Em 1980 a Pulgatório ganhou uma figuraça que iria alegrar a casa pelos próximos anos. Gengis Khan, apelido recebido logo no primeiro dia na república, quando seu cabelo ganhou um corte artístico que lhe deixou apenas com um rabicho como testemunha da cabeleira loira com que chegara, era um perfeito exemplar da complexidade da alma humana, um caso típico de beleza interior.
Esquálido, branquelo, de olhos repuxados, narigudo e míope, lhe sobravam apenas os cabelos loiros e lisos como motivo de orgulho estético. Lembrando uma versão japonesa do John Lennon, com seus indefectíveis óculos dourados de aro redondo, aquele capixaba era considerado como pertencente à ala dos feios da casa, em oposição aos paulistinhas arrumadinhos que se autoproclamavam os bonitos.
Entretanto, nunca houve concorrente para o Gengis naquilo que mais importa numa república que preze sua reputação: a conquista das mulheres. Se o cara já era uma unanimidade entre os colegas da Pulga e da Escola, com sua simpatia e bom humor contagiantes, entre a mulherada seu prestígio era inigualável. Um fenômeno na arte da sedução. Não havia menina da cidade que não se rendesse aos seus encantos e, invariavelmente, era a moça mais bonita que ele conquistava quando uma excursão de turistas se hospedava conosco. Não se passavam muitas horas até que todas se derretessem pelo Gengis e ele reinasse absoluto entre batucadas na sala, rodas de papo na cozinha e um forrozinho na boate. Até a maneira como pronunciavam “Gengis” era melosa, dengosa, deixando claro a atração que ele exercia sobre elas. Na manhã seguinte o cara aparecia na sala todo amassado, risonho, despenteado, com um roupão surrado, uma escova de dentes na boca e uma gata maravilhosa pendurada no seu pescoço, mais risonha do que ele.
Uma de suas infalíveis estratégias de conquista eram as histórias fantasiosas. Na nossa visão, sempre muito longas e arrastadas. Mas por algum mistério inalcançável, elas adoravam! Nas noites frias de inverno, à frente da lareira, sua favorita era a do “Chapilu Sete Correntes”, um fantasma que circulava pelos diversos andares da casa pelas madrugadas arrastando as correntes em que estivera preso nos seus tempos de escravo. Um porre! A eficácia, porém, era de 100%. Lá pelo meio do caso as meninas já estavam dando gritinhos de medo enquanto ele lhes oferecia um abraço consolador. Abraços acompanhados de beijinhos pelo rosto e amassos progressivamente mais ousados. Uma verdadeira arapuca para as desprotegidas pombinhas...
Com o tempo o codinome Chapilu foi incorporado a sua lista de apelidos secundários, coisa que todo pulgatoriano sempre teve.
Dependendo da ocasião, ainda o chamávamos de Téo (de teórico), ou simplesmente Xapi. Gengis Khan sempre foi sinônimo de alegria, tranquilidade e amizade, mas aliada à admiração que tínhamos por ele havia, inegavelmente, uma ponta de inveja pelo misterioso sucesso amoroso de nosso amigo. Em que rio de mel este capixaba tinha sido batizado?
Caruncho
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