terça-feira, 21 de abril de 2009

BACURAU COME MILHO, PAPAGAIO LEVA A FAMA

Entre quatro e seis da tarde, quem quisesse encontrá-lo teria que obrigatoriamente dar uma passada no “Beira-Bosta”, aprazível recanto localizado no bucólico vale da “Vila Bostim”, nos fundos das repúblicas Pulgatório, Nau sem Rumo, Aquarius e Ninho do Amor, onde estudantes, com exacerbado fervor , dedicavam-se de segunda a sexta-feira à prática do “violento esporte bretão”.

Figura de destaque nas concorridas peladas disputadas no “Beira”, onde sem nenhum constrangimento apresentava aos menos avisados o seu farto repertório de bicos para o alto, botinadas e lançamentos equivocados, Bacurau agitava a sua ainda vasta cabeleira leonina. Camiseta furta-cor apertadinha, evidenciando a proeminente barriguinha, short marca “ABIBAS” tamanho PP, sapatos USTop sem meias, “Bacalha” maltratava sem dó e nem piedade a “gorduchinha”.

Enquanto nosso singular “atleta”, pela buraqueira daquela praça de desportos “sui generis”, desfilava com garbo e desembaraço toda a sua falta de categoria, da janela de seu quarto na república Nau Sem Rumo, Papagaio, balançando desconsoladamente a cabeça, fazia suas observações ao colega Luiz, da vizinha Pulgatório:
- Tá vendo o Bacurau? Não perde uma pelada no Beira; o prazo pra entregar o trabalho do Jonas tá acabando e ele nada. Quer apostar que, quando estiver faltando um dia pra aprontar o trabalho, ele irá bater aqui em casa, na maior cara dura, para pedir emprestado o meu trabalho e copiar???

Ainda bem que o Lulinha não apostou, pois não deu outra. Na véspera da entrega do tal trabalho, que valia como última prova do bimestre da cadeira ministrada pelo Prof. Jonas, Bacalha, depois de mais uma gloriosa tarde de sarrafos e gols perdidos no Beira-Bosta, banhozinho tomado e ”Remopão” no estômago, pontualmente compareceu à Nau Sem Rumo à procura do “trabalhinho” do Papagaio, o qual, como não havia outro jeito, não se negou ao empréstimo, impondo apenas a condição de que fosse devolvido no dia seguinte sem rasuras e em horário combinado .

Esfregando as mãos, Bacurau partiu para executar a espinhosa missão de, no exíguo espaço de uma noite, transferir para o papel os manuscritos, que haviam custado ao prestimoso colega “Pirata” cerca de um mês de pesquisas, troca de idéias, idas e vindas à biblioteca da Escolinha, horas de sono, etc...etc...etc... Munido de duas garrafas térmicas de café bem preto e com pouco açúcar, saquinhos de biscoito de maizena, três maços de Hollywood e muita disposição, trancou-se do seu quarto para executar a hercúlea tarefa.

Varou noite e parte da madrugada transcrevendo o trabalho impecável elaborado pelo colega Papagaio, rico em figuras, gráficos e citações. Sua “Bic Escrita Fina” deslizou com fúria e rapidez pelas folhas duplas de papel almaço e como o tempo era curto e não tinha com ele a mesma boa vontade do vizinho de república, Bacalha sentiu-se forçado a utilizar um recurso do qual possuía reconhecida habilidade: o poder da síntese. Assim, com olheiras fundas, um bafo medonho de cigarro misturado com café, mas feliz pelo dever cumprido, na hora marcada Bacalha entregava o trabalho ao amigo Papagaio.

Agora era só esperar com paciência a avaliação do professor. Será que daria para tirar os 7,5 que ele precisava para “arrancar a cadeira”? O Papagaio na certa não teria dificuldades para conseguir os 6,5 de que necessitava. Divagando sobre as suas possibilidades, Bacurau aguardou sem muita ansiedade o resultado daquela prova-trabalho.

No dia marcado para a saída das notas, Bacurau e Papagaio foram juntos até a Escolinha; a tranqüilidade do “atleta” contrastava com a apreensão do “CDF”. O concorrido listão estava afixado logo na entrada do pátio interno; havia certa aglomeração de estudantes ao seu redor e pelas suas reações dava para adivinhar o desempenho de cada um. Bacalha foi o primeiro a encontrar a sua nota e de maneira esfuziante comemorou o resultado: com 7,5 cravados, havia passado raspando!!! Papagaio, por sua vez, quando se deparou com a sua nota, precisou ser amparado para não cair fulminado. Aquilo não era possível; havia alguma coisa errada; porque 5,0? O Prof. Jonas com certeza cometera um monumental equívoco! Ainda atordoado, Papagaio partiu em direção a saleta do professor em busca de respostas coerentes, que explicassem aquela verdadeira catástrofe.

Diante do mestre, o atarantado discípulo despejou de uma tacada só toda a sua incredulidade. Prof. Jonas ouviu calmamente a dissertação do aluno; impassível, não moveu um fiapo de sua sobrancelha; pétreo, aguardou que Papagaio colocasse um fim nas suas argumentações.

Quando o silêncio se fez na pequena sala, ele pigarreou, olhou bem no fundo dos olhos do aluno e, ainda com aquela infinidade de “porquês” retumbando dentro da sua mente, respondeu de maneira curta, grossa e inapelável:
- Prezado aluno, sua nota foi 5,0 porque você COPIOU!!!

Cai o pano...

Mario Barão

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