terça-feira, 21 de abril de 2009

RISADINHA, VERSÃO EX-ALUNO

Se o Risadinha aprontou o que podia e deixou sua marca como morador da Pulgatório, mais marcante ainda foi sua breve carreira de ex-aluno. O Risada era o que se pode chamar de típico “Filho de Gorceix”. Tinha um orgulho imenso de ter estudado na Escolinha e bradava isto aos sete ventos. Aliás, bradar era com ele mesmo, já que sutileza era palavra inexistente em seu vocabulário. Falava alto, sempre, e seu tom de voz subia na razão direta de seu grau etílico, como ele mesmo diria na sua indefectível retórica de engenheiro. Como não poderia deixar de ser, honrando o apelido, ele gargalhava farta e escandalosamente a qualquer hora, por mais sem graça que fosse a situação. Era capaz, por exemplo, de declarar que acabara de cruzar com o velho professor Joaquim Maia na rua Direita, de terno, gravata e cachimbo em punho e cair numa gargalhada tonitruante! E ninguém compreendia qual era a razão para tanto riso, já que o velho Maia fazia isto todos os dias.

Suas visitas à república, quase sempre de surpresa, punham a bicharada em polvorosa. Chegava invariavelmente chutando a porta e gritando, enquanto os bichos mais novos fugiam em pânico:
- Bichos, cheguei! Quem vai ter a honra de buscar a caixa de cerveja que o doutor está pagando? Guardem minha mala num dos quartos lá debaixo, me arrumem um copo (de vidro!) e desliguem esta merda de televisão. Todos para a cozinha que a corriola vai começar! Ah, e providenciem umas meninas para florir o ambiente!

Os moradores mais velhos se divertiam com o desespero da bicharada e davam início ao “bonde” na cozinha, esperando pela cerveja. Em pouco tempo o Risada ganhava a simpatia de todos, revelando-se um típico “biscoito de polvilho”: só fazia barulho! Com cerveja gelada e platéia garantida, passava horas contando causos da república, dos professores da Escola ou até das empresas onde havia trabalhado. Tradicionalista militante, interrompia a conversa para uma sessão de cantoria: regia a introdução com “Domec, ginomec, ginoméia...”, atacava o hino da república e depois seguia vibrando com as velhas trovinhas dedicadas aos professores mais famosos da Escola: “Doutor Calaes”, “Tibiriçá” e outras de que só ele lembrava.

A coisa esquentava um pouco quando seu pedido era atendido e pessoal conseguia arrebanhar uma meninas para a festa improvisada. À visão de uma pessoa do sexo oposto, geralmente uma desavisada estudante da Escola de Farmácia, sua boca salivava. Era o próprio Lobo Mau de encontro com chapeuzinhos vermelhos. Sem muita conversa, Risadinha cumprimentava a moça mais próxima com um beijo na mão e iniciava uma sessão de lambidas que se estenderiam até o pescoço se ela não fugisse ou se ele não fosse contido pelos demais presentes. A menina ria sem graça do inesperado ataque e ele gargalhava mais uma vez, convidando-a para um brinde. Obviamente que tal abordagem tinha uma probabilidade de sucesso próxima de zero, mas este era seu estilo. Satisfeito ao se ver cercado de companhias femininas, gritava para a vítima:
- Oh, morena! Cor de jacu sem pena!

Em maio de 1994 tivemos a última grande cachaçada que contou com sua presença. Desta vez, no Rio de Janeiro, no casamento do Boi com a Andréa. Depois de sete anos de vida conjugal, os dois resolveram casar de papel passado, com igreja e tudo! Não se sabe para que. Provavelmente para promover a vinda dos pulgatorianos à Cidade Maravilhosa. A festa se estendeu por todo o fim de semana, já que os pombinhos marcaram a cerimônia oficial para a noite de sexta-feira. Tudo começou muito regradamente, com casamento católico e recepção na salão da igreja. Mas como uma boa corriola pulgatoriana, com a presença de Risadinha, Kadin, Fininho, Taioba e Caruncho, a noite terminou no Bracarense, o boteco mais famoso do Leblon, onde o Boi tinha caderneta e pagava por mês. Sob protestos do Risada, que achou um absurdo este negócio de tomar chopp em pé:
- Oh, Boi! Que boteco vagabundo é este que não tem nem cadeira? Eu vim lá de Minas Gerais para ser tratado como bicho?

Alta madrugada, os funcionários resolveram fechar o bar, apesar de nossos protestos. Só saímos depois que a água e o sabão usados para a lavagem do piso encharcaram o vestido longo da noiva, provando que o pessoal não estava para brincadeira e pretendia literalmente nos varrer porta afora.

Passamos o dia seguinte enchendo a cara de chopp e ao final da tarde o Boi convidou todos para um ataque ao seu estoque de uísque. Seria ridículo liberar os noivos para uma lua-de-mel depois de sete anos de casados! Fomos até o apartamento dos cônjuges acompanhados pelo pai da Andréa, preocupado em recepcionar com gentileza os amigos de seu genro. Depois de enxugar três ou quatro garrafas da seleta adega bovina, Risadinha abraçou o pai da noiva e soltou uma de seus pérolas:
- Seu Walter, hoje é um grande dia! O senhor está tendo o prazer de tomar uma com a nata da engenharia nacional!

No domingo voltamos cada um para sua cidade, com a certeza de termos deixado Andréa em boas mãos e com a cabeça estourando de ressaca. Dois meses depois o Risadinha morreu tragicamente, num acidente de carro.

Caruncho

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