Como sói (jurei para mim mesmo que um dia ainda iria usar este verbo – pura pirraça) acontecer, fazia parte do programa da festa do Doze um racha aluno X exala. Esta pelada é um evento tradicional através do qual os bichos procuram se vingar de todos os trotes recebidos. Mas naquele ano decidimos que seria diferente.
Alugamos a quadra e montamos um time infernal e, para garantir que não haveria qualquer imprevisto, contratamos até o juiz. Escolhemos uma pessoa de moral ilibada, profundo conhecedor das manhas e artimanhas do futebol, possuidor de autoridade suficiente para conduzir o jogo dentro de regras republicanamente aceitas. Os alunos também montaram um time de primeira linha que reunia o que havia de mais exótico na face da terra – ia de um baiano ferrador até um japonês coçador. Traziam no curriculum o vice-campeonato das repúblicas daquele ano.
Após as fotografias de praxe, reunidos ao centro da quadra, o emérito juiz anunciou as regras válidas para o confronto:
Lateral:
Qualquer lateral, independentemente de quem tenha sido o último a tocar a bola, deve ser cobrado pelo time dos ex-alunos. Para ex-aluno, aluno ainda é bicho e bicho não tem direito nem a lateral.
Dividida:
Qualquer bola dividida deverá ser apitada como falta a favor dos ex-alunos. Aluno não tem direito a disputar nem bola com exaluno.
Impedimento:
Se algum aluno conseguir chegar até a meta adversária e representar perigo de gol contra o time dos ex-alunos, o juiz poderá apitar impedimento. O aluno não pode ser abusado a ponto de querer ganhar o jogo tão facilmente.
Travamento:
Se algum ex-aluno, no momento de bater contra o gol adversário, for travado, o juiz poderá apitar pênalti a favor dos exalunos. Os alunos não podem impedir que os ex-alunos ganhem o jogo.
Roubada de bola:
Se algum ex-aluno conseguir se aproximar com perigo de gol e tiver a bola tomada por um aluno, o juiz poderá apitar pênalti a favor dos ex-alunos. Os alunos não podem ser tão abusados.
Expulsão:
Se o goleiro do time dos alunos defender algum pênalti, o juiz poderá determinar a sua expulsão. E nenhum dos outros jogadores poderá assumir as funções de goleiro. A função do goleiro dos alunos não pode ser a de impedir a vitória dos ex-alunos.
Reclamação:
Os alunos não terão qualquer direito a reclamação, sendo este procedimento punido com cartão vermelho. A reclamação de exaluno deverá ser acatada imediatamente pelo juiz. O jogo é, antes de tudo, democrático. Todos os ex-alunos têm direitos iguais.
Torcida:
Somente será permitida a torcida a favor dos ex-alunos. Os torcedores dos alunos somente poderão entrar no estádio depois que o juiz determinar o final da partida e deverão ficar calados durante todo o tempo.
Substituições:
Os alunos não poderão fazer qualquer substituição durante a partida. A quantidade de substituições para os ex-alunos é ilimitada. Se houver alguma dúvida sobre uma substituição no time dos exalunos, o juiz poderá autorizar que eles atuem com um jogador a mais até que a dúvida seja sanada. Esta condição é óbvia, afinal temos muito mais ex-alunos do que alunos.
Disputa de pênaltis:
Se houver empate no tempo regulamentar, o jogo deverá ser decidido através da cobrança de pênaltis. A marca de pênalti para a cobrança dos ex-alunos será a cinco passos da linha do gol. Para os alunos, a vinte e cinco passos. Se o goleiro dos alunos defender algum pênalti, o juiz deverá mandar voltar a cobrança, porque provavelmente o goleiro se movimentou antes da bola. É irrelevante o fato do goleiro dos alunos ter ficado estático, imóvel. No seu subconsciente, ele pensou em cair para um dos lados e é este pensamento que deverá ser punido pelo juiz.
Tempo de jogo:
O jogo é apenas simbólico e será composto de dois tempos de dez minutos cada, com um intervalo de trinta minutos entre eles. Mas o juiz poderá encerrar antecipadamente o jogo, caso os exalunos já estejam impondo uma vitória por mais de dois gols de diferença. O juiz poderá conceder tempo técnico, a pedido de qualquer um dos times, exclusivamente para reabastecimento dos jogadores (cerveja) ou o seu desabastecimento (xixi).
Regra de ouro:
O juiz, caso julgue necessário, poderá estabelecer outras regras, no decorrer da partida, bastando para isto consultar o interesse dos exalas. A regra básica é manda quem pode, obedece quem tem juízo.
E assim, estando reunidos no meio da quadra, após enunciar as regras válidas para aquela partida, para evitarmos imprevistos que pudessem prejudicar os interesses dos exalas, além das regras do jogo, combinamos também o placar final da partida antes que ela começasse. Seria “um jogo apertado e que terminaria com a vitória dos exalas por 3 a 2”. Queria garantir que os ex-alunos não seriam derrotados em hipótese alguma. Obviamente que usamos a palavra “combinamos” apenas por uma questão de licença poética, digamos, um plural majestático.
Apesar da clareza e imparcialidade das regras, o jogo transcorreu na maior tranquilidade, tornando a figura do juiz perfeitamente inútil. Tudo bem que ele tentou até fazer um golzinho, mas nem isto conseguiu. Os exalas, embora jogando desfalcados de grandes craques que já envergaram gloriosamente a camiseta da Pulga, dominaram o jogo do começo ao fim e impuseram o dilatado placar de 7 a 2, deixando claro que juiz não ganha jogo.
Caiafa
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