terça-feira, 21 de abril de 2009

FIDEL EM OURO PRETO

O final dos anos oitenta marcou o começo do fim da divisão ideológica do mundo. Naquela época o capitalismo era o regime em quase toda a extensão das Américas e na Europa Ocidental, enquanto o espectro de Marx pairava sobre a Europa Oriental e grande parte da Ásia. A União Soviética ainda era o maior país do mundo, apesar de já vir estrebuchando. Diziam até que os russos tinham abandonado sua dieta tradicional e parado de comer criancinhas! O presidente deles sabia rir (uma coisa inusitada para um russo), vivia querendo exibir a perestroika (eu, hein!) e era íntimo dos que deviam ser seus inimigos: o presidente dos Estados Unidos e a primeira-ministra do Reino Unido. Coisa para comunista ortodoxo sentar do meio-fio e chorar! Desta confusão saiu a nova formação do Trio Parada Dura, o que mudou para sempre a política mundial: Gorbatchev, Reagan e Thatcher.

Enquanto isso, na cosmopolita Ouro Preto, os estudantes mantinham viva a chama do sonho socialista. Em homenagem à Cuba, a trincheira de resistência contra a dominação capitalista das Américas, os formandos de 1988 tomaram a brilhante e megalomaníaca decisão de escolher Fidel Castro como paraninfo da turma. A comissão de formatura se esforçou, mas Fidel parecia não de se dar conta da importância geopolítica da Escola de Minas. Depois de muita negociação com o governo cubano, tudo que conseguiram foi que o adido cultural no Brasil representasse “El Comandante” na solenidade.

Mas a Pulgatório não se contenta com pouco. Nosso companheiro Xaxim estava entre os formandos daquele ano e merecia uma formatura à altura de um pulgatoriano! Garantimos a ele que no dia da colação de grau Fidel Castro lá estaria. E assim foi. Quando o reitor da UFOP deu início à solenidade, a comitiva cubana apareceu no mezanino do cinema e em seguida percorreu em grande estilo os corredores da platéia, sendo ovacionada pela multidão que lotava o local. Arado, de sobretudo verde-oliva, barba postiça e boné de guerrilheiro, além de uma penca de medalhas faturadas em algum campeonato de truco, saudava os presentes com galhardia. As pessoas se emocionavam como se estivessem na presença do verdadeiro Fidel. Como bom líder revolucionário, ele caminhava na companhia do seu Estado-maior: os generais Trubufu, Delano e Geromin. Todos a caráter, de barba, capacete e uniforme de campanha. Delano, como o membro mais liberal da Alto Comando, fez o papel de líder da ala gay do exército cubano, de camisa vermelha e faixa amarrada na testa.

O sucesso foi total, ofuscando a presença e o discurso do adido cultural de Cuba. Os formandos, gratificados pela presença de Fidel e de seus mais graduados oficiais, fizeram questão de serem fotografados com a comitiva na porta do cinema. Um a um. E a Pulgatório mais uma vez mostrou que se “hay que hacer uma fiesta, vamos hacela derecho!”.

Caruncho, com Arado

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você pode comentar à vontade, pode ser contra ou bater palmas - não vai fazer diferença alguma!