Naquele ano da década de 80, aconteceria, em Belo Horizonte, um congresso de nossa categoria profissional – congresso brasileiro de seguros. O evento teria início em uma segunda-feira, 14 de outubro, e se estenderia até a quarta-feira 16 de outubro. Juntamente com outro diretor da empresa, fomos incumbidos de representá-la naquele encontro. Sem muita dificuldade, convenci meu amigo a viajarmos após o almoço da sexta-feira, 11 de outubro, aproveitaríamos e daríamos uma chegadinha a Ouro Preto para que conhecesse a Festa do Doze. Cheio de desejos e fantasias, porém muito preocupado com suas relações familiares, pediu-me encarecidamente que nada dissesse à sua esposa, a quem justificaria dizendo que o congresso teria início na manhã de sábado.
Viajamos na sexta-feira para Confins, onde o gerente da filial da empresa em BH deixou um carro à nossa disposição. Fomos para Ouro Preto e nos instalamos na Pulgatório. O ato de chegada já foi impactante: muita cerveja, muita festa, muita mulher e muita ferveção. Preocupado com as repercussões, voltou a lembrar-me da necessidade de manter o mais absoluto sigilo em relação à sua esposa. Repetiu este refrão mais umas duas vezes e caiu na gandaia. Esqueceu-se até mesmo de que era casado – pelo menos foi o que disse para as meninas com as quais conversou.
Foi um dos Doze em que a república mais lotou. Estimamos que tivessem ficado bem mais de cem pessoas alojadas na casa, se é que se pode usar este termo. Talvez umas cento e cinqüenta. Sem que fosse programado, acabamos dividindo o nosso quarto ora com uma ora com outra garota – apenas para dormir, em regime de revezamento. Domingo à noite voltamos a BH e na segunda-feira já estávamos no congresso. Novamente voltaram as recomendações de sigilo sobre tudo que acontecera. Terminado o evento retornamos a São Paulo, não sem antes ouvirmos novamente as preocupações do nosso amigo.
No começo, nada disse à sua esposa, mas passados alguns dias, por fraqueza ou temor de alguma escorregadela, resolveu confessar o crime. Mas o fez à sua maneira. Contou que, aproveitando uma folga na programação do congresso fora comigo a Ouro Preto para conhecer a república da qual eu tanto falava. A descrição que fez da casa quase a transformou em um monastério, um ambiente de total clausura em que a diversão maior era estudar. Os moradores, quase ermitãos, zelosos de suas responsabilidades, quando queriam extrapolar, tomavam café sem açúcar. Música, apenas as clássicas, mas bem baixinho. Mulher... bem, todo mundo sabe que em república masculina a presença feminina é proibida. E, naquele sábado, após livrar sua consciência do peso da Pulgatório, foi dormir o sono dos inocentes.
Ainda existe em São Paulo um jornalzinho semanal chamado Shopping News. É um amontoado de propagandas que gravitam em torno de algum tema mais interessante, que normalmente acaba sendo a chamada de capa. Por isto, é distribuído gratuitamente, aos domingos, em muitas regiões da cidade. Domingo pela manhã, quase de madrugada e ainda vestindo pijamas, foi até a frente de sua casa para recolher as publicações entregues durante a noite – revista Veja, jornal Estadão e o Shopping News. Bateu os olhos no jornaleco e quase teve um enfarte. Na capa, ocupando um quarto de página, a foto da república tendo por legenda algo do tipo “REPÚBLICA PULGATÓRIO: ONDE EXISTE A MELHOR BOITE DA CIDADE”.
Era uma reportagem sobre a vida noturna da cidade de Ouro Preto e colocaram a Pulga como o símbolo que melhor traduzia o assunto. Era a matéria principal da edição. Voltou para o quarto, vestiu-se o mais rápido possível deu alguma desculpa do tipo “vou até a padaria” e saiu pelas ruas recolhendo todos os exemplares que encontrou pelo caminho.
Caiafa
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