terça-feira, 21 de abril de 2009

VÉIO, O GUAXO

Provavelmente é uma das partes mais ricas do folclore da república, tanto assim que não cabe em um só artigo. Mereceria um livro se todas as suas passagens pudessem ser documentadas. Muitos diriam que se trata de mera ficção; outros, conhecedores da figura, questionarão o porquê de não se ter ido mais a fundo. O Véio, também conhecido como Guaxo, é uma mistura de aluno, com exala, cafajeste e filósofo que aguçaria a curiosidade de qualquer psiquiatra que tentasse penetrar em sua personalidade. Penetrar no sentido de conhecer... Suas tiradas ainda pairam no ar da Pulgatório, até serem substituídas por outras, dele próprio, só que mais inspiradas e oportunas.

Era e continua sendo um guerreiro nato, digno de todo o nosso respeito e humor. É daqueles que guerreiam pelo prazer de guerrear, para não perder a forma, o hábito e a fama, o resultado da batalha nem sempre é o mais relevante. É igual a criança jogando bola: ganhar ou perder é mera circunstância, o importante é jogar. Um exemplo de esportista olímpico que sabe que o importante é guerrear!

Numa das guerras se deu bem, aliás, muito bem. Foi no carnaval de 1995, quando faturou a princesinha mais cobiçada daquele ano. Dizem que deu até a volta olímpica no Bêra com faixa de campeão. Ainda curtindo o tesão da batalha de 1995, entrou no carnaval seguinte com a bola toda. Fez reunião na república, psicodrama de approach, intensivão de assédio, expôs suas táticas de guerrilha e tentou transmitir parte dos conhecimentos adquiridos aos bichos recém chegados. Prometeu que no próximo ano escreveria um livro: “A Verdade Sobre a Arte da Guerra”, uma vez que lera um livreco com este nome (A Arte da Guerra) e percebera que o autor não era do ramo, no mínimo nunca estivera na Pulga. Explicava aos alunos atentos que o importante era disparar que nem uma metralhadora:
- Pelo menos uma você acerta, nada de ficar tentando passar por atirador de elite que só vai na boa.

Para o Matraka, bicho novo, foi até mais incisivo em seus ensinamentos:
- Bichão, se você não comer ninguém neste carnaval, pode cortar o pinto fora!!!

Sem seguir exatamente os conselhos de seu tutor, o bichão se deu bem (e continuou se dando bem por muitos anos). Os outros moradores, já conhecedores do tipo de guerra que se trava nestas ocasiões, também se deram bem. Só o professor ficou na mão, literalmente. Atirou muito e para todos os lados, mas ninguém tombou. Nem um beijinho conseguiu. Nestas ocasiões, quando a batalha mostra-se infrutífera, o Véio resigna-se e dá lugar para o Gilsinho. Este, mais comedido, contenta-se com um copo de cerveja e a declarar a todo o momento:
- Tô bêbado pra caralho...

Afogou suas mágoas em algumas loiras geladas, antes de devolvê-las quase que intactas ao vaso sanitário. Para acompanhar o processo de devolução acabou com o estoque de Engov, Figatil, Hormotox e Necroton da farmácia. Foi o carnaval de chamar o Juuuuuuuca.

Mas o Véio continuava sendo o Véio e fiel à sua política de estar sempre mastigando. Não importa o que você está comendo, o importante é não perder o hábito de mastigar. Fora as festas tradicionais, o seu campo de caça era o CAEM. Sentia-se em casa e por isto aplicava todas as manhas e artimanhas que sabia. As que não sabia, inventava na hora. Agarrava uma menina pelo braço, enquanto chutava a bunda de outra, ajoelhava-se diante de uma e tentava morder outra. Fazia qualquer negócio pela atenção da homenageada. Valia tudo, qualquer mulher era mulher: careca, banguela, gorda, feia, chata. Só evitava as muito baixinhas porque dizia que tinham mau hálito, por causa da proximidade BB (boca/bunda).

Era um espetáculo à parte sua maneira invulgar de conduzir a guerra de terra arrasada no meio do CAEM. Ali quem perdoava era Deus. A moçada da República e outros mais chegados desistiam até de guerrear só para acompanharem o Véio no seu pelejar. Aprendia-se muito, mas era impossível imitá-lo, ou pelo menos não tentavam fazê-lo de forma ampla, total e irrestrita. Depois de algumas cervejas, com a noite anunciando o final da festa, valia tudo para se obter alguma coisa parecida com mulher. Qualquer mulher. Nesta onda, muitos canhõezinhos com umas doze rodinhas, ou até mesmo freezerzinhos sem rodinhas foram arrastados para a Pulga. A cachaça tornava qualquer bagulho uma miss e qualquer monstrinho bêbada achava que tinha sido sorteada na Mega-sena. Difícil era acordar, olhar para o lado, examinar o estrago e levar o dragãozinho até a porta. A galera ficava na sala, fingindo que lia o jornal ou jogava caixeta, só esperando o desfile para eleger o mais corajoso da noitada.

A gatinha com rabo, bigode, costeleta, pernas com barba por fazer e músculos por tornear, implora:
- Gilsinho, meu amor, me acompanhe até a porta, pois estou com vergonha de sair sozinha.
- Se você está com vergonha, imagine eu!

Em um dos últimos carnavais, encontrei o Véio totalmente diferente do seu estado original. Não guerreava, estava sóbrio e comportava-se de forma exemplar. Estranhando aquela maneira de ser questionei o porquê de tal mudança:
- Estou ficando velho. Estou pensando seriamente em casar e constituir família. Já estou enganando aquela mulher há mais de cinco anos.

Fiquei temeroso de que o pior tivesse acontecido. Discretamente, tentei sentir a temperatura para ter a certeza de que não era nenhum surto febril. Aparentemente estava tudo em ordem. No carnaval seguinte retornou à velha forma, fora apenas um momento de fraqueza, comum a qualquer mortal.

Caiafa, com a colaboração de Xyko Naia

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