O pulgatoriano é o retrato típico do brasileiro médio: é cooperativo quando deveria ser competitivo e competitivo quando deveria ser cooperativo. Quando está disputando uma vaga no
vestibular, ajuda seus concorrentes passando-lhes cola, reduzindo suas próprias chances; quando percebe que seu irmãozinho já se arrumou com uma perseguida, tenta entrar na parada e furar o olho do bem sucedido, destruindo a noite do seu amigo e deteriorando a relação futura entre eles. Como este tipo de comportamento de validade temporária comprometia o relacionamento permanente pósfesta da república, Matraka, vulgo Macapau, um dos maiores matadores da casa, resolveu fundar o MGP – Movimento do Gosto Parecido. E o MGP tinha as suas leis próprias que passaram a ser observadas por toda a comunidade pulgatoriana:
Art. 1º: Se alguém já pegou, tem dono.
Art. 2º: Se o dono não é você, saia fora.
Embora o espírito da lei fosse o de estabelecer a paz entre os pulgas, sempre houve republicanos contrários à sua aplicação. Alguns, porque são contrários à tese de direitos adquiridos, outros porque fazem da guerra uma razão de viver. Aqueles são normalmente os que chegaram depois; e estes são os que mais gostam de atirar do que ganhar a batalha e louvam as ocasiões em que podem posar de franco-atiradores. Ambos, raramente são bem sucedidos. Apesar de todas as controvérsias a respeito da aplicabilidade ou não da lei do MGP, nunca se discutiu se ela seria
aplicável ou não a casos com suspeitas de relacionamento homossexual. É um dos poucos casos em que ninguém quer ser competitivo. E muito menos cooperativo.
A Pulgatório sempre foi uma casa muito avançada na compreensão do ambiente social em que se encontrava inserida. Soube conviver com os nativos na época em que isto era quase um pecado mortal. Em contrapartida foi uma das repúblicas que melhor se integrou com as nativas. Soube receber as pessoas mais diferenciadas, como o pessoal do Living Theater, sem demonstrar qualquer preconceito, e com isto tornou-se uma das repúblicas mais afamadas no Brasil e no exterior. Soube respeitar e se fazer respeitada.
Mas o homossexualismo foi um fator somente aceitável quando não envolvia o morador da república. Se envolvesse o pulgatoriano, seja de forma ativa ou passiva, este era logo discriminado. Ou cometia algum desatino, um gesto heróico e machista, ou deixava a casa declarando a sua opção sexual ou mesmo sem declará-la. Por isto vangloriava-se a Pulga de nunca ter formado um homossexual.
Mas os tempos mudam e as pessoas também. Até que em uma festa do Doze, nos anos recentes, um exala, contra o qual nunca pairou qualquer suspeita de comportamento homossexual, sóbrio, na quadra da república foi flagrado dirigindo elogios suspeitos a um bicho da casa:
- Você é lindo!
O então bicho, aparentemente, gostou do elogio, tanto é que não reagiu quando o exala acariciou-lhe o rosto e os cabelos. Obviamente que tenho que dar um desconto a toda esta interpretação dos fatos, uma vez que poderia estar um pouco mais bêbado do que o normal para entender o que se passava. Talvez fosse apenas fruto do álcool que estivesse a me cobrar um preço mais elevado por ter abusado de sua presença farta. Talvez tivesse sido tudo um resultado da mistura do álcool com uma mente corrompida e fértil, se a Boo, que na ocasião era a senhora Previnido e estava sóbria e posicionada do lado oposto do casal de pulgas, com os olhos arregalados e respiração suspensa, sentenciou:
- Eu também vi e ouvi!
Afinal, tem gosto parecido para todo tipo de gosto...
Caiafa, com a colaboração de Xyko Naia
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Você pode comentar à vontade, pode ser contra ou bater palmas - não vai fazer diferença alguma!