terça-feira, 21 de abril de 2009

HOMENS DE PRETO

Paulista é uma praga. E por alguma obscura razão, eles prosperavam em Ouro Preto nas últimas décadas do século XX. Nos anos 1980 estavam por todo lugar na cidade, facilmente identificados pelo visual “mauricinho”: sapato bico fino, camisa pólo para dentro da calça, pulseira e gargantilha de ouro e muito perfume. Uma viadagem só! Na república, a turma avessa a estas frescuras apelidou a ala dos enbonecados de “Os bonitinhos da Pulgatório”. É ocioso dizer que eles não se incomodaram com o rótulo, muito pelo contrário. Para quem se achava na crista da moda e foco de atenção das meninas, era uma satisfação constatar que mesmo a plebe rude reconhecia sua beleza.

Com esta vocação para o exibicionismo, todos eles apreciavam o traje obrigatório para os bailes do “Doze”: Passeio Completo; o que em linguagem coloquial quer dizer terno. Todos tinham sua “pièce de résistance” no armário: um terno escuro, uma gravata e um par de sapatos pretos. “Doze” é bom, mas tem um problema: só acontece uma vez por ano e dura pouquíssimos dias. Rapazes que se julgavam tão elegantes não podiam se conformar com tão escassa oportunidade para vestir seus trajes formais. E aí o Trubufu se tornou líder do movimento paulista em prol dos bem vestidos. Apesar de não poder ser classificado exatamente como mauricinho, o sujeito nascera paulista e desta sina não tinha como se livrar. Juntou a vontade de aparecer com sua inigualável cara-de-pau e teve uma proveitosa idéia. Arrebanhou outros pulgatorianos de mesma origem e fundou o bando de bicões mais elegante de Ouro Preto.

Em qualquer evento social que acontecesse na cidade, lá estava o grupo. Casamentos, batizados, festas de debutantes, aniversários na alta sociedade, coquetéis na prefeitura, na câmara dos vereadores ou na reitoria, vernissages e onde mais existisse uma boca-livre, a presença dos engomados era certa. Com a indumentária impecável, perfume francês e os cabelos lambrecados de gel, causavam impressão nos incautos porteiros e seguranças. Quando a preparação alcoólica passava dos limites, incluíam óculos escuros no visual e seguiam em frente. Com a cara-de-pau e a coragem. O ritual de penetração era sempre o mesmo: Trubufu à frente, passavam as mãos pelo paletó abotoado, enfiavam um mão no bolso, levantavam a cabeça fixando algum ponto acima do nível dos olhos do leão de chácara e, circunspectos, pronunciavam, um a um, a expressão infalível: “Boa noite! Com licença.”. E a festa era abrilhantada pelas presenças de Trubufu, Delano, Arado e Costinha. Eventualmente acompanhados por Boca e Pangaré.

Nunca foram barrados e como eram rapazes de boa educação, geralmente conquistavam a simpatia de anfitriões e convidados. Houve dia do Trubufu substituir o pai da moça na valsa com a debutante e ainda tirar a mãe para uma contra-dança, mas a maior das façanhas foi um coquetel na prefeitura. Em momento de grande inspiração etílica, na presença do prefeito, vários vereadores, autoridades judiciárias e eclesiásticas e do boa parte do jet-set ouropretano, Arado se apresentou como um jovem empresário interessado em se estabelecer na cidade. Herdeiro de fazendas de gado na Amazônia, mas avesso à vida rural, viajava em companhia dos demais diretores de seu grupo empresarial à procura de oportunidades para diversificar os negócios. Encantaram os comensais e terminaram a noite com promessas do prefeito de doação de terreno e isenções fiscais para se instalarem no município. Um sucesso coroado pelo prazer de relatar o caso no dia seguinte, na cozinha da Pulga.

Caruncho

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