terça-feira, 21 de abril de 2009

A EVOLUÇÃO DAS FESTAS

Em Ouro Preto não há curso de Economia, mas o pessoal da Pulgatório sempre foi keynesiano de carteirinha, mesmo sem saber. A república vem praticando há décadas, com incrível coerência, uma eficaz política econômica anti-cíclica. O Brasil viveu um período de mais de vinte anos de estagnação econômica, a menos de alguns espasmos pontuais. Enquanto isto, à medida em que a república ia ganhando idade, prestígio e novos ex-alunos, as festas foram ficando cada vez mais sofisticadas. É como se o fantasma de Lord Keynes pairasse pela casa iluminando as iniciativas dos moradores: “É nos momentos de crise que o investimento é mais importante!”. E a galera investia pesado, principalmente no mercado de derivados de álcool.

No início dos anos 1980, logo após a crise que deu fim ao milagre econômico brasileiro, as grandes festas da Pulga, com a honrosa exceção dos Doze de Outubro, eram regadas a cachaça (vagabunda) e vinhos de suspeitíssima qualidade. Vinhos obviamente comprados em garrafões de cinco litros. O mais barato e, por conseguinte, mais comprado era um tal de Marcon. Sangue de Boi (pronuncia-se Sangue de Buá!), só quando se dispunha de alguma folga inesperada no orçamento.

Seguindo a velha máxima da sabedoria mineira: “Pinga é ruim. O bão é a zuêra!”, o pessoal bebia porque sabia onde queria chegar. O conteúdo do copo era apenas o meio para chegar lá. Para tornar a coisa digerível para paladares menos trogloditas, havia as famosas batidas. Bacurau era o barman sênior e comandava as tardes alquímicas de preparação das poções. A especialidade do chef era a batida de pêssego: Vinho (Marcon), leite de condensado, pêssego em calda e gelo. Faziam-se vários garrafões que depois eram espalhados por cantos estratégicos na cozinha, na sala e na boate, para que ninguém tivesse que andar muito para molhar o bico. As meninas adoravam o sabor “docinho” e o troço descia fácil mesmo. De tão doce, os desavisados bebiam sem se dar conta do teor alcoólico. A festa corria e os garrafões, longe da geladeira, esquentavam. Mas aí todo mundo já estava bêbado. O dia seguinte é que traria a ressaca monumental! Nas noites de frio do inverno a batida era trocada pelo quentão, de cachaça (vagabunda) ou vinho (Marcon). A animação, assim como a ressaca, mantinha-se em alto nível.

As festas eram geralmente animadas pelas virtuoses musicais da própria casa, a bandinha de batucada que se auto-intitulava “Os Paralelos do Samba”: Bacurau, Zé Cachaça, Mário Barão, Lula Lelé, Gengis Khan e Caruncho, em esquema de revezamento. De vez em quando, alguns de nossos amigos músicos da cidade apareciam para dar uma palhinha e então trocávamos o sambão pela MPB. Nestas ocasiões tivemos grandes apresentações (gratuitas) do Jacó (no violão), Paxá (um monstro da percussão) e Dos Anjos (o Bob McFerrin de Ouro Preto). Era quando o Lula podia mostrar que também era cobra criada e arrebentava no violão.

Pois bem. Os anos oitenta foram passando e a economia brasileira foi ficando cada vez pior. E, curiosamente, ao mesmo tempo a república foi gradativamente deixando de ser consumidora de vinho. Com a licença poética de chamar de vinho àquela coisa vendida em garrafões. O país agonizando e a turma firme nas convicções keynesianas. A cerveja passou de bebida oficial do Doze para bebida padrão de qualquer festa. Como o consumo era voraz, as distribuidoras cediam graciosamente freezers, mesas e cadeiras e as festas iam ficando mais estruturadas. A quantidade de genteaumentando, a arrecadação cada vez maior, a sofisticação cada vez mais alta e os gastos cada vez maiores e mais diversificados, movimentando a economia ouropretana.

A bandinha foi perdendo sua função, um pouco pela incompetência musical dos novos titulares: Trubufu, Arado, Mala e, depois, coisas piores. Mas principalmente pelo sucesso que faziam os conjuntos profissionais de samba ou rock que eram contratados para animar as festas. Hoje em dia, uma festa na Pulgatório é um acontecimento em Ouro Preto. Para alegria de alunos, ex-alunos, meninas nativas, estudantes ou turistas e do comércio da cidade. Alegria e economia em movimento. Lord Keynes sorriria satisfeito vendo discípulos tão aplicados!

Caruncho

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