terça-feira, 21 de abril de 2009

O PECADO DA GULA

Sancho Pança, enquanto foi estudante, fazia jus ao apelido mantendo seu pneuzinho de caminhão permanentemente calibrado, para alegria de seu eterno companheiro de quarto, Graúna, que não passava um dia sem provocá-lo por conta daquele visual “rolha de poço”. Naquele tempo, quando ainda nem sonhava em se tornar o garanhão das noites belorizontinas, ele fazia parte de um seleto grupo de pulgatorianos que tinham levado seus sistemas imunológicos a um alto grau de eficiência: os caras não pegavam nada, nem gripe! Para compensar o vazio do coração, Sussu recorria ao consolo do estômago e comia desbragadamente tudo que lhe passava pela frente, a qualquer hora do dia.

Rapaz de paladar delicado, ainda acostumado aos cafunés e aos quitutes da mamãe que morava ali do lado, em BH, ele não se adaptava ao menu franciscano do REMOP. Comia pouco nas refeições regulares, o que só aumentava seu apetite cavalar. Era preciso, então, gastar a mesada nos restaurantes e lanchonetes da rua São José e, quando o dinheiro acabava, apelar para um assalto ao armário do Trubufu, sempre fornido com guloseimas de deixar qualquer gordinho alucinado.

Sua compulsão alimentar o levava a sérias crises de abstinência nas madrugadas de boemia. Depois de encher a cara no CAEM, se via na praça Tiradentes com a barriga roncando, o bolso vazio e os botecos já todos fechados. Sua estratégia de maior sucesso para saciar o apetite era bater à porta de seu bar preferido clamando por caridade, até vencer o dono pelo cansaço. Aberta a porta, ele suplicava por um desconto de 95% nos salgados encalhados na prateleira ou pela doação de um osso de pernil descarnado, ingrediente precioso para uma sopa de macarrão.

Numa noite de menos sorte em que não houve artimanha capaz de desencavar um “barranco”, Sancho desceu a ladeira e chegou em casa transtornado de fome. Revirou seu armário e nada encontrou, subiu ao quarto do Trubufu e deu de cara com um cadeado na porta do armário dele. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e se deparou com um solitário pote de margarina, perdido na imensidão vazia das prateleiras enferrujadas. Já à beira do desespero, escarafunchou cada canto do armário da copa e, como um arqueólogo que descobrisse o Santo Graal, chorou de emoção ao encontrar um pãozinho murcho esquecido no fundo do cesto de vime. A noite estava salva! Um pão, margarina e um fogão. Tudo que ele precisava para elaborar sua maior especialidade culinária: pão frito. Cortou-o ao meio, lambrecou as duas metades de margarina, por dentro e por fora, e passou a prensá-las na frigideira quente com uma espátula. Já estava tendo orgasmos estomacais só com o cheiro gostoso de pão na chapa, antevendo o prazer de comê-lo. Foi quando o Firmino chegou. Tão faminto quanto o Sancho.

Ao final de mais uma noite de pouca cachaça e nenhuma mulher no mesmo CAEM, entrou em casa acompanhado do Malinha, que foi direto para a cama. Firmino já ia tomando o rumo de seu quarto quando sentiu o aroma irresistível que vinha da cozinha. Ainda na sala, viu o Sussu entretido no preparo do pão e soube que não dormiria sem forrar a barriga. Sacana profissional, foi caminhando sem pressa até a cozinha com um sorriso debochado na cara, satisfeito com a sorte de encontrar àquela hora da madrugada a sua vítima preferida: bêbado, indefeso e preparando um pão na chapa!
- Oi, Sancho. O que você está fazendo aí?
- Fritando um pão velho para matar a fome. Mas não vem que não tem! O pão não dá para dois!
- Ih! Fica tranquilo, fofinho! Minha barriga está estourando. Eu e o Mala estávamos na pizzaria da rua Direita e devoramos uma pizza gigante. Ela era tão grande que sobraram três fatias. O Malinha, guloso, subiu para o quarto para abrir sozinho o embrulho com o resto dela...

Os olhos do Sancho brilharam. Uma pizza! A esta hora da madrugada! E o Mala não tinha direito de comer todo o resto sozinho. Ele já devia estar mais do que satisfeito, pelo que Firmino tinha dito! Sussu abandonou a frigideira no fogão aceso e subiu correndo até o quarto do amigo. Com a pressa, quase colocou a porta abaixo e ainda precisou de alguns segundos para recuperar a respiração antes de acender a luz e abrir a boca, deixando o Mala assustado com aquela entrada intempestiva:
- Mala! Cadê a pizza? Me dá um pedaço aí que eu estou morrendo de fome!
- Que pizza, Sussu? Tá maluco? Sai fora que eu quero dormir.

Deitado, Mala puxou as cobertas sobre a cabeça, mandou o Sancho à merda e virou para o lado. Só aí o ingênuo cachaceiro percebeu a armadilha em que caíra e desceu as escadas de volta o mais rápido que pôde, babando de vontade de esganar o Firmino. Encontrou o sacana tranquilamente instalado no sofá da sala, assistindo televisão e lambendo as pontas dos dedos.
- Cadê meu pão, seu filho-da-puta?
- Você é bicho até hoje, hein Sussu? Seu pão já era! Agora vá dormir e sonhe com uma pizza bem recheada. Amanhã de manhã você toma um café com leite!

O gordinho pulou para cima dele mas Firmino, magrelo, não teve dificuldade em driblá-lo e sair correndo. Sumiu porta afora e foi dar uma volta na rua até que a ira do Sancho passasse. Cumprindo sua sina de bicho eterno, Sussu ficou resmungando na sala, bêbado e sozinho, até ser vencido pelo sono e resolver ir para a cama com a barriga irremediavelmente vazia.

Caruncho, Mala e Mala Tyson

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