terça-feira, 21 de abril de 2009

O GRANDE GALA GAY

O Grande Gala Gay já é parte indivisível do carnaval pulgatoriano. É o mais tradicional dos bailes carnavalescos em ambiente fechado de Ouro Preto. Já se tentou documentá-lo para matéria jornalística da Rede Globo e já se tentou copiá-lo em outras repúblicas, mas o GGG se reinventa a cada ano e cada vez mais se torna uma renovada exclusividade pulgatoriana. De início foi apenas uma brincadeira ingênua onde os meninos se vestiam de menina e desfilavam desengonçadamente. Hoje é uma verdadeira orgia encobertada pelo rótulo de festa gay. É a sacanagem consentida e pública no seu estado mais puro – nem os bacanais romanos conseguiram tanta e tão variada perversão. É um vale-tudo onde só não vale reclamar.

Se de início havia certa dificuldade em convencer os bichos a desfilar, hoje, ao contrário, o difícil é convencer os ex-alunos que já existem modelos em excesso para participarem do desfile. Foi necessária até a criação da categoria de “seguranças” para acomodar os mais insatisfeitos.

Se de início havia certa dificuldade em conseguir juradas para a avaliação dos meninos, hoje, ao contrário, o difícil é convencer as meninas a ser apenas parte da platéia. Foi necessária até a criação da categoria de “carrascas” para que algumas pudessem exercer, com mais vigor, seus critérios próprios de avaliação. Mas não se espante, se novas perversões surgirem nos próximos anos.

Se de início namorada e noiva de aluno e exala achava tudo aquilo muito engraçado e ingênuo, hoje fazem o possível e o impossível para afastarem seus amados da festa. Muito namoro já foi machucado por conta desses bailes nada gays.

Dificilmente um “modelo” consegue passar ileso pela passarela: é apertado, esfregado, mordido, lambido e desnudado por um bando de anônimas e conhecidas que sabem que estão lá exatamente para isto. E, ainda que consiga se safar com poucas escoriações, posteriormente é entregue à sanha das carrascas que dele fazem o melhor uso possível. Frequentemente a orgia extrapola os limites da conveniência, descaracterizando o desfile; nestas ocasiões entram em cena os seguranças. É aí que mora o perigo – as luzes se apagam, as meninas descobrem que são a maioria absoluta no recinto e os seguranças percebem que são apenas mais um pedaço de carne fresca atirada à jaula. Parafraseando Dante, deveríamos colocar acima da porta da boate uma placa com os dizeres: “Vós que aqui entrais, deixai de fora todas as esperanças de voltares intacto – aqui é a Pulgatório!”

Por volta dos anos noventa, levei meu filho a um desses bailes. Havia um bicho, muito tímido e engraçado que gostaríamos que desfilasse. Mas o rapaz era muito tímido, mal pronunciava seu nome, e não concordava em participar do desfile porque vestir-se de menina ia contra suas convicções pessoais. Tinha muito receio do que iriam pensar sobre suas preferências sexuais. Precisamos dar muita cachaça para o bicho amolecer. Já tomado pela mardita, foi cuidadosamente maquiado, botaram-lhe um saiote e uma meia arrastão, típica de garota de programa. Entrou e arrasou. Rebolou, revirou os olhinhos, esfregou-se sensualmente na coluna no meio da boate, fez caras e bocas, lançou olhares lânguidos para a platéia masculina e desafios ao público feminino.

O desespero tomou conta do meu filho, na ocasião com apenas treze anos, quando, no correr do desfile, o bicho tímido tentou agarrá-lo no meio do povo. Ficou traumatizado para sempre. Hoje, engenheiro formado com mais de trinta anos, ainda pensa que todo ruivo sardento é veado...

Caiafa

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