terça-feira, 21 de abril de 2009

MÁRIO BARÃO

“Bola com Adílio no meio de campo. Adílio para Andrade que dribla um, dribla dois e passa para o galinho. Zico mata no peito, domina, cai pela esquerda e cruza para a área. Nunes recebe, bate de primeira e É Gooooollllll! Gol do Mengão!”

Quem descia a escada já ouvia a voz dele um andar acima, desde a porta da boate. Estando em casa, sua diversão preferida era o jogo de botões, cuja mesa ficava quase permanentemente montada em seu quarto. De vez em quando aparecia um parceiro para jogar com o time do Vasco, já que os melhores botões de galalite, com o time do Flamengo, eram exclusivos dele. Mas isto era dispensável. Na maioria das vezes ele jogava sozinho mesmo, dando um jeito para que seu time do coração ganhasse todas.

Mário Barão ganhou este apelido logo que chegou à Pulgatório, pelo jeito tranquilo e fala mansa. Para quem não sabe, em Ouro Preto se chamava de barão aos adeptos da vida alternativa, do rock e das roupas coloridas. Além daquele ar de quem anda meio desligado... Um jeito Jimmy Hendrix ou Janis Joplin de ser! O exato oposto do estereótipo do estudante de engenharia: camisa para dentro da calça, forró e cachaça. Estes eram os tigres.

O Barão, mesmo sendo um barão, não estava nem aí para os rótulos e transitava por todas as turmas sem dificuldade. Com a tigrada, exercia seus profundos conhecimentos de futebol e dominava as rodas de piadas e casos sacanas. Era o mais chato dos flamenguistas, numa casa profícua destas figurinhas. No meio da barãozada, ficava mais à vontade ainda. Para aquele pessoal que nunca havia sido apresentado a uma bola, ele reservava seus dotes de cantor, sua serenidade e uma incrível animação para participar de projetos culturais. Animação que a Escola de Minas não conhecia, até porque o cara não passava muito por lá.

Fora o futebol de botão e o Flamengo, sua vida era a música. Cantor habilidoso, ele era a voz do Beco do Carmo, o conjunto musical que tinha, além dele, os também pulgatorianos Lula Lelé e Beto Boquinha, e os impagáveis Cabo Rosa, Fernando Guimbá e Peixinho. O grupo era completado pelos colegas da Baviera: Alex Barão, Marcelo Zuléia e Edson Albanez e pela única componente feminina: Mary Help. Com tanta gente, eles eram mais uma trupe do que um conjunto, mas o negócio funcionava e apesar de ninguém ter ganhado dinheiro com isto, Ouro Preto viu grandes shows de MPB. Principalmente quando a turma brasiliense do Clube do Balão vinha se hospedar na Pulga e se juntava a eles, com Lincoln Andrade na flauta transversal e Jorge Macarrão na bateria. Aí era show para dar inveja em muito profissional por aí.

Eram muitas atividades, mas ainda sobrava tempo para o Barão assistir, diariamente, aos filmes da madrugada. Ele só descia para seu quarto quando a programação terminava, já que naquele tempo não existia TV por assinatura e os canais saíam do ar por volta da 03:00 h da manhã. Como ninguém é de ferro, dormia até o meio dia, quando voltava à sala animadíssimo. Doido para relatar as cenas mais empolgantes do “corujão” da noite anterior. Depois um bom banho, almoço, jornal e um demorado papo na cozinha, a tarde terminava. E com ela o horário das aulas. Era mais que justificado que ele mal soubesse as disciplinas em que estava matriculado. O dia era muito curto para tanta coisa!

Mário Barão morou conosco por vários anos, até o dia em que, já casado, assumiu que tinha pouco a ver com geologia e foi tocar sua vida no Rio de Janeiro, ele que era carioca de Barbacena.

Caruncho

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