terça-feira, 21 de abril de 2009

VACA ATOLADA NA PIMENTA

Em muitas coisas esta digna Magnânima República Parlamentarista do Pulgatório parece-se com aquela outra República Bananeira do Brasil. O idioma é meio parecido, mas embora na Pulgatório o português seja considerado a língua oficial, poucos sabem utilizá-lo adequadamente, porém todos se entendem. Já no Brasil, onde o português também é a língua oficial, poucos são os que se entendem. Esses nossos vizinhos, os brasileiros, fazem parte de um povo meio esquisito. São cooperativos quando têm que ser competitivos e são competitivos quando deveriam ser cooperativos. Estes povos, quase irmãos, têm alguns pontos em comum: ambos gostam de futebol. E grandes divergências: Roberta Close, famoso travesti, musa são-paulina, já foi considerada a mulher mais bela do Brasil. Enquanto isto na Pulgatório, mulher feia é homem. Na Pulgatório, presidente é um cargo pelo qual se batalha para não se ter que exercê-lo, no Brasil paga-se para não sair dele. Mas têm pontos em comum: ambos gostam de cachaça.

A Pulgatório teve uma única Constituição escrita e que funciona porque incorporou seu espírito à sua cultura ou porque a sua cultura passou ter valor de lei. O Brasil já teve várias constituições, leis complementares, decretos-lei, medidas provisórias, atos institucionais, portarias e um infinito emaranhado de regras que não funcionam porque não se conseguiu incutir o espírito das leis à cultura do seu povo, ou não se soube traduzir em leis os costumes do povo. Certa feita cogitamos até em declarar a nossa independência, separando-nos de vez daquela republiqueta corrupta. Desistimos, seria algo muito convencional para quem desejava ser revolucionário.

Se no Brasil tudo acaba em pizza, na melhor pizzaria do Planalto Central, na Pulgatório a coisa termina em cerveja no coração da casa, isto é, na cozinha. E nos dias mais frios, acompanhada de muita cachaça e uma suculenta vaca atolada. A vaca atolada é um daqueles pratos sociais, isto é, prato que atende a duas razões básicas: cria a expectativa da fome fisiológica enquanto sacia a fome do convívio social. Cria a expectativa da fome porque uma vaca atolada para ser bem feita não pode demorar menos de cinco horas de fogão, isto sem contar os preparativos preliminares. No total demanda de seis a oito horas. Neste período é que exerce a sua função social: todos à sua espera põem a costura em dia, às custas de maciças doses de cerveja e cachaça. Quando fica pronta é que se percebe que todo aquele panelão de creme foi insuficiente para a fome que se criou e a cozinha pequena para a multidão de contadores de causos de estômagos vazios.

Em uma dessas oportunidades, João do Pandeiro, sambista ouropretano, mestre do pandeiro e grande conhecedor das músicas que nós não sabemos, encarregou-se de preparar este prato dos deuses. Começou por volta das quatorze horas, caprichando ao máximo. Iniciou o soberbo acepipe com umas costelinhas de porco fritas – só para aguçar a ansiedade dos amigos, ao dar a largada nas preliminares. Serviu torresminho, no melhor estilo mineiro, enquanto a mandioca se desmanchava na panela em fervura lenta. Tirou o fio da mandioca entre largas talagadas de uma pinga de alambique. Pôs a costela para cozinhar, em fogo lento, para não perder o sabor da carne fresca. Preparou o alho e a cebola, colocando-os para cozinhar até virarem uma massa disforme enquanto servia uma fina linguicinha de porco frita. Ficou com fome? Imagine nós ali...

Por volta de oito horas da noite, o aroma da vaca atolada sendo emersa no creme de mandioca penetrava nos mais exclusivos ambientes da república e alucinava a toda uma comunidade. Os estômagos preparavam-se para serem recompensados pela espera. Penúltimo ato: prova final. Uma pequena mostra para ver se já estava no ponto certo. Estava! Mas saindo do meio da platéia ansiosa, Marino teve uma idéia genial:
- Vamos dar mais um grau!

E virou toda a garrafa de pimenta na panela. Ninguém conseguiu comer. Nem ele. E o João nunca mais voltou a preparar a vaca atolada na Pulgatório.

Caiafa

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