terça-feira, 21 de abril de 2009

MOON OVER PARADOR

Até hoje não ficou suficientemente claro se o sucesso do filme “Luar sobre Parador” se deveu à participação da Sônia Braga ou à do Raposão. O filme, parcialmente ambientado em Ouro Preto, foi um sucesso no mundo todo, tendo sido premiado com dois Globos de Ouro. Durante as filmagens em Ouro Preto, vários pulgatorianos participaram como figurantes, recebendo elevados cachês pelo seu trabalho. Como o enredo transcorria em uma época anterior ao ano de sua filmagem e em um lugarejo menos desenvolvido, foram necessárias diversas intervenções urbanas, para garantir um ambiente propício às filmagens. Uma dessas intervenções foi o cerceamento do trânsito que não correspondia ao contexto do filme. Diversas placas de proibição ao tráfego foram distribuídas em pontos estratégicos da cidade para garantir que os locais de filmagem ficariam devidamente livres da presença de veículos que poderiam descaracterizá-los. Finda as filmagens, uma dessas placas foi parar na boate da Pulgatório, guardada como souvenir...

No carnaval do ano seguinte, a república estava razoavelmente servida de meninas e exalas. Fazia muito calor e, inexplicavelmente, não chovia. Passava pouco do meio-dia, com o pessoal voltando a vida e sem ter ainda o que fazer, resolvemos atribuir notas às garotas que passavam em frente à casa. Munidos de tabuletas com notas de cinco a dez, sentados nas duas calçadas, expressávamos a nossa opinião em relação àquelas que passavam entre nós. Algumas, mais bem aquinhoadas pela natureza, foram mais bem avaliadas do que outras e, muitas dessas, fizeram questão de passar mais de uma vez perante a Comissão Julgadora para mais alguns segundos de fama a mais, ou mesmo para uma segunda opinião.

Mas havia um problema muito sério que prejudicava o nosso salutar empenho em tentar melhorar o mundo: o trânsito. Os carros passando pela rua Paraná interrompiam a todo momento o nosso processo de avaliar pernas, bundas, peitinhos e até mesmo alguns rostinhos. Para colocarmos um basta nessa intromissão indevida, resolvemos usar a placa do filme para resolver o problema, colocando-a na confluência das ruas Paraná, Pilar, Xavier da Veiga e aquela outra, uma subida bastante íngreme que leva à igreja do Carmo. Quem vinha por qualquer uma das outras ruas, sem saber da origem da placa de trânsito impedido, não entrava na rua Paraná, tendo que voltar ou fazer um caminho alternativo.

A partir daí a rua do Paraná virou uma verdadeira passarela, com pulgatorianos sentados no meio da rua, cada vez mais próximos aos objetos de sua apreciação, e meninas subindo e descendo, esperando pelos aplausos dos jurados e as tabuletas de avaliação.

Mas as meninas que estavam na república revoltaram-se com o procedimento dos meninos e resolveram elas também participar da brincadeira. Munidas de tabuletas com notas de zero a cinco passaram a avaliar os meninos sentados no meio da rua. Bom, carnaval é carnaval, então tome dez para lá e tome dois para cá, até que se percebeu que Ouro Preto estava totalmente congestionada, nenhum veículo dentro do centro histórico conseguia ir nem para frente e nem para trás. A polícia começou a rastrear a origem do problema até chegar à nossa placa, que foi removida sem dó e nem piedade. Perdemos a nossa lembrancinha das filmagens e, pior do que isto, tivemos a nossa passarela descaracterizada pelo trânsito que havia sido banido do filme, que não tinha as raízes de uma Pulgatório tão ouropretana.

Anos depois, provavelmente aproveitando a experiência proporcionada pela Pulgatório, a prefeitura de Ouro Preto passou a colocar uma placa de trânsito impedido no mesmo lugar em que havíamos colocado a nossa. Sem pagar royalties pela patente intelectual.

Mas a nossa experiência com placas de trânsito não terminou aí. Alguns Dozes depois, estávamos todos na frente da república quando parou um ônibus da Polícia Militar e desceu uma tropa de uns vinte policiais que tomou conta da rua. Já foram chegando e gritando regras. O Trubufu, por exemplo, teve a sorte de poder ficar escorando a parede da República para que ela não caísse. Após rigorosa inspeção na casa, o máximo que encontraram foi uma placa de Trânsito Impedido, debaixo da cama do Sidane. O bicho não sabia o que dizer, uma vez que a tal placa já estava ali desde que ele se entendia por gente – e bicho nunca é gente - mas teve que ir até lá embaixo explicar o que aquela placa fazia sob a sua cama. Terminada a vistoria da Pulga, onde o objeto mais comprometedor encontrado foi um canivete, o capitão-comandante do destacamento pediu ao Cocada e ao Tocha para acompanhá-los até a Nau. Iam na condição de testemunhas, caso houvesse a apreensão de algo suspeito. Tocha até babou quando lhe foi dito que a sua palavra poderia salvar ou incriminar a Nau. Outros ficaram com inveja de tanto poder em mãos tão suspeitas.

Caiafa

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