“Mas não é só: algo de indefinido paira no ar, como se aquele certo “não sei que” deixado pelos acontecimentos nos objetos, lugares e casas, no próprio ambiente, enfim, onde eles se desenrolaram, os houvesse marcado para sempre. Com a criação da Escola de Minas e Metalurgia em 1876, a cidade ficou cheia de alegres rapazes que estudam minérios, namoram as moças e fazem serenatas, dando à antiga Vila Rica aquela atmosfera que fez o escritor português Vitorino Nemésio compará-la a uma miniatura de Heidelberg, Coimbra ou Salamanca.”(Lucia Machado de Almeida in Passeio a Ouro Preto)
Lucia Machado de Almeida fez esta observação pouco tempo depois da fundação da Pulgatório. Hoje, talvez ela pensasse diferente. Ou pelo menos inverteria a ordem dos fatos: estudam minérios, namoram as moças e fazem serenatas... Não é bem assim que as coisas acontecem... Não necessariamente nesta ordem de prioridades. A cumplicidade sempre foi um fator marcante na vida pulgatoriana. Quantas vezes um pulgatoriano chegou ao seu próprio quarto onde morava sozinho e o encontrou trancado? Por dentro... Quantas namoradas não foram objeto de uma geração inteira? Ou mesmo de mais de uma geração? Isto, no tempo em que namorar era
assumir um compromisso quase sério. Este compartilhamento da intimidade, muitas vezes, estende-se bem mais além da vida de estudante, enveredando pelos caminhos do ex-aluno. Já existe, inclusive, o registro confesso de compartilhamento de namorada entre exalas. Compartilhamento, neste caso, é namorar simultaneamente duas pessoas.
Desde o Doze de 2006, quando passamos a contabilizar a presença pulgatoriana, a média da casa tem sido de cerca de quarenta ex-alunos por evento. E não são quarenta que moram nos arredores, são exalas de todos os cantos do país: Fortaleza, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná, Goiânia, Santa Catarina, etc. Embora esses quarenta sejam parte de um conjunto de cem, torna-se um número mais expressivo ainda quando comparado com os de outras repúblicas, muito mais antigas do que a Pulga. Repúblicas com mais de sessenta anos ficam extasiadas quando recebem uma simples dúzia de ex-alunos. Outras privilegiam a festa para turistas, deixando os ex-alunos irreconhecidos e irreconhecíveis no meio da multidão anônima. Estes perdem o prazer do retorno e tornam ainda mais vazias as casas de lembranças vazias.
Naquele 2006, a república, empolgada, recebia exatos quarenta ex-alunos, muitos dos quais distantes da casa há mais de trinta anos. Alguns legalmente solteiros, outros legalmente casados, outros com alvará até segunda-feira e outros que estavam ali, mas na realidade nem estavam ali... Pelo menos era o que diziam. Em um canto, jogava-se caixeta, no outro se tomava cerveja e jogava-se conversa fora. A bateria há pouco fora encostada pelo esgotamento dos músicos, o violão já estava guardado, o único som audível além das vozes que se entrelaçavam vinha de um CD distante da boate quase deserta. Quase... O ambiente era quase idílico, parecia até uma república familiar em dia de Corpus Christi.
De repente, silêncio total... Respiração suspensa, gestos nervosos e olhares entrecortando os ares, é como se ameaçasse uma tempestade de verão, nascida longe e chegando rápida para causar estragos muitos. Irrompe pela porta da casa um caso de amor mal resolvido. A moça guardava em seu coração a esperança de ainda ter aquele pulgatoriano. Esperança distante que nem os anos e nem o casamento do pulgatoriano conseguiram arrefecer. A situação era grave, a moça era decidida e o pulgatoriano ali se encontrava legalmente casado e devidamente acompanhado de sua dona. Falou mais alto a decantada cumplicidade pulgatoriana.
Passando por cima da mesa de caixeta, enchendo o peito de brios pulgatorianos, o mais inveterado dos players atravessou a sala, pegou pelo caminho o Tonhão, amigo do Trubufu que visitava a Pulgatório pela primeira vez, e levou-o até a recém-chegada:
- Fulana, este é o Tonhão e vocês formam um belo casal!!!
E não precisou dizer mais nada. Salvaram-se as aparências e livrou-se a Pulga de mais uma cena de novela mexicana. Tonhão, que naquele momento estava investido de procuração expressa passada pela República Pulgatório para agir em seu nome, com um sorriso que não cabia na cara, lambuzou-se no conceito amplo de cumplicidade. É agradecido até hoje.
Caiafa
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