terça-feira, 21 de abril de 2009

A LOGÍSTICA DA CAIXA D'ÁGUA

No início eram duas caixas d’água na casa: uma sobre o forro da cozinha, que servia ao andar térreo (banheiro e cozinha) e outra menor, sobre o forro do andar superior, para a alimentação do lavabo daquele andar. Juntas somavam pouco mais de mil litros. Com a construção dos andares inferiores, mais dois mil litros de reserva foram acrescidos à casa nas caixas que ficaram sobre a laje.

No final dos anos 80 começaram os primeiros sintomas de escassez de água por ocasião das festas. Sendo o fornecimento de água gratuito, não havia interesse do município em fazer qualquer investimento na sua distribuição, tornando-se a rede pública cada vez menos adequada para o atendimento da demanda. Água existia, o que não estava de acordo com a necessidade era a tubulação. Pelos mesmos canos que corria água, vinte anos antes, para o atendimentode uma população de 20.000 habitantes, corria agora água para um município de 80.000 habitantes. E, por ocasião de festas, quando havia um afluxo maciço de turistas, como é o caso do carnaval e a festa do Doze, o número de pessoas a fazer uso da rede pública passava de 200.000 pessoas. E a tubulação de distribuição ainda era a mesma.

No final dos anos noventa, a situação ficou insustentável: não havia carnaval em que não faltasse água pelo menos um dia. Existia água, mas faltava eficiência na sua captação. Para resolver isto, um célebre engenheiro civil, envolvido em negócios de petróleo, desenvolveu um sistema que otimizava a captação da rede pública. Otimizava é apenas um eufemismo para o ato praticado ao arrepio da lei. Exposto na boate, o sistema que alguns entendiam como pirata era exibido com orgulho. No século XXI, aquela tecnologia já estava obsoleta. E a cada carnaval que acontecia, mais cerveja era encomendada, mais banheiro era usado e mais água faltava. Os republicanos começaram a sentir vergonha em morar em uma casa que dera ao mundo mais de oitenta engenheiros, mas que não conseguia resolver um simples problema de falta d’água.

Criaram então a CCD’A, a comissão da caixa d’água, que tinha por objetivo aplicar uma tecnologia que resolvesse o problema da falta de água. Em uma de suas primeiras reuniões concluiu-se que a solução seria aumentar a capacidade de estoque da casa. Como o fenômeno somente ocorria quando havia maior incremento turístico, a república deveria se preocupar em resolver o problema dessas ocasiões e para isto bastava aumentar a sua capacidade de armazenamento. Em caso de falta d’água, comprava-se a carga de um carro pipa e o problema estaria resolvido. Para este problema de estocagem, solicitaram a opinião de outro engenheiro, que foi um dos responsáveis pela construção da barragem de Tucuruí. E construíram uma nova caixa d’água com capacidade para nove mil litros, bem no Buraco do Compadre. Agora a república contava com uma reserva d’água de 14.000 litros – jamais a falta d’água voltaria a ser um problema.

Tudo pronto para o carnaval de 2006, também chamado de “o carnaval em que não faltaria água na Pulga”, as turistas começaram a chegar e a casa começou a encher. No total, entre moradores e turistas, contabilizavam-se cerca de cem pessoas. E no meio do domingo a água acabou... Simples, é só chamar o carropipa! Aí descobriu-se que o carro-pipa não fazia entrega aos domingos...

Mas na segunda-feira logo pelo começo da manhã, isto é, por volta das duas da tarde, o carro-pipa já estava lá. Fazendo uso de uma logística muito simples, enchiam-se todas as caixas. O caminhão descarregava na caixa maior do Buraco do Compadre; desta, por bombeamento, a água era levada até a caixa do andar superior; uma vez cheia, fechava-se uma válvula que era alcançada pela janela do lavabo; o bombeamento continuava até o enchimento das caixas do andar térreo; quando cheias, fechava-se uma segunda válvula, alcançável pela janela da cozinha, que direcionava o fluxo para as caixas sobre a laje da parte nova; uma vez cheias, desligavase a bomba; e o que sobrava ficava na caixa maior. Para a perfeita sincronia do processo, todos os bichos fizeram um curso intensivo de manejo. Um bicho ficava junto à caixa d’água do andar superior, emitindo relatórios periódicos sobre o nível da água, sinalizando para o fechamento da primeira válvula. Outro ficava junto àquela válvula para acioná-la no momento correto. Outro ficava junto das caixas do andar térreo para sinalizar quando do atingimento de seu nível. Outro ficava junto à válvula que fechava o acesso a essas caixas. Outro ficava junto às caixas sobre a laje, para verificar o seu nível e o desligamento da bomba. E o outro ficava no Buraco do Compadre para sinalizar ao carro-pipa o final do descarregamento. Tudo muito simples, com a melhor tecnologia high-tech e todo o sistema de comunicação através de walkie-talkies, que nem em filmes de Roliudi.

O que faltou de água no domingo sobrou na segunda-feira, no que passou à história como sendo o Carnaval da Imunda, com as turistas vendo suas malas, roupas e colchonetes flutuando pelos quartos e descendo pelas escadas da Pulga sobre os dois mil litros d’água que vazaram da caixa de 250 litros do andar superior.

Caiafa

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