Assim que estourou a crise econômica em setembro de 2008, as mais poderosas corporações empresariais norte-americanas recorreram ao guarda-chuva de proteção do governo Bush. O primeiro grande gigante a se beneficiar da ajuda governamental foi a seguradora AIG, até então considerada a maior do mundo em seu segmento de negócio. Pediu e obteve uma ajuda astronômica. Inicialmente foram 75 bilhões de dólares, depois mais uns 65 bilhões, depois ninguém mais sabe o tamanho do buraco. Pesou muito na decisão do poder executivo o fato da AIG ter sido a principal fonte de contribuição para a campanha de Dick Cheney, o poderoso vice de Bush. Não precisou nem passar pelo Congresso. Bush apenas informou que tivera que tomar aquela decisão para evitar prejuízos maiores, uma vez que a AIG era a garantidora de várias instituições que aplicaram suas reservas em títulos subprime. Quebrando a AIG, todas as demais instituições por ela garantidas também estariam sujeitas à falência. Para quem não entendeu, ou não sabe bem o que é, ou não conhece os fatos que deram origem à crise americana e a participação da Pulgatório nessa crise, segue breve histórico do que aconteceu.
Certo engenheiro geólogo, evitando voltar para São Paulo, onde seu time não conseguia ganhar nada há alguns anos, resolveu abrir um bar em Ouro Preto em frente a uma conhecida república. Por razões que só o coração explica, decidiu vender cachaça "na caderneta" aos seus leais fregueses, todos moradores daquela república. Tão leais que nunca deixaram de comparecer ao boteco. Por ser o único que vendia a crédito para aquele seleto público, em toda Ouro Preto, decidiu também aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha. A diferença entre o preço à vista da dose e o preço a prazo era o overprice que estudantes e exalas pagavam pelo crédito.
O gerente do banco onde o engenheiro mantinha a conta do boteco, um ousado administrador formado, com emibiêi e o escambau, tendo a percepção do overprice, entendeu que as cadernetas das dívidas do bar constituíam um ativo recebível e começou a adiantar dinheiro ao estabelecimento, para capital de giro, tendo o pindura dos republicanos como garantia. Os zécutivos da matriz do banco lastrearam os tais recebíveis da agência ouropretana, e os transformaram em CDB, CDO, UTI, OVNI, SOS, CRÉU ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer. Esses instrumentos financeiros, pela elevada expectativa de remuneração que proporcionavam, passaram a ser desejados pelas demais instituições financeiras. Mais capital de giro foi injetado no boteco do engenheiro, que estendeu seu business a outras repúblicas da cidade após haver esgotado a capacidade de consumo da casa que deu origem ao sistema de 51 a crédito.
O número de recebíveis aumentou e alavancou o mercado de capitais, conduzindo a operações estruturadas de derivativos na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhecia. Esses derivativos passaram a ser negociados como se fossem títulos sérios, a partir de instituições financeiras triple A, com fortes garantias reais de seguradoras também triple A, todos avaliados por agências de rating triple A, nos mercados de 73 países. Até que alguém descobriu que os estudantes de Ouro Preto não tinham dinheiro para pagar as pinduras, e o boteco do engenheiro foi à falência. E toda a cadeia sifu.
Mas navegando nas águas de que é melhor o governo socializar o prejuízo do que deixar quebrar, após os bancos e as seguradoras também passaram a mamar nas tetas do governo as empresas financeiras do ramo imobiliário, as montadoras, com seus paupérrimos executivos chegando em jatos particulares e pires na mão, e uma infinidade de outras atividades, valendo-se sempre do discurso da sua relevância social. Até que chegou a vez da indústria de filmes pornô, lideradas pelo lendário dono da Hustler, também pleitear uma ajudazinha de alguns bilhões de dólares. Mas porque a indústria pornô? O Congresso norte-americano, onde nenhum parlamentar admite ter recebido verbas desse segmento, resolveu não endossar o pedido e mais, resolveu inclusive investigar a origem de sua alegada penúria financeira, que estaria causando a aflição de alguns parlamentares ao verem suas amiguinhas sujeitas a terem que procurar outros empregos.
Com a ajuda da CIA, chegaram até uma república na rua do Paraná, onde por volta de 1997 foi instalada a internet para fins de pesquisa acadêmica. Rastreando os códigos de acesso, chegaram a um tal de Baiano, produto original de Ibotirama, criador da surucucu albina. Baiano autêntico, de olhos azuis, cabelos loiros e linguajar indecifrável. Esta figura havia descoberto a mina das mulheres peladas. Mas, percebendo que suas musas inspiradoras nem sempre estavam ao alcance imediato de suas mãos, cada vez mais calejadas, resolveu mantê-las em arquivo. Na primeira semana, no HD do computador, mas depois optou por salvá-las em disquetes, uma vez que não havia mais espaço no HD. Classificava-as pela cor da pele, pela cor dos cabelos, pelo tamanho da bunda, pela falta ou excesso de pelos pubianos, pela coloração do esmalte das unhas dos pés e por qualquer outro atributo que atendesse às suas expectativas sexuais. Exímio jogador de truco, sabia da importância de ter boas cartas, isto é, uma boa mão ou pelo menos uma boa na mão. Na dúvida, mantinha as suas cartas.
Zeloso do valor de sua coletânea, somente separava-se de seus disquetes na hora do banho, carregando-os para todos os cantos. Um belo dia, em uma apresentação na escola com o uso de data show, em frente ao professor e à grande turma acadêmica, entregou o disquete que supunha ser o seu trabalho a uma colega de classe. Esta, após haver clicado no primeiro documento que encontrou, abriu a imagem de uma deusa loira com peitões rosados e siliconados, ocupando todo o espaço do telão da sala de aula. O Baiano, de costas para o telão, primeiro viu a turma toda cair na gargalhada, virou-se e viu estampada na tela a essência de suas pesquisas noturnas. Perdeu a voz, olhou para o professor, cujas preferências sexuais eram conflitantes com a imagem projetada e sentiu que errara na dose. Não teve segunda chance, até porque levara as cartas erradas para o jogo.
De posse destas informações contidas em um relatório secreto da CIA, o Congresso norte-americano negou a ajuda pretendida. Alegava o inspetor da agência de inteligência norteamericana que seria muito mais barato investir alguns milhões de dólares na república da rua do Paraná. Assim estaria debelado um foco potencial de crises futuras.
Caiafa, com a colaboração de Xyko Naia
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