terça-feira, 21 de abril de 2009

O ENGENHEIRO PINOXÊ

Ao ser admitido na república, o primeiro ato de sua consagração como pulgatoriano é o batismo do bicho. Analisando-se as suas características físicas, seu comportamento, suas origens e todos os demais aspectos que envolvem sua pessoa, possibilita-se aos veteranos encontrar um nome mais adequado ao novo morador da casa. É através desse novo (e mais adequado) nome que o morador passa a ser reconhecido pelo resto de sua vida, um verdadeiro karma, sendo normal sabermos o nome pulgatoriano do exala, sem sequer ter idéia de seu nome anterior.

Logo após a sua formatura, Pinoxê encaminhou um e-mail a todos os pulgatorianos, estudantes e exalas, comunicando que, a partir daquele instante deixava de existir o estudante Pinoxê e passava a existir o engenheiro, se não me engano, Harley ou coisa parecida. Respondi àquele e-mail, contando-lhe uma história muito interessante:

Foi o nosso primeiro dia de aula no ginásio. Alguns meses antes ainda estávamos no último ano do curso primário. Usávamos calças curtas, éramos os mais altos e os mais velhos da escola e as nossas aulas eram ministradas por uma única professora que dominava todas as matérias. Era como se fosse a nossa segunda mãe. Cuidava não só da parte pedagógica, como também do nosso bem estar comportamental. Agora já estávamos com onze anos, não éramos mais uma criança e já éramos do primeiro ano ginasial do Colégio Militar de BH. Usávamos calças compridas, mas éramos os mais novos e os menores da escola e tínhamos um professor para cada matéria. E este não tinha nada a ver com o nosso pai. Pouco interesse tinha pela parte pedagógica e menos ainda pela comportamental.

Após a segunda aula, tivemos um intervalo mais prolongado, que nos permitia ir ao banheiro e fazer um lanche rápido. Ao ouvir o sinal informando o final do intervalo, fomos para a sala onde teríamos, pela primeira vez na vida, aula de francês. Lá chegando encontramos o Major Ávila, um professor carrancudo que se escondia atrás de uns óculos de aros grossos e lentes escuras. Não tivemos nem tempo de respirar, antes de ouvirmos as suas imprecações:
- Seus trogloditas, seus sacripantas (foi a primeira vez que ouvíamos isto)! O sinal não é para vocês virem para a sala. O sinal é para começar a aula!

Perplexos e temerosos víamos e ouvíamos aquele mestre excomungar em altos brados, de forma quase apoplética, aquela turma de garotos recém-saídos das calças curtas:
- Vocês estão roubando o tempo da minha aula! Estão prejudicando todo o meu planejamento didático! Seus trogloditas miseráveis! E não adianta ficar com carinha de choro, porque tenho uma mamadeira aqui na minha pasta para enfiar na boca do primeiro que chorar!

Quando o temor já ia passando, começou a aula de francês. Em francês:
- L’alphabetique française est composé de vingt six lettres...

Aí aumentou a vontade de chorar, mas isto só não aconteceu porque tímidas batidas à porta interromperam a aula. Era um garoto, com cara de mais criança do que os outros, que se atrasara:
- Dá licença, major...

O major Ávila ficou roxo-colérico, inicialmente sem palavras para comunicar sua indignação, mas ao se refazer descarregou toda a sua fúria contra aquele aluno:
- Seu... seu... seu cutia! O senhor parece uma cutia! Você tem cara de cutia! Tem jeito de cutia! É uma cutia! É uma cuuutia!!! Entre, seu cutia!

O garoto esgueirou-se timidamente e foi sentar-se em uma cadeira no fundo da sala. Ao seu lado, outro aluno que repetia a primeira série aconselhou:
- Não reclama, senão o apelido pega...

Não reclamou. Atualmente, aos 60 anos de idade e 45 de exército, entre os seus, incluindo sua esposa, é o coronel Cutia. Assim sendo, a partir daquela data, o estudante Pinoxê foi promovido a engenheiro Pinoxê.

Caiafa

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