuma breve e fugidia esperança... De repente, um fato inesperado chamou a atenção de todos. Concentrado, Oscar parecia uma máquina de escrever e calcular, um verdadeiro “cérebro eletrônico”. Em movimentos frenéticos e ininterruptos, psicografava com rapidez paranormal as folhas de rascunho e papel almaço que havia recebido. Não demorou muito para solicitar mais um jogo de folhas e tal gesto fez com que batesse o desespero na força-tarefa. Não é que o muquirana estava escondendo o jogo, cinicamente na moita fingindo-se de morto e coisa e tal, só para o comer o bolo sozinho e não dividir com a moçada!
Em vão foram os esforços para fazer com que Oscar rolasse a bola para a tigrada; cutucões, bolinhas de papel, até mesmo tentativas de surrupiar-lhe as folhas de prova... Nada adiantou. Parece que as largas e generosas quantidades de álcool ministradas pelo Boi Manso e Maluf tinham entorpecido o amigo “Turco”, mantendo-o isolado em hermética câmara isobárica. Terminada a prova, a galera queria no mínimo matar o “traíra”; sua expulsão da república, acompanhada de justo corretivo, chegou a ser cogitada pelos mais exaltados e tal assunto rendeu até a saída das notas.
Galera reunida em volta do fatídico listão, Kadinho pela sua voz possante e sua natural liderança, encarregou-se de “cantar” as notas:
- Véio: 3,7...
- Né: 3,4...
- Francês: 2,6...
- Kadinho: 2,4...
- Beto Boquinha: 1,75...
- Zé Cachaça: 1,25...
- Oscar:...
Tchan, tchan, tchan...
- Oscar: 0,8...!
Nada a declarar...
Mario Barão
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