terça-feira, 21 de abril de 2009

SANTITA

No início dos anos setenta, para tomar uma cerveja bem gelada e pagar um preço justo, bastava ir até a rua Xavier da Veiga. Além da cerveja havia também o plus do show ao vivo, tipo come com os olhos e lambe com a testa. Esta era a chamada Rua da Zona porque nela concentrava-se o baixo meretrício ouropretano. E todas as meninas daquela rua conheciam a Pulgatório, defronte a qual passavam quando “iam à cidade”. Isto quando não entravam para um cafezinho e um dedo de prosa, fazendo ferver o sangue da Dona Luzia, a nossa comadre de então. Além disto, havia até pulgatoriano que reconhecia como prima legítima uma das operárias do local. Originários da mesma cidade do nordeste mineiro, com parentes em comum, tratavam-se na intimidade por primos. Só primos e nada mais, nem beijinho.

As casas da Rua da Zona eram muito parecidas: uma grande sala onde a mercadoria ficava exposta sob uma luz meio morta e um som sussurrante e quartos para a sua degustação. Na sala principal, além da mercadoria, havia também cadeiras para que os compradores de serviços pudessem apreciar as meninas e tomar sossegadamente a sua cerveja deliciosamente gelada. As cadeiras ficavam próximas às paredes ou ao redor de mesas e as pessoas as ocupavam de acordo com a conveniência de seus objetivos. O centro da sala era o espaço destinado aos amantes da dança, onde compradores e mercadoria combinavam suas condições de entrega e pagamento. Alguns anos depois, João Bosco, que viveu neste mesmo ambiente, e Aldir Blanc descreveriam este momento no célebre bolero “São dois prá lá e dois prá cá”.

De todas as casas, uma era a mais importante: a casa da Santita. Santita foi a mais esperta e matemática das cafetinas ouropretanas. Dividiu a cama com os homens certos, somou segredos e confidências, dividiu a sociedade local e multiplicou seus haveres com a exploração das fraquezas humanas. Apoderou-se da mais valia do trabalho de suas meninas, cobrando pela hora de uso de seus quartos o que se pagaria por toda uma noite em um hotel com camas mais limpas. Poucos, muitos poucos, são aqueles que poderão dizer nunca terem entrado em sua casa, nem que fosse para tomar uma simples cerva.

Havia poucos meses que a Pulgatório fora inaugurada na rua do Paraná. Gente nova, carne nova, porém duros – em tudo, duros!!! Apesar dos inúmeros convites feitos pelas moças que durante o dia cuidavam das relações públicas da rua, os pulgatorianos ainda não sabiam das maravilhas da cerveja santitense. Mas, naquele dia foi diferente. Depois de tomar algumas cervejas que esvaziaram o seu bolso e de dançar até engomar a cueca, o pulgatoriano levantou-se, foi até a porta, olhou em redor, voltou, pegou uma das cadeiras e saiu em carreira desabalada pela rua. A cadeira foi devidamente incorporada ao patrimônio da república e o pulgatoriano nunca mais tomou cerveja na Santita. Mas praga de cafetina é pior do que praga de mãe: um ano depois pegou uma gonorréia que lhe roubou muitos finais de semana com outras meninas, ao participar do primeiro grande bacanal da Pulgatório. Foram quatro pulgatorianos e quatro mulheres no quartão. A sua, fiel colaboradora da Santita, cobrou-lhe a cadeira. Praticamente, a conta foi de um pau.

É esperado que muitos pulgatorianos hoje casados e até mesmo pais de família negarão até a morte terem sido freqüentadores da casa. Dr. Gerardo Trindade, médico, professor da Escola de Minas e emérito conhecedor dos hábitos dos estudantes é que sabe quantos foram os casos de gonorréia e cancro que passaram pelo seu consultório. Todos com o DNA santitense! É muito difícil a qualquer pulgatoriano negar que tenha passado ao menos uma noite de suas vidas na casa da Santita. Mesmo nos pulgatorianos mais novos, que não chegaram a conhecer o apogeu do lugar, essa negativa deve ser mais bem avaliada.

No carnaval de 2006, preocupados com a quase certa falta d’água e a lotação da casa, os bichos alugaram, para maior conforto dos ex-alunos e amigos mais chegados, uma andar inteiro de um casarão na Rua Xavier da Veiga. Alguns, pela primeira vez, passaram não só uma noite, mas todas as noites de um carnaval na casa da Santita.

Caiafa

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você pode comentar à vontade, pode ser contra ou bater palmas - não vai fazer diferença alguma!