Houve uma época, logo que a Pulgatório foi inaugurada, em que não tínhamos como vizinho o Dr. Lincoln. Na casa em que ele passou a viver e a diminuir as liberdades dos pulgas, morava o Dr. Rômulo. Este, entre outras citações não menos valiosas, tinha em seu currículo o fato de já ter sido diretor da Escola de Minas e também o responsável pelo projeto de iluminação do Maracanã. Naquela época não havia ainda a UFOP. A Escola de Minas – este era o antigo nome da Faculdade de Engenharia – e a Escola de Farmácia eram autarquias autônomas, sem ligação com qualquer universidade. Os diretores dessas escolas subordinavam-se diretamente ao ministro da Educação e Cultura, isto é, falavam quase com Deus.
Dr. Rômulo, já bastante idoso naqueles tempos, pouco saía de sua casa e, quando o fazia era acompanhado de sua esposa, uma senhora tão idosa e simpática quanto ele. Apenas nessas ocasiões é que percebíamos que eles existiam. Nunca tivemos dele qualquer reclamação, qualquer queixa. Era como se a Pulga não causasse qualquer incômodo à vizinhança. Um dia, sem que soubéssemos o porquê, Dr. Rômulo se foi e pouco depois começou o azedamento das relações com a chegada do Dr. Lincoln. Nem o fato de um pulgatoriano menos comedido ter namorado a filha dele serviu de pretexto para o apaziguamento dos ânimos.
Bem defronte à república morava a Carminha. Esta, uma solteirona inconformada, via seu tempo passar e aos poucos ia percebendo que sua vida sexual ficaria resumida às novelas que assistia. Nutria pela Pulgatório e pelos seus “meninos” uma paixão incontrolada, era difícil sabermos qual seria a vítima da vez. Ora era um convite para jantar, ora para jogar baralho, ora para trocar uma lâmpada – tudo era pretexto para ter um pulgatoriano ao alcance da mão. Primeiro foi o Zé Otaviano, que logo se acertou com a Mônica e deixou a Carminha inconsolada. Depois foi o Faustim, que até hoje não entendeu muito bem o que ela queria. Em seguida veio o Abel, que durante um bom tempo precisou se esconder para evitar um assédio mais voraz. Depois, foram tantos que nem sabemos mais em que ordem se sucederam.
Ao lado da casa da Carminha ficava a Foto Gustavo, que era tocada por um senhor com um vasto bigode, quase a Salvador Dali, e a simpática Mimi. Como a maioria das casas ouropretanas, a deles era um sobrado, no qual instalaram na parte de baixo o estúdio fotográfico e passaram a morar no andar superior. A parte inferior abria-se para a rua através de três portas estilo barroco, com acabamento em semicírculo. Entre uma porta e outra havia uma coluna de madeira-de-lei, provavelmente peroba, que servia de sustentação para a estrutura da casa acima dela.
Não havia muito movimento no estúdio da Mimi, mas mesmo assim, alguns anos depois, eles resolveram comprar um carro, um fusca do começo dos anos setenta. O fusca vermelho era calçado com pneus faixa branca, um luxo para aqueles tempos. Mas onde colocar o carro? Embora não houvesse muito movimento na rua do Paraná, aos poucos isto foi sendo mudado e deixar o carrinho ao relento não combinava com a maneira zelosa que Mimi o tratava. Decidiram então transformar parte do estúdio em garagem. Mas como fazê-lo se entre as colunas de sustentação da casa o espaçamento era pouco mais de um metro? Engenhosamente, transformaram uma das colunas de sustentação em coluna móvel: era retirada por ocasião de entrada ou saída do carro da garagem e recolocada logo em seguida. O segredo do desafio à lei da gravidade residia no fato de que essa retirada de apoio era apenas momentânea e realizada quando não havia movimentação que pudesse causar vibrações.
Poucas vezes vimos o carro da Mimi fora de sua garagem. Em um Doze, no final dos anos oitenta, conversava com a Mimi e o Risadinha, quando este passou a elogiar o fusquinha que ali estava. Os olhinhos miúdos da Mimi faiscavam a cada elogio do Risadinha e este ampliava a sua eloquência à medida em que percebia que ela se desmanchava. Batia suavemente na lataria, de mais de quinze anos e dizia:
- Original de fábrica!
E a boa senhora concordava. Apontava para os pneus, com mais de cem mil quilômetros rodados e repetia:
- Original de fábrica!
E ela concordava. Até que alguém os trouxe de volta à realidade ao perguntar se também a gasolina era original de fábrica.
Caiafa
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